Inquérito identifica só 4 de 30 corintianos presos no Maracanã.

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Foto: Reprodução Uol

GLOBO
ESPORTE
: No dia 23 de outubro, uma imagem ganhou repercussão. Centenas de
homens sem camisa, detidos na arquibancada do Maracanã, aguardando que
policiais identificassem entre eles os responsáveis por outra situação tão ou
mais chocante, mas cada vez mais comum: pouco antes do jogo entre Flamengo e
Corinthians, torcedores entraram em conflito com policiais militares – um deles
foi agredido por inúmeros corintianos, tudo à vista de câmeras de TV.

Desde
então, 30 torcedores do Corinthians estão presos no Rio de Janeiro, acusados de
agressão, tumulto, danos ao patrimônio público, resistência, associação
criminosa e corrupção de menor – um garoto de 16 anos foi apreendido por
supostamente participar da briga, mas acabou libertado na última semana depois
de audiência na Vara da Infância e Juventude.
O que
seria um golpe na impunidade que geralmente acompanha casos de violência no
esporte, porém, gerou uma série de questionamentos sobre os procedimentos
adotados neste episódio, especialmente sobre a identificação dos réus.
Apesar
das imagens de TV e das câmeras de monitoramento do estádio, o inquérito
policial da Central de Garantias da Polícia Civil do Rio de Janeiro identifica
apenas quatro dos 30 presos através de fotografias do confronto.
O
GloboEsporte.com teve acesso a trechos do documento: são oito imagens e, em
seis delas delas, escritos a mão, estão os nomes de Kauan Gentil, Rogério
Aparecido dos Santos, Anderson Zanqueta da Silva e Tiago de Lima. Nas outras
duas, não há anotações.
A
prisão em flagrante dos torcedores foi determinada pelo delegado Felipe Santoro
da Silva. Na decisão, ele escreve que “foram acostadas ao procedimento
diversas fotos, onde se observam as agressões e os danos cometidos pelos
indiciados, sendo possível identificar, inclusive, alguns dos indiciados”.
Além
dos quatro homens identificados nas imagens, os demais indiciamentos se baseiam
principalmente no reconhecimento feito por quatro policiais que estavam no
Maracanã.
Na
decisão em que recebe a denúncia do Ministério Público e mantém a prisão preventiva
dos acusados, a juíza Marcela Caram diz que uma testemunha, o policial Ederson
da Silva Maia, “teria narrado com precisão os fatos, apontando de forma
incontroversa para cada um dos acusados, atribuindo-lhes condutas graves”.
As
vítimas, os também policiais militares Wagner de Souza Costa, Rafael da Silva
Rodrigues e Anderson de Souza Telles, ratificaram o testemunho do colega.
Pelo
menos quatro réus afirmam que não participaram da briga. André Tavares, segundo
sua defesa, estava fora do Maracanã no momento da briga. Gustavo Inocêncio,
Vinicios Cassemiro Fernandes de Souza e Leandro da Silva Coelho estavam na
arquibancada, mas seus advogados argumentam que eles não se envolveram no
conflito. Todos os habeas corpus impetrados até agora foram negados.
As
defesas de André Tavares e Gustavo Inocêncio pretendem acionar o STJ (Superior
Tribunal de Justiça), em Brasília, na tentativa de libertá-los.
“Careca, de barba”
Em
comum entre alguns dos torcedores que alegam inocência, características
físicas: carecas, gordos e de barba, como Tavares e Inocêncio. Coelho só não
usa barba. Souza, por outro lado, não se enquadra nesse estereótipo.

Infelizmente (Inocêncio) estava no espaço reservado aos torcedores de seu time
e teve sua liberdade privada por ali estar, ser negro, careca, e de barba
grande! Característica essa que foi predominante na acusação por parte dos
Policiais Militares – escreveu o advogado de Gustavo Inocêncio, João Drumond
Freitas, em habeas corpus que teve pedido de liminar negado pelo Tribunal de
Justiça do Rio de Janeiro.
Freitas
também apresentou imagens que, segundo ele, mostram que Inocêncio não participa
da briga – até se afasta dela.
O
mesmo argumento é utilizado pela advogada Luciene Telles, que representa
Coelho.
– Dá
para ver nas imagens da briga que o Leandro fica parado, de braços cruzados.
Ele é gordinho, careca. O que me deixa mais estarrecida é que o meu cliente, em
todas as filmagens, está parado – protestou ela, que anexou ao processo imagens
veiculadas no portal Uol.

