Mazinho revela torcida de Thiago e Rafinha pelo Flamengo.

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Foto: Site Oficial / FC Barcelona

GLOBO
ESPORTE
: Iomar do Nascimento ganhou o apelido de Mazinho ainda na infância em
Santa Rita-PB. Hoje, aos 50 anos, é dono de um currículo invejável com as
camisas de clubes como Vasco, Palmeiras, Valencia e Celta e da Seleção, pela
qual foi prata nos Jogos Olímpicos de 1988 e titular na conquista da Copa do
Mundo em 1994. Mesmo assim, o ex-jogador admite ser pouco reconhecido no Brasil
– muito menos do que na Espanha, onde vive há 22 anos. Por aqui, atualmente, vê
seu nome geralmente associado aos filhos: os meio-campistas Thiago Alcântara,
do Bayern de Munique, e Rafinha Alcântara, do Barcelona. Por causa deles, em
seu currículo agora há uma nova função: empresário. Há três meses, Mazinho
abriu uma empresa para gerenciar sozinho a carreira de Thiago e Rafinha, além de
ficar de olho em outros talentos.

O
GloboEsporte.com encontrou o tetracampeão na Espanha para uma entrevista
exclusiva. Em um restaurante de frente para a praia em Castelldefels, perto de
Barcelona e de onde mora, ele se abriu. Relembrou a “pior notícia da vida”
e mostrou guardar mágoa da CBF por Thiago não ter tido a chance de jogar na
Seleção – ele hoje defende a Espanha. Ainda sobre Thiago, garantiu ter feito o
certo há três anos na troca do Barça pelo Bayern. Disse o que espera do futuro
em relação à situação parecida que vive Rafinha no clube catalão, onde é
reserva e busca mais espaço. E, como vascaíno que é, contou como lidou com os
filhos virando a casaca para o Flamengo, onde ambos querem jogar um dia.
Mazinho
foi revelado no Vasco junto de Romário, de quem é amigo e com quem mantém bom
contato até hoje. Ele relembrou como o Baixinho foi “o cara” do
Brasil na Copa do Mundo de 1994 e traçou uma comparação com o que podemos
esperar de Neymar na Copa de 2018, na Rússia. Mazinho também conhece bem o
atual camisa 10 da Seleção, que é muito amigo de seu filho Rafinha, e mantém
ainda ótima relação com a família do craque.
– O
Romário tinha essa fama de não gostar de treinar, mas na Copa de 94 era o
primeiro em tudo. Queria ser artilheiro, o melhor do mundo, e campeão. Com o
grupo vencedor que tínhamos, conseguimos ser campeões e fazer com que o Romário
fosse “o cara” do Mundial. O Neymar tem tudo para isso. Pode decidir,
e tomara que seja assim.
Veja a
seguir a entrevista com Mazinho na íntegra:
GloboEsporte.com: Você jogou duas Copas do
Mundo (1990 e 1994) e ganhou uma. Tem uma bela história com a seleção
brasileira. Acha que de repente não tem no Brasil o reconhecimento que merece?
Mazinho:
Com toda a sinceridade, isso não é uma coisa que me preocupa. O meu currículo
está aí, a medalha está na minha casa. É verdade que muita gente não me
reconhece quando vou ao Brasil, mas é normal. Eu não vivo no Brasil. Fui
campeão do mundo em 1994 e vim embora para a Espanha. Aqui me atualizei em
termos de viver e fiquei para sempre. Aqui é um lugar maravilhoso. Durante a
Copa de 2014 eu e um amigo fomos ver Espanha x Chile e ele achou engraçado que
o pessoal da Espanha me reconhecia mais do que os brasileiros. Eu disse a ele:
“É porque vivo na Espanha. Minha cara sempre aparece na televisão, nos
jornais. No Brasil, não. Porque estou longe, não tenho nenhum tipo de vínculo
de trabalho”. Mas isso nunca me preocupou. Sabem quando cita o nome, mas
como pessoa dificilmente me reconhecem por estar sempre fora.
Seus dois filhos torcem para o Flamengo. E
você?
Eu sou
vascaíno.
E como isso foi acontecer?
A
torcida do Flamengo é uma torcida de louco. Quem gosta de futebol sabe que ela
te agita muito, te pega muito. E o Adalberto (ex-lateral do Flamengo e pai do
atacante Rodrigo, do Valencia), durante um período de férias no Brasil há
muitos anos, levou os meninos a um Fla x Flu, e eles entraram em campo. Nessa
de entrar em campo, com a torcida do Flamengo, eles se tornaram vira-casacas.
