“Quero fazer meu nome no Flamengo”, afirma Jorge.

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GLOBO
ESPORTE – O Flamengo teve poucos motivos para comemorar em 2015. O futebol não
disputou nenhum título, sofreu eliminações frustrantes e deixou muito a
desejar. Mas houve, mesmo que poucos, aspectos positivos. Um deles, talvez o
maior, foi o desabrochar do lateral-esquerdo Jorge. O jovem de apenas 19 anos,
quando ainda nos juniores, foi convocado pela seleção brasileira para o Mundial
sub-20, onde foi o melhor de sua posição, e logo depois foi integrado aos
profissionais do clube. Bastou uma chance como titular do Rubro-Negro para
agarrar a vaga com tudo. Não sentiu a pressão e despachou a concorrência com
facilidade, tornando-se absoluto no setor. Para completar o melhor ano de sua
vida, vem sendo chamado para a seleção olímpica (sub-23), que vai defender o
país nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016. Não à toa que há alguns meses
ele é alvo de diversas consultas de times do exterior, interessados em contar
com seu talento.
Ao
mesmo tempo em que Jorge é novo, dá para dizer que seu estouro ocorreu de forma
até tardia em relação aos antigos companheiros. Apesar de sempre ter sido
titular na base do Flamengo, nunca foi um dos grandes destaques nas categorias
anteriores. Via vários colegas de Ninho do Urubu serem convocados e ficava na
esperança, que só se concretizou neste ano. Como profissional, no entanto, tudo
se inverteu. O lateral passou a ser um dos grandes destaques do elenco e a ser
chamado para a seleção brasileira, enquanto os antigos companheiros, em sua
maioria, ou ainda estão na base, ou já deixaram o Flamengo e estão em clubes
menores, ou desistiram da carreira e tomaram outros rumos.

Antigamente eu via as convocações, não via meu nome e ficava triste demais. Me
dedicava bastante. Mas eu sabia que o momento chegaria. Era me manter focado e
manter a preparação que vinha tendo. Sempre via jogadores de alta qualidade
sendo convocados, passando para o profissional, não só no Flamengo. E o que me
colocou na seleção olímpica e no profissional do Flamengo foi a cabeça boa, não
desistir dos sonhos e objetivos dentro do clube. Muitos de repente não tiveram
um conselheiro, como tenho meu pai – disse, em entrevista ao GloboEsporte.com
no condomínio onde mora, no Rio de Janeiro.
A
relação com o pai, por sinal, é o que Jorge mais considera especial em sua
vida. Principal incentivador do filho a ser jogador de futebol, Seu Marco fez
tudo que esteve ao seu alcance para transformar o sonho em realidade. E
conseguiu. Apesar do pai ser separado da mãe de Jorge, Dona Márcia – que vive
com o irmão do lateral, Peterson, em Campo Grande, no Rio -, a família tem
ótima relação, base estrutural para o atleta. Foi do pai também que Jorge
herdou a torcida pelo Flamengo, desde pequeno, e a influência para se espelhar
em Junior, ex-lateral-esquerdo que marcou época no Rubro-Negro. Isso sem falar
no nome Jorge Marco, que combinou homenagens ao cantor Jorge Aragão, de quem o
pai é fã, e ao próprio Seu Marco. O paizão acompanha a carreira do filho nos
detalhes e analisa todos os números possíveis dele.
Do
começo na escolinha do Flamengo às passagens pelo futebol de salão do América,
do Vasco e do próprio Fla, onde por fim encontrou o campo, Jorge foi
devidamente preparado, física e mentalmente, para estar no lugar que ocupa
atualmente. Transformou-se rapidamente em uma das revelações do Campeonato
Brasileiro. E vem mais por aí. Na entrevista, ele demonstrou acima de tudo
humildade e personalidade. Veja o bate-papo a seguir, na íntegra.
GloboEsporte.com: Você está fazendo
sucesso, mas vale explicar para quem ainda te conhece. Quem é o Jorge?
Jorge:
O Jorge de verdade é um cara humilde e que procura sempre ajudar o próximo para
ter a recompensa no final. Meu objetivo é procurar evoluir na humildade, no
caráter, sempre ter cabeça boa para prosseguir na vida. Aprendi muito com meu
pai que na vida temos que ter humildade e respeitar o próximo para colher
frutos. Então, o Jorge é humildade, coração bom e honestidade.
Sobre ajudar o próximo: você deu cestas
básicas para os funcionários do Ninho do Urubu no seu primeiro salário como
profissional, certo?
Verdade.
