A morte do drible.

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Orlando Berrío correndo em treino do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

CORREIO
24 HORAS
: Lucas tem 9 anos e em sua primeira década pelos descaminhos desse
mundo estranho descobriu os três princípios do futebol moderno: velocidade,
força e disciplina. Aprendeu que a verdadeira arte da bola está nos músculos,
apesar de vez ou outra ensaiar um “rolinho” (para nós, caneta, tabaca, bola
entre as pernas…) sem autorização prévia, memorando em três vias, cópias
autenticadas. Recebe, gira, chuta. “Forte!”, ensina o treinador. Volta rápido
para cobrir o corredor esquerdo. Já sabe como se chama: recomposição.

A bola
que ganhou do pai cumpre sua trajetória sinuosa de um pé ao outro a caminho do
supermercado. O segurança é o primeiro obstáculo. Um drible curto e está na
seção de higiene pessoal. A senhora de cabelos brancos, cestinha carregada e
olhar reprovador fica para trás. O moleque ao lado esboça um sorriso, mas a mãe
abafa o grito de “olé!”. Na vida, como na bola, 9 anos são mais que suficientes
para entender que é preciso cumprir ordens.
Ocupação
de espaço, por exemplo, é um dos itens da tal recomposição que Lucas não pode
esquecer. Ao primeiro som de “Volta! Volta!” já estão organizadas uma linha de
quatro e outra de cinco. Absorveu rápido o conceito: é atacante pelo lado do
campo, mas a velocidade que imprime para chegar ao gol é a mesma que precisa
mostrar ao acompanhar o lateral do time contrário. Olha para a direita e vê um
volante “marcador”, dois que “sabem jogar” e, no outro extremo, o guri mais
rápido que conhece. Alinhados pouco atrás do centro do gramado, a ordem é
obstruir o avanço do adversário. O futebol moderno exige disciplina, aplicação
tática e, aos 9 anos, Lucas entende que o atacante habilidoso e driblador não é
mais o desejo de todo treinador.
Volta
e meia, no entanto, se flagra entusiasmado com um improviso. Formado em
educação física, o pai ensinou a jogar em mais de uma posição. Faz pivô de
manual – mão no peito do marcador para ter referência e escolher o lado do giro
–, mas sorri mesmo ao acertar o elástico perfeito, zagueiro de um lado, bola do
outro. Na quadra do parque ou em meio aos passantes, vai driblando o tal jogo
moderno à espera da próxima orientação de campo, numa batalha em que o lúdico
perde cada vez mais espaço para a padronização.
Lucas
é só um entre os tantos garotos de 9 anos moldados à perfeição para o “novo
futebol”. Forte, rápido e disciplinado, mesmo que um rompante de imaginação
alimente o drible desconcertante que, para ele, ainda vale mais do que toda
aquela semana de treinamentos. A tendência é que perca aos poucos a ingenuidade
infantil que vez por outra nos faz lembrar a verdadeira razão do esporte.
Gostava mais de Neymar e Messi, agora o ídolo é Cristiano Ronaldo. “Até
comemora igual ao CR7”, reforça o pai.
Músculos,
força, disciplina. A teoria da imposição física sobre a técnica ganha
naturalidade e, de repente, todo e qualquer clube brasileiro se põe em corrida
desbaratada por um atacante de lado que faça a recomposição ensinada a Lucas
aos 9 anos. Atacar, recompor, ocupar espaço, marcar o lateral, fazer o corredor,
cumprir função tática… As expressões permeiam as mesas redondas que se
amontoam nos canais de TV fechada. O vigor de um maratonista com a velocidade
de um atleta de 100 metros, a ponto de lermos esdrúxulas comparações de
cronômetro entre Berrío, mais um gringo-sensação do Flamengo, e Bolt, o homem
mais rápido do mundo.
A
disciplina sufoca a criatividade num crime premeditado, treinadores
influenciáveis como mandantes, jogadores omissos servindo de cúmplices. A
discussão da moda é “se é possível escalar um time com dois meias”, algo que há
até bem pouco tempo era a essência do 4-4-2 clássico brasileiro. A cada vez que
um velocista barra um habilidoso morre uma fadinha no mundo perdido do futebol
arte. Ao menos era essa a leitura lúdica que Lucas deveria ter do esporte aos 9
anos. Alimentar o espírito infantil e brincar de bola como criança.
A
verdade é que somos todos responsáveis pelo ritmo irrefreável desse futebol
moderno, ou pós-moderno, embalado na velocidade dos mil atacantes de beirada
que não acertam um chute a gol, mas recompõem, ocupam espaço e cumprem função
tática com disciplina militar. Quando centramos foco em esquema e organização,
e atribuímos grandes méritos a “times seguros”, optamos pela mediocridade.
Mas a
criatividade sempre há de se insurgir. Cada chapéu, rolinho, elástico ou jogada
de efeito, cada lance marcado na memória do torcedor, cada gol nascido da
desobediência tática é um toque de resistência que só os craques podem dar. Os
Lucas ainda não descobriram, mas são a esperança do futebol brasileiro.
Eduardo
Rocha é jornalista.

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