Eram vascaínos e de repente viraram flamenguistas. O Thiago e o Rafa têm o
sonho de encerrar a carreira no Brasil e no Flamengo. Nunca forcei meus filhos
a nada. Em casa existe uma liberdade muito grande, tenho uma confiança muito
grande neles. Os dois foram para o lado do Flamengo e eu não pude fazer nada.
Nessa onda, minha filha mais nova foi junto. Quando é Flamengo x Vasco, a gente
fica nesse sofrimento (risos).
Você está há 22 anos na Espanha e tem
nacionalidade espanhola. Dá para se considerar meio espanhol?
Não,
sou brasileiro. Sempre fui e sempre serei. Aqui estou contente, em um país
maravilhoso que acolheu maravilhosamente a mim e a minha família. Mas sou
brasileiro com muito orgulho e muito amor.
Como brasileiro, o que você sentiu quando
o Thiago decidiu jogar pela seleção espanhola?
Voltamos
a esse tema. O Thiago não decidiu jogar pela Espanha. Ele não teve opção de
jogar pelo Brasil. Talvez por isso o Thiago sempre dá suas entrevistas em
espanhol. Com uma mágoa, vamos dizer assim. É normal, porque todo garoto sonha
em sonhar na seleção brasileira, colocar a Canarinha no corpo e ter a
satisfação de estar na melhor seleção e no melhor país do mundo. Quando o
Thiago foi convocado para a seleção espanhola aos 16 anos, fiquei preocupado e
chamei a seleção brasileira para falar desse tema. “O que eu faço?”,
pedi uma opinião, uma orientação à CBF. “O Thiago foi convocado para a
seleção espanhola e eu não quero que ele vá, porque somos brasileiros e ele
quer jogar pelo Brasil”, eu disse. A resposta que tive foi simplesmente
que os garotos formados fora do Brasil não vestem a camisa da Seleção. Isso
para mim foi um impacto muito grande. Minha resposta de imediato foi: “Mas
somos brasileiros. Não somos espanhóis”. Mas isso foi transmitido para
mim, e eu não poderia fechar aquela porta (da Espanha), já que a outra (do Brasil)
foi fechada. Assim, o Thiago foi para a seleção espanhola.
Ele é frustrado de não ter podido jogar
pelo Brasil?
Não é
frustração. Pode ser uma mágoa mesmo. Você quer jogar pelo seu país e toma um
“não”. Qualquer jogador se sente ofendido, triste. Me diz qual o
brasileiro que não quer jogar pela seleção brasileira.
O que você acha que mudou lá para o
Rafinha, que também teve formação fora do Brasil, defender a Seleção?
Eles
(CBF) abriram as portas depois desse caso do Thiago. Depois que o Thiago se
destacou muito em um torneio, a imprensa começou a divulgar, e surgiu todo o
debate. Aí a CBF voltou atrás no pensamento, mas o Thiago já estava na seleção
espanhola. O Rafa veio depois e também sempre esteve decidido a defender o
Brasil. O Rodrigo também joga pela seleção espanhola, então creio que o Brasil
perdeu dois grandes jogadores que poderiam ser muito úteis a essa Seleção.
Graças a Deus eles estão bem, mas foi a pior notícia que recebi na minha vida.
É difícil ver um filho de ex-jogador fazer
sucesso no futebol. E você, que fez sucesso, tem dois filhos muito bem no mundo
do futebol. A que você acha que se deve isso?
Acho
que é por causa da família que a gente tem. É uma família de esportistas. Minha
ex-mulher foi jogadora de vôlei do Fluminense e sempre fez todo tipo de
esporte. Eu sou que nem ela, também faço todo tipo de esporte. E felizmente
saíram os filhos com toda essa coordenação, esses genes. Realmente pegaram
muita coisa de nós. O talento vem de muita coordenação. Não só eles dois, mas
minha filha também jogou basquete. Tive a grande sorte de ter dois garotos que
passaram toda a vida comigo dentro de um campo de futebol, sentindo cheiro de
grama, e de terem o talento que eles têm.
Você sempre quis que o Thiago e o Rafinha
fossem jogadores?
Não é
que eu não queria, mas eu nunca imaginava. Apenas me divertia com meus filhos.
Como era minha profissão, eu não queria chegar em casa cansado e jogar com
eles, então fazia tudo ao contrário. Levava os dois comigo para o campo, dava
um cansaço neles, e descansávamos quando chegávamos em casa. Eu sempre ia uma
hora antes dos treinos e ficava brincando com eles no campo. Graças a Deus
surgiram esses dois grandes jogadores e duas grandes pessoas, que estão
triunfando no futebol mundial.
