Gilberto Cardoso é ‘Flamengo até depois de morrer’.

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GLOBO
ESPORTE – O mais popular hino do Flamengo, composto por Lamartine Babo, é como
um juramento de fidelidade eterna ao Rubro-Negro com o verso “Uma vez
Flamengo, Flamengo até morrer”. Gilberto Cardoso, presidente do clube
entre 1951 e 1955, desafia a regra e é Flamengo muito depois de morrer. Em 25
de novembro de 55, à época aos 49 anos, Gilberto deu a vida por sua maior
paixão. Estava no Maracanãzinho para acompanhar a primeira partida da fase
final do Carioca de basquete – e não na decisão, como muitos proliferam. O Fla
do técnico Kanela perdia para o Sírio Libanês até a três segundos do fim,
quando Guguta, em arremesso próximo à linha divisória da quadra, acertou cesta
antológica que decretou a vitória por 45 a 44. Acertou em cheio também o
coração vermelho e preto do então mandatário. Ele até deixou o ginásio com o
próprio carro, um Cadillac Azul, rabo de peixe, mas passou mal no meio do
caminho e não suportou horas depois, já na madrugada do dia seguinte. Faleceu a
caminho do Hospital Souza Aguiar.
– O
senhor Gilberto Cardoso dirigiu-se para o meu carro, e, eu vendo a sua
perturbação perguntei-lhe: “Que há, presidente: o senhor está passando
mal?”. Ele respondeu: “Estou mal, sim. Avance o sinal (que estava
vermelho na ocasião) e leve-me depressa ao Pronto Socorro”. Dito isso
entrou no meu carro e deitou-se no banco e, quando chegamos ao Pronto Socorro,
o presidente procurou logo o médico e foi direto para a tenda do oxigênio –
relatou ao “O Globo” o taxista rubro-negro José Martins Pimenta, que
socorreu Gilberto na Praça Onze.
Apesar
de ter morrido nas primeiras horas do dia 26 de novembro, Gilberto ainda vive
mesmo 60 anos após a tragédia. É eterno. Tem uma estátua na Gávea, posicionada
de frente para a Lagoa e abaixo do escudo rubro-negro. Uma das ruas que corta a
Avenida Borges de Medeiros leva seu nome, assim como o Maracanãzinho, que hoje
é conhecido como Ginásio Gilberto Cardoso.
Gilbeto
Cardoso Filho, o Gilbertinho, que presidiu o Flamengo entre 1989 e 1990, tinha
apenas 16 anos e não pôde ir ao jogo, pois estava envolvido com provas
decisivas. Era aluno do tradicional Colégio São Bento e cursava o quarto ano do
ginásio.

Foi um choque, porque a gente não sabia de nada e nem que ele tinha qualquer
doença. Meu pai, que era médico, sabia, tanto que tinha remédio para isso.
Arriscou assim mesmo, porque estava embolado com o Flamengo. Nos três segundos
finais, o Guguta fez a cesta, e ele (Gilberto) não se sentiu bem, mas deu
entrevista ao terminar o jogo. Ouvi o jogo na Rádio Continental. Estava em
casa, porque no dia seguinte tinha prova final. Desliguei o rádio e acordei com
minhas tias me contando do infarto. Não consegui fazer as provas e pela
primeira vez fui para a segunda época (risos) – afirmou Gilbertinho.
Órfão
de mãe desde 1 ano de idade, Gilbertinho teve na perda do pai o maior golpe de
sua vida. Todavia o funeral de Gilberto constituiu um afago no coração do
adolescente, já que o cortejo do bairro do Flamengo ao Cemitério São João
Batista, em Botafogo, foi acompanhado por milhares. Remadores de Botafogo e
Vasco, assim como Flávio Costa, lenda rubro-negra e na ocasião técnico
cruz-maltino, fizeram parte da melancólica caminhada.

Foi um choque para a nação rubro-negra. Era muito querido. No enterro dele
tinham mais de 50 mil pessoas. Foi um consolo para mim. Eu nunca imaginaria que
era tão querido. Tinha gente do futebol, remo, vôlei, basquete – enumerou
Gilbertinho, que, acrescentou:

Ele não casou mais com nenhuma mulher (após a morte da esposa). Casou com o
Flamengo (risos).
FESTA NO CEMITÉRIO
O
segundo tricampeonato carioca de futebol do Flamengo (53/54/55) só foi decidido
em 4 de abril de 1956. Mesmo seis meses após a morte de Gilberto Cardoso, o
português José Alves de Morais, seu sucessor, e o elenco rubro-negro foram ao
túmulo do eterno presidente e celebraram o título no São João Batista.

Foi um jogo à noite, e ganhamos de 4 a 1 do América, com quatro gols do Dida.
Depois do título, uma multidão de duas ou três mil pessoas pulou o muro para
colocar a faixa de campeão no meu pai – disse Gilbertinho, referindo-se não à
comemoração oficial do clube junto ao corpo do ex-presidente, mas sim de
populares.
DEPOIMENTOS DO TIME DE BASQUETE: “A
CESTA ASSASSINA”
Em
visita à Fla-Experience, exposição interativa e permanente do Flamengo na
Gávea, em junho de 2015, o herói de 55 Guguta disse que, embora tentem dar viés
negativo à cesta que garantiu os 45 a 44 ao Fla no “match histórico”
com o Sírio Libanês, em 25 de novembro de 1955, ele não tem culpa pela morte do
ídolo.

Ele não morreu por minha causa. Muita gente diz que eu fui o cara que fiz o
acerto e matou o Gilberto. Ainda dizem “a cesta assassina”. Foi
emoção. Ele podia ter falecido ali, podia ter falecido em outro lugar – disse
ao site oficial do Flamengo.
Todavia,
na primeira edição de “O Globo” publicada posteriormente à morte de
Gilberto, o então técnico Kanela disse que trocaria a vida do amigo por uma
derrota ante ao Sírio. Mas o depoimento teve suas semelhanças com o dado por Guguta
60 anos depois.

Por esse preço, eu preferia ter perdido o jogo. A vitória para nós tornou-se
amarga demais. O único consolo que posso encontrar é pensar que em uma luta tão
emocionante, se o Flamengo perdesse, o choque do presidente e amigo Gilberto
Cardoso talvez fosse o mesmo, e ele não resistisse também. E assim, pelo menos,
o querido presidente partiu com a alegria de uma vitória do clube que tanto
amou e dignificou – disse Kanela, ao “O Globo”.
A
conquista do pentacampeonato (51-52-53-54-55), que cinco anos depois se
transformaria em deca, só foi consolidada em 19 de dezembro, contra o mesmo
Sírio Libanês, com vitória por 58 a 52. Após o triunfo, o capitão rubro-negro
Zé Maria ofereceu o triunfo a Gilberto.

Estamos satisfeitos com essa conquista tão difícil. E dedicamos esse título de
pentacampeões ao nosso inesquecível presidente Gilberto Cardoso, cumprindo a
nossa promessa de lutarmos com todas as forças para dar-lhe essa satisfação
póstuma – disse Zé Mário, ao “O Globo” de 20 de dezembro de 1955.
Ao
fim do contato telefônico, a reportagem desculpou-se com Gilbertinho por
fazê-lo recordar tema delicado de sua vida. Respondeu o ex-presidente:

Não tem problema, só de lembrar do meu pai 60 anos depois… – afirmou,
emocionado.
E
quem, conhecedor da história rubro-negra ou dos rivais da época, esqueceria
dele, Gilbertinho?

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