Pará revela choro da filha com vaias: “Jogo mais difícil.”

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GLOBO
ESPORTE – Aos 29 anos, o experiente lateral-direito Pará, com passagens por
Santos e Grêmio, conquistou três títulos importantes vestindo a camisa do
Peixe: Paulista, Copa do Brasil e Libertadores. Nenhuma das três finais,
todavia, mexeram tanto psicologicamente com a cabeça do atleta quanto o jogo do
último domingo, contra o Goiás. Para muitos tratava-se de mais uma partida de
um Flamengo que cumpria tabela no Campeonato Brasileiro. Já em relação a ele e
Alan Patrick, titulares, significava o primeiro compromisso oficial após serem
punidos com afastamento de sete dias, motivado por participação em festa depois
de treino no Ninho do Urubu, em 27 de outubro – Everton, Marcelo Cirino e
Paulinho também tiveram que treinar à parte.
Pará
sofreu desde o anúncio da escalação rubro-negra até o momento em que abriu a
porta de casa. No Maracanã, foi xingado antes, durante e depois dos 4 a 1 sobre
o Esmeraldino.

Foi o jogo mais pesado da minha carreira. Não esperava aquela reação da
torcida. Claro que entendo, estavam no direito de cobrar e vínhamos de uma
sequência de muitas derrotas. Compreendo o lado emocional da torcida. Foi muito
difícil, mas sou um jogador experiente, rodado aqui no Brasil. Procurei pedir
força a Deus, que eu sabia que ia me sair bem e foi o que aconteceu. Tenho
certeza que ainda vou dar muitas alegrias para o nosso torcedor.
A
tensão se estendeu ao momento que seria de alegria e de relaxamento,
principalmente após goleada por 4 a 1 com direito a boa atuação individual. No
primeiro contato com a esposa Pâmela, e as filhas Raíssa, de 6 anos, e
Gabriela, de 10, escutou da companheira que a menor foi às lágrimas diante dos
protestos dos rubro-negros contra o pai.

Quando cheguei do jogo com o Goiás, minha esposa falou que minha filha mais
nova chorou com os torcedores pegando no meu pé e me vaiando. Aí minha filha
perguntou porque eles estavam me vaiando, e minha esposa não queria tocar no
assunto. Quando cheguei foi um baque escutar isso, mas agora estou dando volta
por cima.
Embora
Pará e os outros integrantes do quinteto tratem a punição como “caso
encerrado”, ele dá o braço a torcer e garante ter tirado um aprendizado
com o que viveu nos últimos dias.

Lição que tiro é de que preciso saber fazer as coisas no momento certo, não
estar se expondo, porque tenho família e um nome a zelar.
Titular
com os três técnicos que dirigiram o Flamengo em 2015 – Vanderlei Luxemburgo,
Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira – e terceiro rubro-negro que mais atuou
na temporada, Pará está animado com a permanência na Gávea e assegura: será
campeão já no próximo ano.

Vou ser campeão, esse é um dos meus objetivos e vai ser muito importante.
Espero ser campeão de tudo, tanto da Guanabara quanto do Carioca. Depois da
Copa do Brasil e Brasileiro, porque o Flamengo montou time para ser campeão, e
espero que no fim do ano que a gente possa estar conquistando esses quatro
títulos.
Confira
outros pontos do bate-papo com o camisa 21 do Flamengo:
O que aconteceu naquele 27 de outubro,
Pará?