E quem joga mais: Thiago ou Rafinha?
Sempre
digo que jogam os dois, porque são características diferentes. Um (Thiago)
gosta de jogar mais pausado. O outro (Rafinha) pode ser pausado, mas pode ser
mais direto. O Rafa busca muito o gol, o Thiago gosta da armação, do último
passe, e talvez se sinta mais feliz com isso do que marcando um gol.
Muita gente diz que faltou paciência ao
Thiago por ter saído do Barcelona e ido para o Bayern. Ele era reserva do Xavi
e do Iniesta, e o Xavi acabou saindo duas temporadas depois. Aquele posto
teoricamente passaria a ser do Thiago. O que você acha?
Digo
que no futebol não há paciência. Se você tem objetivo, não pode estar toda a
sua vida esperando em um clube a oportunidade de chegar. Não pode passar cinco
ou seis anos na reserva de um clube se tem objetivo. Se o objetivo é estar na
seleção, é jogar para alcançar esse objetivo, não pode esperar. O Thiago estava
em um momento que para ele era equivocado, mas ao mesmo tempo maravilhoso, pois
aprendeu muito com Messi, Xavi, Iniesta, Busquets. Isso foi uma grande escola
para ele. Mas nosso objetivo era outro, era que ele jogasse, fosse para a
seleção, e não poderíamos esperar.
O Rafinha vive situação parecida. Ganha
oportunidades, mas não é titular do Barcelona – Iniesta e Rakitic atuam na
posição dele. O que pensa para o futuro próximo?
Tudo
só depende do Barcelona. Todo jogador só depende do clube. Se o jogador se
sente importante para o clube, se o clube dá o respaldo, acho que não tem
problema. O Rafa está contente aqui. Lógico que quer jogar. É jovem, mas quer
jogar, quer a seleção brasileira. Foi chamado pelo Dunga como teste antes da
Olimpíada, mas depois teve azar de chegar machucado ao torneio, o que o
atrapalhou muito. O Tite está levando seis ou sete jogadores da Olimpíada para
a Seleção, e o Rafa poderia estar nesse meio. Mas ele está trabalhando. O
objetivo dele é voltar para a seleção brasileira, só que precisa estar jogando.
A gente espera que ele, ainda como está tendo neste início de temporada, possa
ter muitos e muitos minutos. Nós só passamos a trabalhar de uma maneira
diferente quando o jogador não está contente no clube. De momento estamos
contentes, o Rafa está jogando e tendo oportunidades. Vamos ver o que acontece
daqui pra frente.
O
Rafinha tem tido minutos, não sei se tantos quantos ele gostaria, e tem
aproveitado – fez cinco gols no Campeonato Espanhol. Mas não é titular. Para
ele se sentir feliz e vocês acharem que ele está no lugar certo, o Rafinha tem
que ser titular ou servem esses minutos?
Olha,
ele está brigando para isso. O jogador não está contente no banco. Não quer ser
mais um, quer jogar. É verdade que o Rafa tem jogado, mas não as grandes
partidas. Tem jogado as partidas que não têm muita motivação. E muitas vezes
você se sente importante quando joga uma partida grande, difícil, aí vê que o
treinador confia em você. Infelizmente não tem tido essas oportunidades. Em
alguns jogos importantes ele entra faltando 30 minutos para acabar. Vamos ver.
Ele está trabalhando para ser titular, não quer ser mais um.
Você diria que o desenrolar dessa
temporada vai ser fundamental para definir se o Rafinha fica ou sai em uma
janela de transferências em breve?
Não
digo isso. Só digo que, se jogador está contente, a gente está contente. Se o
jogador não está contente, a gente tem que sair para trabalhar uma situação
para que esteja feliz. O Rafa tem contrato até 2020, é jogador do Barcelona, e
a gente não tem nenhum pensamento de sair do clube. Mas acho que ele tem que
jogar. Precisa jogar. Teve a infelicidade de se machucar e a temporada passada
quase em branco, jogou só 7 partidas. Mas todo jogador só se sente útil quando
joga. E a gente espera que ele possa ter muitos minutos desta temporada, que
possa jogar partidas importantes também.
Sobre a nova fase seleção brasileira: você
acha que o Tite deu jeito no time? E o 7 a 1 finalmente foi superado?
