Para Autuori, Flamengo só deu espaço a Zé por “necessidade”.

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Foto: Divulgação

YAHOO:
Enquanto os técnicos argentinos são empregados livremente por todo o mundo, o
maior país da América do Sul tem problemas para exportar treinadores. Jack Lang
explica como um pensamento de curto prazo tem sido prejudicial para o país

Levir
Culpi não cairia na obscuridade tranquilamente. Após ser despedido pelo
Fluminense no dia seis de novembro, o técnico desabafou.
“Estou
com raiva”, escreveu ele numa carta aberta ao clube.

“Sou grato pela
oportunidade de fazer parte do Fluminense. Passei nove meses em um clube famoso
por ser o melhor do mundo em demitir facilmente seus técnicos”.

A ira
do técnico é compreensível. O Flu já estava há seis jogos sem vencer, uma
situação realmente infeliz. Mas Levir trouxe estabilidade a um clube abalado
pela agitação nos bastidores e pela venda do jogador Fred, mesmo depois dele
guiar o Tricolor para a glória em abril, tudo enquanto o Maracanã ainda estava
sendo usado para os Jogos Olímpicos. Se já houve uma tarefa ingrata nesse
mundo, provavelmente foi essa.
Ocorrência comum
Dos 20
homens que ocuparam cargos de gestão em grandes equipes no dia primeiro de
janeiro, o único que não foi demitido foi Dorival Júnior, do Santos
Infelizmente,
esse tipo de coisa é muito comum no Brasil. Embora Levir reivindique que o
Fluminense é o pior em matéria de debate, não há dúvida de que os clubes
brasileiros em geral são péssimos lugares para se trabalhar como técnico.
Em 35
rodadas da série A do Brasileirão, já houve 22 mudanças de técnico (isso
excluindo outros profissionais da área de gestão de equipes). Apenas quatro
equipes têm mantido seus técnicos desde maio: o mesmo número teve três
treinadores de tempo integral durante esse tempo. Dos 20 homens que ocuparam
cargos gerenciais de alto voo em 1º de janeiro, o único que permanece na
posição foi Dorival Júnior, do Santos.
Quanto
mais se observa a situação, pior ela fica. A maioria dos clubes teve mais de 10
gestores desde o início da década. Figueirense, Sport e Vitória já trocaram de
técnico 16 vezes nesse tempo. Pelo Atlético Paranaense, já passaram 19. Um
estudo de 2014, feito pelo jornal mexicano El Economista, mostra que a
expectativa de vida atual de um treinador no Brasil é de 15.2 partidas, pior do
que em qualquer lugar do mundo. Algo está muito errado com a maior liga do
Brasil.
Essa
infeliz tendência se deve muito a uma visão de curto prazo que ocorre no
futebol brasileiro. Os apoiadores são notoriamente impacientes, mesmo com seus
próprios pares. Presidentes de clubes, muitos dos quais foram eleitos e
precisam se manter no cargo, favorecem decisões rápidas sobre projetos de longo
prazo. Isso faz com que nenhum técnico sobreviva a alguns poucos resultados
ruins.
O carrossel de técnicos
Argel
Fucks, um homem ainda mais zangado do que o nome sugere, já mudou de clube duas
vezes durante o Brasileirão
A
rotatividade dos técnicos inevitavelmente significa que os mesmos velhos rostos
acabam voltando para os clubes. Nos últimos anos, Muricy Ramalho (São Paulo),
Abel Braga, Celso Roth (ambos do Internacional), Luiz Felipe Scolari (Grêmio),
Vanderlei Luxemburgo (Flamengo) e nosso amigo Levir (Atlético Mineiro), todos
reapareceram em suas respectivas equipes. Às vezes, parece que toda a liga está
operando sob uma política de rotatividade: Argel Fucks, um homem ainda mais
zangado do que o nome sugere, já mudou de clube duas vezes durante o
Brasileirão.
Em um
cenário como esses, não é surpresa que técnicos mais jovens tenham dificuldades
de encontrar clubes no Brasil. Treinadores promissores como Adílson Batista,
Ney Franco e Marquinhos Santos têm sido mastigados e cuspidos pelo sistema.
Dorival Júnior, Mano Menezes, e Caio Júnior só agora conseguiram colocar suas
carreiras nos eixos depois de vários contratempos.
Isso
deixou um vácuo preocupante na velha guarda e o problema foi generalizado. 

“Precisamos ter espaço para quem está chegando. Isso é fundamental”, disse
o treinador do Atlético-PR, Paulo Autuori ao ESPN Brasil no mês passado. “Sai
um, outro chega, sai um, outro chega… Temos que sair deste círculo vicioso.”

Para
que isso aconteça, o Brasil deve redirecionar a estreiteza de espírito, que tem
sido o cerne da sua cultura no futebol. A tendência de ignorar situações como
essas e acreditar que “o país do futebol” sempre dá um jeitinho, irá piorar a
situação. Esse pensamento esteve em evidência em 2012, quando a CBF recusou a
chance de conversar com Pep Guardiola sobre a possibilidade dele treinar a Seleção
Brasileira. Outra demonstração ocorreu no mês passado, quando Luxemburgo, um
dos dinossauros da gestão futebolística do país, alegou que Guardiola “era mais
marketing do que técnico”.
Nadando contra a maré
Um
olhar sobre a lista dos melhores treinadores da FIFA em 2016 mostra algo
revelador: ela têm nomes da Alemanha, Espanha, Itália, Portugal, Argentina,
França e País de Gales, mas nenhum nome brasileiro.
Essa
miopia presunçosa seria ótima se o Brasil estivesse produzindo técnicos de alto
nível. Um olhar sobre a lista dos melhores treinadores da FIFA em 2016 mostra
algo revelador: ela têm nomes da Alemanha, Espanha, Itália, Portugal,
Argentina, França e País de Gales, mas nenhum nome brasileiro. Não há ninguém
no país prestes a virar a mesa.
Isso não
quer dizer que não haja histórias de sucesso no país. Marcelo Oliveira e Tite
tiveram sucesso no Cruzeiro e Corinthians, respectivamente, após terem tido
tempo suficiente para colocar seus projetos em prática. Zé Ricardo, de 45 anos,
chamou a atenção do Flamengo, enquanto o treinador do Botafogo, Jair Ventura,
parece ter um brilhante futuro pela frente.
Mas
essas são exceções à regra. Para Autuori, o cargo no Brasil requer mais sorte
do que talento.

“Zé Ricardo está fazendo um trabalho fantástico no Flamengo”,
disse o treinador de 60 anos de idade. “Mas a ideia surgiu no início da
temporada ou o clube só aceitou por necessidade? Necessidade. Eu quero ver esse
tipo de projeto emergir através do planejamento.”

Um futuro melhor?
Parece
que a ajuda está a caminho: existem discussões sobre uma lei que define uma
quantidade máxima de treinadores a serem empregados durante uma temporada.
Seria um começo, mas qualquer mudança nas regras também deve ser acompanhada
por uma mudança cultural, tanto nas salas de reuniões quanto nas arquibancadas.
Deve haver mais paciência e proteção aos treinadores brasileiros, permitindo
que eles se desenvolvam em outro lugar.
Se
isso falhar, mais erros bem conhecidos virão. É uma visão distópica, pode ter
certeza, mas é exatamente o que Levir insinuou em sua declaração:

“Eu vou
escrever um livro sobre meu retorno ao Brasil após sete anos no Japão. Vou
chamá-lo de De Volta ao Inferno.”

Jack
Lang

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