Antes do salário ser renovado, eu estava conversando com meu pai sobre um dia
ajudar as pessoas lá de dentro com cestas básicas, porque passei um ano e dois
meses ali. Quando você completa 18 anos, tem que sair da concentração. São
pessoas que me ajudaram muito, e posso dizer que evoluí morando ali. O
descanso, a concentração, tudo era perfeito. Essa humildade que tive de
reconhecer os trabalhadores de lá… Eu mesmo fiquei feliz com o que fiz.
Seguranças, porteiros, pessoal da lavanderia e da cozinha… Tenho muito
carinho por eles.
Dá para notar que seu pai sempre foi seu
grande incentivador. Vocês dividiram esse sonho de você se tornar jogador de
futebol?
Com
certeza. É um grande pai, eu o chamo de “meu herói”. Posso dizer, com
toda a certeza do mundo, que ele me fez chegar aonde estou. Se não fossem ele e
Deus na minha vida, acho que não estaria conquistando essas coisas. Ele sempre
me incentivou, deu força, deu conselhos para seguir nesse meio do futebol, que
é difícil. Tiro o chapéu para ele e sempre vou agradecer a ele pelo herói que é
comigo.
E seu pai jogava bola também? Jogava
bem?
Jogava,
sim. Era volante e enganava na direita também, né (risos)? Diz ele que era
ambidestro, mas não acredito muito nisso não. Não vi vídeo dele ainda, então…
Nessa jornada, você se lembra de algum
episódio marcante que viveu ao lado do pai? Chegaram a passar dificuldade?
A
gente passou muita (dificuldade). Já tive que pegar vários ônibus para ir
treinar, e eu colocava camisa de escola. Tinha dia que não podia levar dinheiro
para o lanche, ao contrário de outros atletas. Então, lá atrás a gente passava
dificuldade sempre. Ele fez tudo de bom para a gente conseguir o que está
conseguindo hoje, está sendo um pai e uma mãe para mim, sempre me apoiou.
Sempre me dava força para manter a tranquilidade e saber esperar o momento
certo de acontecerem as coisas.
Você é um cara de personalidade, dá pra
ver isso nas suas entrevistas, apesar da pouca idade. Costuma fugir do lugar
comum nas respostas, ao contrário da grande maioria dos jogadores de hoje em
dia.
Grande
parte de eu ser assim, com personalidade e sempre tranquilo nas entrevistas e
em tudo que faço, é pela criação que tenho e tive lá atrás. Essa personalidade
vem de dentro de mim, me preparei para isso e para enfrentar as coisas na vida.
Você entrou no time num momento
conturbado, quando o pressionado Cristóvão Borges era o técnico e o Flamengo
enfrentaria o Joinville fora de casa após derrota para o Vasco. E não saiu mais
depois daquela vitória por 1 a 0. Lida bem com a pressão?
Pela
pressão daquele jogo, posso falar que hoje estou preparado para qualquer
pressão no futebol. O Flamengo estava numa fase não muito boa, tinha acabado de
perder para o Vasco, e o próprio Cristóvão (Borges) chegou em mim e perguntou
se eu estava preparado e confiante para jogar. Quando soube que jogaria, me
concentrei bastante no jogo. Sabia que teria muita pressão e que tínhamos de
sair com a vitória. Teria muita pressão na volta ao Rio. Os companheiros também
me deram força, dizendo para eu ficar à vontade como na base.
Quando estava na base, você era titular,
mas não um dos destaques. Enquanto seus companheiros eram convocados pras
seleções de base, você só foi vestir a camisa amarela no sub-20. E hoje você é
destaque no profissional e até na seleção olímpica, enquanto aqueles
companheiros ou ainda estão na base, ou saíram para clubes menores, ou até já
desistiram da carreira. Seu sucesso parece ter vindo na hora certa. É bem por
aí mesmo?
Antigamente
eu via as convocações, não via meu nome e ficava triste demais. Me dedicava
bastante. Mas eu sabia que o momento chegaria. Era me manter focado e manter a
preparação que vinha tendo. Sempre via jogadores de alta qualidade sendo
convocados, passando para o profissional, não só no Flamengo. E o que me
colocou na seleção olímpica e no profissional do Flamengo foi a cabeça boa, não
desistir dos sonhos e objetivos dentro do clube. Muitos de repente não tiveram
um conselheiro, como tenho meu pai.
Quando você pensa no seu futuro, enxerga
uma brecha na lateral esquerda da seleção brasileira principal para de repente
ocupar esse espaço de forma definitiva?
Tem
jogadores de alta qualidade, mas com certeza enxergo. É sempre bom pensar em
seleção principal. Graças a Deus estou tendo oportunidade na seleção olímpica,
e isso já é um grande passo para chegar à principal. Se um dia eu tiver
oportunidade, vou aproveitar como estou aproveitando na olímpica. Com certeza o
peso na principal é maior, e vai ser importante para a minha vida ter uma
brecha dessa.
