Ação no Futebol: Processos, Excelência em Performance.

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BUTECO
DO FLAMENGO – Para tentar elucidar algumas questões que poderiam ser
importantes para o futuro do nosso futebol, tenho conversado constantemente com
meu amigo e colunista licenciado do Buteco do Flamengo, Guilherme de Baére. Nem
preciso dizer que o futebol é o aspecto principal da vida do rubro-negro e
sempre acaba dominando a maior parte das conversas. E o assunto futebol foi
maximizado neste final de ano, ano eleitoral diga-se, por três aspectos
interdependentes:
– O
desempenho do time neste ano e nos últimos três anos (em particular, o
desempenho no returno com seis vitórias consecutivas com sequência direta de
sete derrotas em oito jogos);
– A
questão eleitoral, envolvendo a cisão entre os VPs que ficaram e os que
migraram para a chapa verde, a própria campanha em si, o comportamento dos dois
lados e os movimentos no jogo político rubro-negro;
– A
escolha de Alexandre Póvoa, que preferiu se manter neutro como VP de Esportes
Olímpicos, transformando a pasta num “não-assunto” pela neutralidade e jogando
peso maior sobre as discussões do futebol, naturalmente mais pesado. Se ele
tivesse escolhido um lado qualquer, o debate seria apresentado também em sua
pasta. A isenção acabou sendo ruim para os próprios esportes olímpicos e para
os projetos associados, como vemos principalmente com a questão do novo ginásio
olímpico.
Por
todos os fatores elencados acima e outros mais que sempre surgem (com menor
peso ou não) o futebol demanda maior atenção de todos, nestas semanas
pré-eleitorais. Independente do resultado do pleito, fato é que precisamos de
ações diretas no futebol do Flamengo. Algumas delas estão sendo executadas, e
outras com o tempo e o trabalho serão realizadas para que finalmente tenhamos
um futebol vencedor no Mais Querido.
Um
dos pontos que discutimos quase sempre, inclusive com outros Butequeiros
Rubro-Negros é a questão: “Precisamos de estrutura de trabalho e profissionais
capazes ou de um grande nome para conduzir o futebol do Flamengo?” Nossa
resposta é que precisaremos sim de funcionários-chave para que a execução seja
feita da melhor forma possível, mas seu trabalho só vai dar resultado se
dispuserem de processos eficazes de ação e avaliação para que caminhos ruins
sejam consertados e o aperfeiçoamento seja constante. Ou seja, entre pessoas e
processos, escolhemos os processos e por um motivo muito simples. O Flamengo é
grande demais para depender de apenas uma pessoa, seja ela quem for.
Um
exemplo que pensamos para esse tipo de ferramenta foi o de tentar aplicá-lo
imediatamente no campo mais difícil de todos, que é a avaliação do time e do
jogo de futebol. Ora, nenhum gerente, em nenhum ramo, precisa obrigatoriamente
entender as minúcias da operação de um setor para fazê-lo render bem. Como
gerente, ele precisa de ferramentas que lhe permitam avaliar se a operação está
sendo realizada de maneira satisfatória e, caso contrário, encontrar os erros e
buscar formas de corrigi-los. E aqui entram os processos. Serão eles que permitirão
ao responsável por gerenciar o departamento de futebol do Flamengo discutir em
termos objetivos com os habitantes do mundo da bola, sem cair no velho chavão
de que “esse cara não entende nada de futebol”. A ideia que apresentamos aqui
consiste simplesmente em mudar radicalmente a maneira de estabelecer metas para
o futebol e analisar os resultados e o desempenho do time.
1. Cenário Atual
O
modo tradicional consiste em estabelecer de um lado as fases que se deseja
alcançar nas copas e torneios eliminatórios (mata-mata) e de outro a faixa de
classificação no campeonato de pontos corridos. Este método apresenta dois
problemas evidentes, sendo o primeiro a necessidade de se aguardar o final dos
torneios (ou uma eliminação precoce nas copas) para se ter a real noção da
performance da equipe. O segundo é o risco de o desempenho ser mascarado por
uma arrancada pontual que dê a impressão de que as coisas começaram a evoluir
no final do ano. Assim, a proposta seria elencar estatísticas que pudessem ser
avaliadas AO LONGO da temporada evidenciando desvios e permitindo correções de
rota ANTES que o time atinja situações críticas.
