Por que o Flamengo não é um Corinthians?

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TEORIA DOS JOGOS – Em fevereiro de 1982 – mês e ano de nascimento deste
blogueiro – a revista Placar se saiu com uma de suas capas mais marcantes e
polêmicas. Dirigida à época pelo corintianíssimo Juca Kfouri, a publicação
questionou o porquê do clube tido e havido como “Flamengo paulista” se encontrar
tão abaixo do original. Desestruturado, endividado e com provincianismos de um
clube de colônia, o Corinthians chafurdava na Taça de Prata do Brasileirão
(equivalente à atual Série B), enquanto o Mais Querido colhia os frutos de sua
geração mais vitoriosa – incluindo os títulos da Libertadores e do Mundial,
meses antes.

que nossa pergunta difere do “por que o Corinthians não é um Flamengo”, de três
décadas atrás. A indagação é contrária.
Seria
para tanto?
Decerto
já houve momentos mais propícios para denotar a reversão de papéis entre os
dois gigantes. Um período marcante, por exemplo, foi a temporada de 2005. À
época, os do Parque São Jorge, fazendo valer a força de sua marca, atraíram
investidores internacionais que culminaram na montagem de um verdadeiro
esquadrão. Tal qual há uma semana, atletas de exceção como Tevez e Mascherano
deram ao Timão o título Brasileiro daquele ano. Enquanto um Rubro Negro jogado
às traças vivia da falta de credibilidade até mesmo para assinar um cheque. Os
meses com mais de 90 dias geravam debandadas que fragilizavam o elenco, a ponto
de o Flamengo terminar o Carioca na inacreditável oitava colocação. Não só: o
time caiu nas oitavas da Copa do Brasil frente ao Ceará, lutando contra o
rebaixamento no Brasileiro até as últimas rodadas.
Se
hoje as coisas aparentam melhores – ao menos no tocante à catástrofe
rubro-negra – por que então a indagação?
A
resposta tem origem num panorama novo. Bem administrado após anos de
falcatruas, o Flamengo vem fazendo valer seu peso no campo dos negócios. A
partir de 2014, o Mengão assumiu a liderança do ranking de receitas e
faturamento de marketing, mantendo-se no topo das audiências e das vendas de
pay per view. Tais parâmetros, contudo, eclipsam uma intransponibilidade que
impede a conversão de cifras em títulos.
Enquanto
o Corinthians entra como favorito na maioria das competições, o Flamengo segue
na condição de mero figurante em muitas delas – que o diga as duas últimas
eliminações na primeira fase da Libertadores. Ao passo que o novo hexacampeão
recheia sua sala de troféus, rubro-negros completarão dois anos sem nenhuma
conquista.
Novamente:
por quê?
Primeiramente,
temos a questão da dívida: não basta ter a maior receita se o endividamento
também for brutal. Embora a situação do Flamengo tenha melhorado – de
inacreditáveis R$ 750 milhões para algo próximo a R$ 450 milhões – não restam
dúvidas que a amortização teria apenas tirado o rubro-negro do leito de uma
UTI. Longe de ter a “doença” curada, o Fla destina mais de R$ 10 milhões
mensais ao pagamento de impostos e passivos diversos. Grosso modo, é como se o
Corinthians arcasse com somente metade deste valor. Dinheiro que sobra limpo
para investir no que mais importa ao torcedor: a montagem do elenco.
Em
segundo lugar, uma questão abstrata chamada “cultura vencedora”, inerente aos
que historicamente levaram a sério toda a ciranda do futebol, desde a
revelação, passando pelas condições de trabalho e culminando na seriedade da
busca pelos objetivos. A cultura vencedora está presente não apenas no
Corinthians, mas na maioria dos paulistas – o que explica um São Paulo
destroçado pelo maior rival e ainda assim dentro do G4. É ela que justifica os
gaúchos sempre tão fortes, raramente vistos lutando por algo diferente do
título. Em desenvolvimento também nos de Belo Horizonte, esta é a cultura que
há décadas falta não só ao Flamengo, mas a todo o futebol carioca. Se neste
período beliscaram conquistas, o fizeram pela grandeza das instituições, à
revelia da seriedade com que Flamengos patricistas ou Vascos euriquistas
trataram a coisa.
Por
fim, e é lógico, existe um sem número de outros “detalhes”: infra estrutura
(CTs de ponta e estádios próprios, escassos no Rio); credibilidade
institucional (que resulta em mais negócios e maiores somas), etc.
Mas
o fato é que nem dívida, nem cultura vencedora, nem infra estrutura ou
credibilidade, nada se resgata do dia para a noite. Pelo contrário. São
conquistas que levam anos, que dependem da implementação de um novo pensamento
e da solidificação do profissionalismo. Algo impossível quando diretorias
sérias não se sucedem.
Enquanto
não germinarem as sementes plantadas pela atual gestão – seja com os atuais ou
seus bons concorrentes – os flamenguistas seguirão desprovidos da satisfação de
se verem à frente daqueles que, um dia, neles se espelharam. Já que no
Corinthians, mesmo aos trancos e barrancos, o processo de resgate se iniciou
ainda na década de 90.
O
lado bom é que o Flamengo está, sim, no caminho certo. E mesmo diante do caos
vivido há tão pouco tempo, em uma coisa ninguém será um Flamengo: na grandeza
de sua torcida. Não é pouco, visto que o resgate passará de maneira indelével
pelas mãos da Nação.
Um
grande abraço e saudações!
E-mail
da coluna: teoriadosjogos@globo.com
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