Você tem um estilo mais caseiro? Não
gosta muito de noitada?
Sempre
fui assim, caseiro. Sempre procurei cuidar do meu corpo, o atleta precisa disso
para ter recompensa lá na frente. Vejo jogadores como o Zé Roberto (do
Palmeiras), que é referência pra gente que está subindo. É aprendizado para a
vida. O que a gente conquista hoje vai ser importante para nossa vida lá na
frente. Sempre procuro ficar na minha casa, com minha família. Sempre que tenho
tempo vago vou visitar minha mãe. É bom estar cuidando do próprio corpo.
A mulherada começou a cair muito em cima
depois que virou profissional e titular do Flamengo?Como lida com isso?
(Risos)
Sou tranquilo também quanto a isso. Procuro escutar meu pai sobre mulher. Mas
sou tranquilo e sei que vão aparecer muitas pessoas, não só mulheres, mas
amizades também por interesse. Então, sempre procuro ser tranquilo com isso.
Tenho minhas amizades de anos já, que são meus primos e os amigos de onde eu
morava. O que aparecer hoje vai ser apenas colega, porque amigos de verdade
mesmo são meu pai, minha mãe, minha família. Hoje vão aparecer falsas amizades.
O Flamengo viveu um ano péssimo em 2015,
sem disputar nenhum título. A que você acredita que se deve isso?
Não
está sendo um péssimo ano, é questão de fase. A gente estava numa fase
maravilhosa de seis vitórias seguidas. Hoje posso dizer que estamos vivendo uma
fase que não está nos favorecendo. No Flamengo não tem isso de péssima fase no
ano. O Flamengo vive de fase, então hoje não estamos numa fase muito boa. Mas
essa vitória sobre o Goiás (4 a 1) nos ajudou muito. O Flamengo vai estar
sempre brigando por título e competições importantes.
Depois que o Flamengo foi eliminado da
Copa do Brasil pelo Vasco, você foi abordado e provocado por torcedores rivais
ao parar numa rede de lanchonetes, e um vídeo do episódio foi parar nas redes
sociais. E antes do clássico você tinha dado entrevista se mostrando muito
confiante. O que houve ali?
A
gente estava chegando do jogo, eu estava descansando no carro, e meus primos
estavam atrás. Aí a gente parou no Habib’s. Quando desceram, eu acordei, não vi
torcedor nenhum e fui ao banheiro. Até havia dois torcedores do Flamengo lá com
as mulheres. Quando entrei no banheiro, comecei a ouvir uma gritaria e pensei:
“Deve ser torcedor do Vasco”. Eles já tinham me visto. Entraram no
banheiro, e os torcedores do Flamengo falaram para pararem com a graça, para
não arrumarem confusão. Até meu pai chegou e falou com eles. Isso não me causou
mal nenhum. Qualquer torcedor vai fazer isso se encontrar jogador de time
rival. Não foi uma brincadeira muito boa, mas fiquei tranquilo. Soube lidar na
hora porque torcedor é assim mesmo, bota pilha, assim como aconteceu agora com
os torcedores do Flamengo e o jogador do Vasco (Nenê). Não tenho mágoa de
ninguém.
Nem o fato de terem exposto isso nas
redes sociais te chateou?
Também
não. Prejudicou o torcedor do Vasco por ter colocado na rede social. Nem os
próprios torcedores do Vasco gostaram, porque ninguém sabe o dia de amanhã.
Fiquei bastante tranquilo.
Você tem 1,83m de altura, algo incomum
para lateral no Brasil. Acha que isso te beneficia defensivamente?
É
verdade. O bom tamanho é excelente na marcação. Minha função hoje onde me
destaco bastante é marcar, primeiro é isso. Não posso pensar só em atacar, essa
posição é difícil. Os adversários são muito qualificados. Fico feliz pela
evolução que tive, porque quando cheguei ao Flamengo eu era pequeno, e cresci.
Isso me ajudou.
Você é alvo do interesse de muitos
clubes hoje. Pensa em seguir no Flamengo por muitos anos ainda ou pensa em
sair, caso venha proposta boa?
Deixo
para o meu empresário e meu pai resolverem essas questões de propostas de
outros clubes. São as pessoas que cuidam da minha carreira. Fico até feliz por
pessoas de alto nível estarem de olho no meu trabalho. Mas o que posso dizer é
que hoje quero fazer meu nome no Flamengo e, se um dia sair, sair de cabeça
erguida e pela porta da frente.

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