demos esse assunto como encerrado, mas fomos a um aniversário de um amigo que
temos em comum. Ficamos lá durante umas três ou quatro horas no máximo e
voltamos cada um para sua casa para descansar com sua família. Não esperava que
iria dar essa repercussão toda, porque estávamos no nosso momento de folga.
Infelizmente aconteceu e tomou essa proporção muito grande, mas não fizemos
isso por maldade. Fomos apenas dar um abraço num amigo, mas já demos isso como
caso encerrado e agora é bola pra frente.
Qual foi a reação da família com a
enorme exposição?
A
família ficou bastante chateada, mas são coisas que acontecem. A gente não fez
nada de anormal, estávamos num momento propício para fazer, de folga, mas não
talvez não fosse adequado. Estávamos na nossa folga, só ia ter treino no dia
seguinte. Ali foi um momento muito difícil que a gente passou. Tenho que falar
que minha esposa foi um dos pilares para eu dar essa reerguida. Me deu muita
força. Me apeguei muito à minha família, que é espetacular. Principalmente
minhas filhas e minha esposa me deram muita força.
Sua filha não chegou a estranhar quando
te não te viu treinando ou jogando?
A
mais nova chegou a perguntar: “pai, você não vai concentrar hoje?”.
Ali não soube nem o que responder. Foi um momento de muita tristeza, esperava
que isso não fosse nunca acontecer comigo. Contra o Grêmio, ela perguntou:
“pai, não era para você estar jogando?”.
O que seu pai lhe disse?
A
reação do meu pai foi de dar puxão de orelha. O pai quer sempre ver o bem do
filho, me chamou atenção mesmo, me pediu para não voltar a fazer isso, até
porque estou jogando num clube de muita expressão e que isso poderia me
prejudicar como prejudicou.
Se apegou no que para superar as vaias
contra o Goiás e atuar bem?
Fiquei
muito chateado com o que aconteceu comigo, porque nunca tinha tido passado por
experiência de ficar afastado. É uma situação muito complicada, que eu não
desejo a nenhum atleta, mas eu acredito muito em Deus e em Nossa Senhora
Aparecida. Sempre quando chegava em casa pedia muito para dar a volta por cima.
Sei do meu potencial e sei que posso ajudar o Flamengo.
A cobrança da torcida sobre você é
injusta?
Sei
das minhas qualidades e dos meus defeitos. A torcida pegou no meu pé e pedi à
Nossa Senhora e principalmente a Deus. Fizemos uma excelente partida e
conseguimos marcar quatro gols, o que não tínhamos feito ainda no campeonato.
Foi um momento de alegria, em que consegui dar uma resposta positiva. Jamais
vou esquecer desse episódio. Espero que isso fique só naquele jogo, porque
tenho certeza que vou me dedicar ao máximo para dar a volta por cima e alegrar
essa torcida.
Como você define sua passagem, que até
agora é pautada por 54 jogos e dois gols?
Defino
como passagem positiva. Apesar de não termos conquistado nenhum título esse
ano, batemos na trave na Taça Guanabara e posteriormente fomos eliminados no
Carioca. Sou o terceiro atleta que mais jogou nesse ano. Acredito que tenho
muito a ajudar a instituição e companheiros. Quero continuar por muito tempo
aqui no Flamengo e, se Deus quiser, conquistar títulos importantes. Vim para
fazer história no Flamengo.
A torcida do Flamengo é diferente das
demais? E o atleta que já encarou a cobrança dessa massa está pronto para jogar
em qualquer lugar?
A
torcida do Flamengo cobra mesmo, ela quer resultados e desempenho. O clube é
grande e tem que brigar por títulos mesmo. Nós sabemos e procuramos dar o
melhor de cada um para que possamos sair abraçados com a torcida. Todos atletas
que passaram pelo Flamengo e que hoje estão vestindo essa camisa podem jogar em
qualquer time do Brasil e até fora do país.
Todos os técnicos que trabalham contigo
no Flamengo o escalaram como titular. Isso é um ponto a seu favor?
São
três grandes treinadores que passaram e todos eles confiaram no meu trabalho.
Professor Oswaldo está confiando em mim, sabe do meu potencial, e acredito que
eu também estou fazendo por merecer. É dar sequência ao meu objetivo de
permanecer no clube e fazer história aqui.
O que fez um time que emplacou seis
vitórias seguidas cair tanto?
Brasileiro
é muito difícil, um campeonato em que o último ganha do primeiro. Conseguimos
uma sequência de vitórias importante e infelizmente num jogo que era para
termos vencido, que foi contra o Coritiba em Brasília, deu tudo errado. Depois
daquilo não conseguimos encaixar mais sequência. Temos que manter o foco e o
trabalho para que as derrotas não nos abalem. A gente não conseguiu mais
encaixar nem conseguia mais colocar o que o Oswaldo pedia para gente.
Libertadores ainda é possível?
A
gente não jogou a toalha. Temos quatro jogos importantes, difíceis, mas vamos
lutar até o fim. Tenho certeza que, com o G-4 virando G-5, temos grandes
chances de disputar uma pré-Libertadores.
Torcer para o Santos, time que você
defendeu, então não será problema?
Sou
torcedor do Flamengo desde pequeno, falei isso quando cheguei. Se for para
ajudar o Flamengo, não tem porquê para não torcer pelo Santos. Mas eu penso
aqui, no Flamengo e no meu trabalho.
Há quem diga que o Flamengo não é nem
para G-4 nem para Z-4? Qual é o potencial desse time?
Esse
elenco do Flamengo é pra brigar em cima. São jogadores que conquistaram títulos
por onde passaram. Vivemos um momento diferente, estamos no meio da tabela, mas
o grupo é para brigar em cima.
Depois das vaias, sonha com o Maraca
lotado te aplaudindo futuramente?
Tenho
certeza que aqueles que me vaiaram serão os mesmos que me aplaudirão em outra
oportunidade.
Chegou a ver o sonho de defender o Flamengo
ameaçado após a festa?
Isso
nem passou pela minha cabeça, porque tenho muita fé em Deus e em Nossa Senhora
Aparecida. Sempre me apego a isso. Sei que tenho potencial de dar a volta por
cima, como vou dar e estou dando. O exemplo foi no jogo de domingo, quando fui
bastante hostilizado, mas tive a cabeça voltada para o que estava fazendo e dei
a resposta positiva.

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