As
maiores dificuldades do uso de estatísticas para avaliar futebol normalmente se
encontram na seleção dos aspectos a serem analisados e na escolha adequada de
padrões de comparação. As críticas a esse tipo de abordagem do jogo se apoiam
na dinâmica do esporte e da forte influência do acaso nos resultados da
partida. Hoje, graças a estabilização do campeonato brasileiro em forma de
disputa e número de equipes, já é possível estabelecer alguns parâmetros que
permitem balizar o desempenho das equipes. Um bom exemplo é a marca dos 44
pontos para evitar o rebaixamento. Ainda que hajam exceções, elas não são
muitas. Exemplo:
– Ao
longo dos últimos 10 anos, apenas 3 equipes fugiram a essa regra: Em 2010, o
Atlético-GO com 42 pontos e Avaí com 43, em 2011, o Cruzeiro, com 43 pontos e
em 2014 o Palmeiras com 40 pontos e a Chapecoense com 43.
Assim,
quando olhamos o histórico do campeonato é possível afirmar que as equipes que
não conseguem atingir essa pontuação, provavelmente estarão nas 4 últimas
posições.
Avançando
no raciocínio, a marca dos 44 pontos corresponde a um aproveitamento de 38,6%
dos pontos, o que já é um índice que permite a torcedores e dirigentes
avaliarem os desempenhos das equipes. Mas olhar apenas o aproveitamento não
basta, uma vez que ele mesmo, por ser baseado apenas nos resultados dos jogos,
pode ser mascarado por diversos fatores ao acaso: Sequência de jogos contra
equipes fortes ou fracas, lesões de jogadores importantes, erros de
arbitragens, jogar em casa ou fora, acúmulo de competições, etc. Todos podem
distorcer o índice de aproveitamento do time.
Finalmente,
o aproveitamento sozinho, não consegue indicar se o time está em evolução ou
declínio. Para saber isso, precisamos olhar para números que indiquem a
eficiência do time nos dois objetivos básicos do jogo: marcar gols e não sofrer
gols. Com o campeonato de pontos corridos estabilizado, já é possível
identificar estatísticas comuns aos times que performaram bem ao longo dos
anos. Assim, podemos traçar parâmetros de produção do time tanto ofensivos
quanto defensivos para comparar e avaliar o desempenho de uma equipe desde as
primeiras rodadas da competição.
2. Sistema ofensivo
A
produção ofensiva de um time se traduz em uma palavra: Gol. É o parâmetro
chave, o objetivo do jogo, mas ao contrário de outros esportes, o gol do
futebol é um evento raro. Por esse motivo, não parece razoável utilizar o
número de gols marcados como um bom critério de avaliação. Por outro lado, os
times que produzem mais finalizações vêm sendo ao longo dos anos, também os
times com melhores ataques da competição. E se ter os melhores ataques não
significa necessariamente estar no topo da tabela, os números comprovam que os
times com maior percentual de acerto de finalizações costumam ser os que tem
melhor desempenho no campeonato.
3. Sistema defensivo
As
melhores defesas são, em última instância, as que sofrem menos gols. Isso
decorre de variados fatores desde o posicionamento até a falta de qualidade dos
adversários. Os números comprovam no entanto, que as melhores defesas costumam
ser as que permitem menos conclusões ao adversário. Em tese, poderíamos afirmar
que uma atuação defensiva perfeita seria aquela em que nenhum arremate contra o
gol foi cedido ao adversário.
Outros
bons indicadores do desempenho da defesa são o número de rebatidas, a
quantidade de faltas cometidas próximas a área e o de contra-ataques
permitidos. Evidentemente, um time que rebate muito a bola tende a devolvê-la
ao adversário ao invés de reter a posse. Isso costuma ocorrer por deficiência
técnica dos jogadores ou por falta de opções para dominar e executar uma saída
de bola limpa. Da mesma maneira fazer faltas no último terço do campo além de
indicar um posicionamento errado da defesa permite ao adversário alçar bolas na
área que podem terminar em finalizações concedidas. Por último, os
contra-ataques permitidos apontam falhas na coordenação ofensiva (de onde
surgem os contra-ataques) ou posicionamento errado do meio de campo que deveria
bloquear essas jogadas logo no início.
4. Conclusão
A
conclusão deste raciocínio é que seria possível para qualquer equipe medir e
acompanhar o desempenho do time ao longo do campeonato através de parâmetros
que indiquem a produtividade dos setores ofensivo e defensivo do time. Com isto
em mente, deve ser feito um estudo tomando por base as médias dos últimos 3
campeonatos brasileiros (2013, 2014 e 2015) e encontrados os parâmetros médios
de desempenho das 5 melhores equipes em cada parâmetro sugerido no texto, tanto
para defesa quanto para o ataque:
DEFESA: Conclusões
concedidas; Rebatidas; Faltas no último terço do campo; Contra-Ataques cedidos;
Frequência (% de arremates contra o gol) de falhas por posicionamento;
ATAQUE: Número de
Conclusões; percentual de acerto das conclusões; Número de jogadas por
quadrante ofensivo; Troca de passes e arremates; efetividade por
posicionamento; Frequência (% de arremates errados/bloqueados) de falhas por
posicionamento;
COLETIVO:
Percentual de posse de bola; percentual de posse nos três terços do campo;
Quilometragem percorrida média;
INDIVIDUAIS:
Percentuais físicos e atléticos; Condicionamento e posicionamento corporal e
técnico por posição, ou seja, pelo atleta na função determinada.