Acho
que o 7 a 1 nunca vai superado, dificilmente vai sair da cabeça do brasileiro.
Foi uma fatalidade no futebol mundial. Mas está aí, é impossível apagar. Daqui
a 500 mil anos vão relembrar esse resultado. O Tite está fazendo um trabalho
importante. Taticamente o time está organizado, e os jogadores estão muito
motivados. De todos esses jogos, a vitória sobre a Argentina foi a que mais me
impactou, pois dificilmente você vê um Brasil x Argentina assim, fazendo a
Argentina se tornar uma seleção pequena, sem deixar espaço. Poderia ter sido
uma goleada. Bem ofensiva e defensivamente. Ele deu uma cara diferente. O Dunga
tinha um desconforto para trabalhar. Hoje realmente o Tite deu um
“plus” nessa seleção. Estou contente com o Tite e com a Seleção.
Para ficar mais contente, só se o Rafinha
for convocado?
Não
resta dúvida. É o ideal para completar essa felicidade.
Tem vaga para ele?
Tem.
Trabalhando sério, ele pode estar ali. Já esteve com esse mesmo grupo e tem
tudo para voltar à Seleção.
Você conhece bem o Dunga, foi tetracampeão
com ele. O que deu errado?
É
difícil falar, estou de fora. A gente sabe que ele tem um caráter muito forte,
às vezes isso confunde com os jogadores, com a imprensa. Talvez essa situação
criou um clima um pouco diferente. Às vezes tem jogadores que não brigam por
você. Times fantásticos poderiam apresentar um futebol muito melhor. Mas só
quem está ali sabe o que houve. Eu não sei. Conheço muito bem o Dunga e sei do
caráter dele. Às vezes também os jogadores são muito complicados. Isso pode
atrapalhar.
Você também conhece bem o Neymar, é
próximo dele. O Rafinha, por sinal, é muito amigo dele. O Neymar está muito
bem. Você acha que, para ser o melhor do mundo, ele precisa sair do Barcelona,
onde “o cara” é o Messi?
O
Neymar vai ser o melhor do mundo em um futuro próximo. A gente tem que entender
também que Messi está quase com 30 anos, Cristiano Ronaldo tem mais de 30. Tudo
é natural. O Messi surgiu quando o Ronaldinho saiu do Barcelona. E o Ronaldinho
e o Deco ajudaram muito o Messi. Todo grande jogador ajuda outro grande
jogador. O Messi ajuda muito o Neymar. O Neymar já é um dos melhores, e o Messi
vai ajudá-lo a ser o melhor do mundo.
Você surgiu junto do Romário e é muito
amigo dele. Acha que o Neymar pode ser para o Brasil na Copa de 2018 o que o
Romário foi na Copa de 1994, quando vocês foram campeões?
Acho
que sim. Em 1994, a gente vinha de uma experiência muito ruim de 1990, com
muita confusão interna, e foi para a Copa sem nenhuma ambição de novos
problemas. Nós queríamos ser campeões. É difícil ser assim, mas no grupo de 94
não houve um arranhão sequer no grupo, nenhuma discussão. Era um grupo
maravilhoso, que remava para o mesmo lado. Conheço o Romário desde 1983, quando
cheguei ao juvenil do Vasco, e foi a primeira vez que vi o Romário sendo
“o cara”. Ele tinha essa fama de não gostar de treinar, mas na Copa
era o primeiro em tudo. Queria ser artilheiro, o melhor do mundo, e campeão.
Com o grupo vencedor que tínhamos, conseguimos ser campeões e fazer com que o
Romário fosse “o cara” do Mundial. O Neymar tem tudo para isso. Pode
decidir, e tomara que seja assim. E tomara que a CBF tenha a paciência de
manter o treinador por muito tempo, pois dificilmente isso acontece.
Romário e Neymar têm estilos de jogo e
personalidades diferentes. Acha que a principal semelhança entre eles seria
essa coisa de chamar a responsabilidade?
Pode
ser que sim. É impressionante ver um garoto de 24 anos como o Neymar ter essa
responsabilidade. É o maior talento que temos hoje no futebol brasileiro e no
futebol mundial. A gente espera. Ele é que vai definir. Mas tem outro grande
jogador que surgiu e está em momento maravilhoso, que é o Coutinho. Os dois têm
a mesma idade e se conhecem muito bem. Tomara que sejam os grandes nomes do
Mundial da Rússia. Têm tudo para ser. O Neymar não tem medo de nada, não tem
medo de pancada. Tomara que seja “o cara” e que a gente possa
conseguir esse título.

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