Houve uma arbitrariedade sem tamanho, todos foram colocados no mesmo barco. Se
você analisar o perfil dos 31, eles são muito parecidos: são carecas, com
barba, tatuados. Foram escolhidos a dedo – afirmou o advogado de Tavares,
Gabriel Miranda Moreira, que apresentou fotos feitas pelo torcedor do lado de
fora do Maracanã.
De
acordo com Moreira, o horário em que as fotos foram feitas provam que Tavares
não estaria dentro do estádio no momento da briga.
Legalidade das prisões
A
legalidade das prisões também é alvo da defesa dos réus. O advogado Gaspar
Osvaldo da Silveira Neto, representante de Vinicios Souza, entende que o
juizado do torcedor, onde foi apresentada e recebida a denúncia do Ministério
Público do Rio de Janeiro, não tem competência para julgar esse caso.
– A denúncia
supera a atividade do juiz do juizado. Ele tem que se declarar incompetente. A
prisão é ilegal, quem decretou a prisão é incompetente – afirmou Silveira Neto.
– Eles
(os torcedores) foram denunciados em seis crimes que ultrapassam penas de
quatro anos de prisão. Isso supera a competência do juizado. Teria que ter sido
encaminhado a um juizado criminal comum – explicou o advogado.
A
assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do Rio rebateu esta acusação:
– O
Juizado Especial do Torcedor e dos Grandes Eventos tem competência ampla para
julgar qualquer tipo de crime que diz respeito ao assunto – diz nota enviada à
reportagem.
Pesquisadora
do Núcleo de Estudos sobre o Crime e Pena da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a
professora Maíra Zapater também entende que as prisões são ilegais, mas cita
outros motivos.
– A
prisão preventiva é feita quando há risco de fuga, ou de intimidação de
testemunhas, destruição de provas do processo. Para decretar prisão preventiva
você tem que ter certeza de que foi a pessoa. Há muitos indicativos de
ilegalidade. Faltam muitos elementos. A individualização da conduta tem que
acontecer no processo – disse.
Um dia
depois da prisão em flagrante, a delegada Jéssica de Almeida, que atuou no
caso, sugeriu que fosse aplicada a prisão preventiva, o que depois foi acatado
pelo Ministério Público e pela Justiça. Jéssica afirmou, então, que faltaria à
polícia individualizar a ação de cada um dos acusados. Isso nunca aconteceu.
A
denúncia apresentada pelo promotor Marcos Kac no dia 7 de novembro enquadra os
30 maiores de idade nos mesmos seis crimes. Ela é classificada pelos advogados
de defesa dos corintianos como “vaga” e “genérica”.
Para
justificar o crime de associação criminosa, o promotor afirma que os
denunciados “são integrantes, ainda que informalmente, de torcidas
organizadas do Sport Club Corinthians Paulista”. Segundo reportagem do
Esporte Espetacular, dos 30, só quatro são associados a organizadas alvinegras
– 11 têm passagens pela polícia.
Coordenador
do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Sobre Futebol e Modalidades
Lúdicas), ligado à USP (Universidade de São Paulo), o professor Flávio de
Campos também critica a ação da polícia militar, que tinha poucos agentes para
fazer a segurança do setor onde estavam os corintianos.
– Foi
uma negligência semelhante ao que aconteceu naquele Atlético-PR x Vasco –
afirmou ele, citando o duelo em Joinville, na última rodada do Brasileiro de
2013, quando uma briga deixou quatro feridos. A segurança, naquele jogo, foi
feita por uma empresa privada, sem policiais dentro do estádio.
– Era
uma partida com tensão. No Maracanã, (o número de policiais) era insuficiente.
Segundo
Campos, que pesquisa o comportamento de torcidas organizadas, ao ver um membro
da corporação ser agredido, a polícia agiu com revanchismo.
– É o
revide. Quando a polícia militar deixa de agir como polícia de um estado de
direito e age como torcida organizada. Era como se houvesse uma terceira
torcida organizada no estádio, além das de Flamengo e Corinthians – completou.
Autor
do livro “Para entender a violência no futebol”, o professor
aposentado da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Maurício Murad
estava no Maracanã quando a briga aconteceu. Ele aponta uma sucessão de erros
no caso.

Havia apenas um gradil e um policial tomando conta deste gradil (que separava
as torcidas de Flamengo e Corinthians). Somente depois da brutal agressão de
torcedores do Corinthians a um policial é que as forças de segurança chegaram
para conter os vândalos.
Ele
ainda apontou excessos dos policiais no momento da identificação dos suspeitos:
– Por
que a polícia esperou o final do jogo, permitindo que aqueles vândalos vissem a
partida, e somente depois fizeram aquela cena (dos torcedores sem camisa) que
lembra as rebeliões no Carandiru e campos de concentração da Segunda Guerra?
Por
fim, também criticou o Corinthians, que no dia publicou um comunicado com
críticas ao policiamento, mas sem admitir erros de sua torcida no episódio.
– As
consequências poderiam ter sido mais graves. É preciso preparar melhor as
polícias, exigir dos clubes (que são coniventes com os torcedores violentos) e
punir severamente os vândalos.
A
assessoria de imprensa da Polícia Militar do Rio respondeu o seguinte:

Cerca de 30 torcedores foram detidos por participarem da agressão a policiais
militares do Gepe (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios), durante o
jogo entre Flamengo x Corinthians, no Maracanã. Todos foram encaminhados ao
Jecrim – diz o comunicado.
A
Justiça tem 60 dias, a partir da instauração do processo, para marcar uma
audiência onde serão ouvidas testemunhas de acusação e defesa, além dos réus. A
Polícia Civil e o Ministério Público foram procurados pela reportagem, mas não
se manifestaram.
Além
dos 30 torcedores presos pela briga no Maracanã, Julio Cesar Picolo foi
identificado pela Polícia Civil de São Paulo dias depois do jogo e indiciado.
Outras seis pessoas foram presas no dia 8 de novembro acusadas de ameaçar a
juíza Marcela Caram.

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