Esses
números seriam os parâmetros sugeridos para avaliar a evolução e o
comportamento do time ao longo do campeonato. O treinador teria como meta fazer
com que o time alcançasse tais parâmetros desde o início do ano sendo avaliado
em 4 momentos ao longo da temporada. Uma ao final dos torneios de
pré-temporada, regionais e estaduais, uma segunda após a 10ª rodada do
campeonato brasileiro novamente na virada do turno e uma quarta vez na 30ª
rodada. A 5ª e última avaliação seria um balanço geral da temporada, quando
treinador e elenco receberiam ou não bonificações e premiações pelo trabalho
realizado.
Outro
aspecto importante desta proposta é que ela permite aos dirigentes amadores
encontrar parâmetros palpáveis para discutir o trabalho do treinador. Sem
interferir diretamente nas opções do técnico, é possível questionar de um time
que esteja abaixo dos parâmetros desejados se o esquema de jogo adotado é o
mais adequado ou se é necessário executar treinamentos mais focados em
determinados fundamentos, por exemplo. Desta forma, tanto os dirigentes quanto
o treinador teriam prazos e metas, com indicadores conhecidos e que permitam
indicar erros na montagem do elenco ou escolha do comandante a tempo de se
fazer um ajuste pontual ou uma correção de rota mais drástica.
Basicamente
esperamos estas práticas e vou além, que as mesmas sejam aprofundadas e aprimoradas
pelo Flamengo. Sinceramente, não sabemos se existe algo próximo disso, se
existir, algo na avaliação ou na competência dos profissionais está equivocada.
O que sei disso, que é público, porque o presidente vem falando é que ocorrerão
mudanças no departamento. Para nós, isso é urgente! O futebol apresentado pelo
Flamengo é ridículo! A ponto de um dos jogadores do Orlando City,
O-R-L-A-N-D-O-C-I-T-Y, esfregar o atraso do nosso time na nossa cara, durante a
entrevista no intervalo do amistoso de domingo: “O Flamengo joga com linhas
espaçadas, mas tem um ataque veloz e perigoso”.
O
que se sabe, é que para reduzir este “abismo” pretende-se construir o CT
profissional até Outubro de 2016 (a obra civil foi concluída, a pavimentação
termina em 2015 e maquinário e acabamento em Outubro de 2016); terminar o CT da
Base até 2018 e a obra se inicia em 2016. No momento o clube já contratou uma
consultoria para investigar os problemas, a EXOS, que trabalha com a seleção da
Alemanha, dos EUA, com o UFC, com clubes da NBA e NFL. Essa parceria pretende
reformular todo o departamento de futebol, trazendo o clube para o século XXI.
Esperamos
resultados baseados em processos e trabalho bem feito por profissionais de
ponta, além da contratação de funcionários, treinamento dos que estão lá,
ordenação do departamento, cobrança de resultados, metas objetivas, avaliação
de desempenho, criação de processos objetivos para todo o departamento,
construção de um Centro de preparação e recuperação, compra ou parceria para
maquinário de alta tecnologia, recuperação e alimentação, excelência do Centro
de inteligência de mercado. Excelência! Que demanda tempo e dinheiro.
Muitos
destes aspectos já entraram em funcionamento ou foram postos em prática, só que
não conseguimos enxergar no campo e é isso que o Flamengo precisa, fazer o
campo mostrar o que a gente não enxerga, com resultados: vitórias e títulos!
Gostaria que o clube buscasse nos rivais do país profissionais que ajudem neste
processo de transição, e que formemos também a funcionários e atletas.
Precisamos, e vamos sempre repetir, buscar pelos melhores atletas e
profissionais treinados e especializados para minimizar riscos, danos.
Precisamos trabalhar demais para que o Flamengo volte a ser gigantesco em
campo. Aproveito para gradecer enormemente a tabelinha com o Guilherme de
Baere! Obrigadaço!
P.S.: O vídeo sobre o
trabalho da EXOS, empresa que vai ajudar a melhorar o desempenho do Flamengo no
campo, demonstra que a reestruturação do departamento de futebol será completa.
Esta é uma parceria que o clube buscou, contratada como consultoria em julho e
efetiva a partir de 2016. Tudo leva a crer que teremos uma reformulação
completa do departamento de futebol do Flamengo.
Luiz
Filho

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