Capitão do Flamengo estuda para prestar vestibular.

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UOL
– Wallace foge ao perfil tradicional do jogador de futebol. Apaixonado por
leitura e viciado em adquirir conhecimento, o zagueiro do Flamengo tomou uma
decisão surpreendente próximo aos 28 anos. Com a ideia de jogar pelo menos por
mais seis temporadas, o defensor já está preocupado com o pós-carreira.

Assim
surgiu a iniciativa de prestar vestibular, cursar uma faculdade e buscar o
diploma de nível superior. Em entrevista ao UOL Esporte, Wallace revelou que
contratou um professor particular e faz duas aulas por semana para as provas
que virão. Jornalismo, psicologia e educação física são cursos que o atraem.
Através de uma das profissões o zagueiro pretende levar a vida após pendurar as
chuteiras.
Confira
a íntegra da entrevista:
UOL Esporte: Por que tomou a decisão de
estudar e prestar vestibular mesmo longe de encerrar a carreira?
Wallace:
É uma coisa lá de trás. A maioria dos jogadores não terminou o ensino médio.
Foi assim com quem atuou comigo na base do Vitória. Poucos deram atenção aos
estudos. Dos 32 jogadores da minha geração apenas dois vingaram. Anderson Martins
e eu. O que os outros 30 fizeram da vida? Sempre pensei a questão da educação
como fundamental. O jogador precisa entender que a carreira acaba. Só 1% sabe o
que fazer depois de parar. Entramos em decadência cedo e com 34 anos a vida
ainda está no início. Tudo isso me deu força para estudar e fazer o vestibular.
Tentei no meio do ano, mas a rotina não permitiu. Me preparo para tentar
novamente.
UOL Esporte: Você até contratou um
professor particular. Como são as aulas?
Wallace:
Faço aulas duas vezes por semana há quatro meses. Estudamos por pelo menos 1h30
em cada encontro. O professor Júnior me ajuda bastante. São aulas de português,
matemática, tudo o que é preciso para um vestibular. Pretendo tentar a prova o
mais rápido possível. Quem sabe agora no fim do ano ou no início de 2016? Vamos
ver se consigo. Existem duas faculdades particulares perto da minha casa e
também analiso possibilidades para cursar da melhor forma possível.
UOL Esporte: Você acha viável conciliar
a faculdade com o Flamengo?
Wallace:
Seria impossível. Uma faculdade presencial seria algo bastante complicado no
momento. Mas existe a possibilidade de tentar um curso a distância. Fui um bom
aluno até quando a vida me permitiu. Depois precisei arcar com as
responsabilidades envolvendo a família.
UOL Esporte: Já escolheu o curso? Como
pretende conduzir a vida após pendurar as chuteiras? Muito provavelmente o
salário será inferior ao recebido no Flamengo…
Wallace:
Jornalismo, psicologia ou educação física. Acredito que tenho a ver com todas
as áreas. O fato de ter sido líder por onde passei e entender essas coisas
remete bastante ao lado da psicologia. A questão do jornalismo é a comunicação.
Focar no esporte pode ser um objetivo na área. Sei que tudo na vida é
passageiro e vivemos o dilema financeiro. A carreira acaba e estou bem
preparado para isso. Não é só a questão econômica. Quero ter o que fazer quando
parar. Existe a depressão pós-carreira. O meu sonho de estudar está vivo. É um
exemplo que quero dar aos meus filhos. Acho que poderia ser melhor se tivesse
priorizado ainda mais a educação.
UOL Esporte: Você também tem feito
podcasts como uma espécie de entrevistador. Essa iniciativa já é um projeto
pós-carreira?
Wallace:
O podcast veio da dificuldade em dormir algumas vezes. Ouvi vários na internet
e virei fã. São assuntos de que gosto. Literatura, cinema, séries… Conheci
algumas pessoas envolvidas e que me incentivaram a fazer. Levo amigos e batemos
um papo. É mais do que a questão da entrevista. É para desmistificar muitas coisas
que as pessoas falam e até não sabem sobre o futebol. Geralmente faço algo que
me beneficie quando tenho insônia. Estudo, leio, escuto rádio. Mas o podcast é
bem bacana. Já falamos com o Mauro Silva, com o Lulinha e vem muito mais por
aí.
UOL Esporte: O que mais incomoda no
futebol?
Wallace:
Muita gente fala da concentração. Mas isso não me incomoda. Talvez o que me
incomode são as pessoas. Existe o ônus de jogar em time grande. Alguns pensam
que você não sente a derrota. Isso me machuca bastante. A agressão das pessoas
na rua quando o time está perdendo é grande, assim como são bondosas demais
quando vencemos.
UOL Esporte: Encarar a imprensa na má
fase é um problema?
Wallace:
Nunca tive arranhão com qualquer pessoa da imprensa e tenho até amigos no meio.
O jogador precisa saber lidar com tudo isso. Entendo perfeitamente o trabalho
dos jornalistas. O difícil mesmo é encarar porteiro, jardineiro e amigos. O
pessoal não perdoa dependendo da situação.
UOL Esporte: O episódio que resultou no
afastamento de cinco companheiros de Flamengo, o chamado “Bonde da
Stella”, reabriu a discussão sobre os limites do jogador de futebol.
Escolher o programa para uma folga tornou-se um desafio em tempos de
smartphones com câmeras potentes e a febre do WhatsApp? O jogador não pode
fazer qualquer coisa fora do horário de trabalho?
Wallace:
Dá para fazer tudo, mas no momento certo. Não vou para a rua com o time
perdendo seis partidas. Não quero ser agredido verbalmente. Mas não me privo do
que gosto na hora certa. É lógico que com o passar do tempo a frequência
diminui. Até hoje nunca fui impedido de fazer nada mesmo com o Flamengo em
momento delicado. Cabe analisar as situações da melhor forma.

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