Direito ao voto no Flamengo.

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Foto: Divulgação

FALANDO DE FLAMENGO: Por Cadu Silva

Ontem,
nas minhas incursões no Twitter, debati com alguns amigos rubro-negros acerca
da possibilidade de os sócios-torcedores votarem nas eleições para Presidente
do Flamengo.
Inicialmente,
convém esclarecer que hoje, de acordo com o Estatuto do clube, o sócio-torcedor
não é considerado sócio do clube e, portanto, não possui direito de votar e de
ser votado, ainda que o próprio estatuto preveja que a administração deva
observar, entre outros, o princípio da gestão democrática.
Os
Termos de Uso do programa Nação Rubro-Negra prevêem que trata-se de “uma
ferramenta por meio da qual será possível promover a integração e a reunião de
todos os interessados em aproximar-se, da melhor forma cabível, do Clube de
Regatas do Flamengo, da sua rotina e de seus membros, bem como gerar benefícios
reais aos participantes e contribuir para o Clube”, e o gerenciamento do
programa pela GOLDEN GOAL SPORTS VENTURES, CNPJ sob n.º 06.227.829/0001-08, o
que, na pratica, terceiriza o controle de quem está apto ou não aos benefícios
inerentes aos planos de ST.
De
pronto, observo que o argumento de que o sócio-torcedor é vinculado apenas ao
futebol do clube (usado por mim, inclusive) não corresponde à verdade, até
porque, existem promoções envolvendo outras práticas desportivas. Assim,
depende exclusivamente de decisão do Conselho Deliberativo, a alteração do
Estatuto do clube,  datado de 10/08/1992
e consolidado em 02/08/2016.
A
grande pergunta a ser respondida é: queremos um modelo no qual o sócio-torcedor
tenha poder de voto?
Recentemente,
tivemos denúncias de eleitores patrocinados influenciando decisivamente nas
eleições de um clube do Rio de Janeiro. Nem mesmo a exigência de um ano de vida
associativa foi suficiente para dissipar as suspeitas.
Muitos
dos que defendem a ampla participação do torcedor no pleito sugerem como trava
o prazo adotado pelo Fluminense, 2 anos ininterruptos. Vamos assumir o prazo de
3 anos, que já é o tempo para qualquer sócio-proprietário adquirir direito a
voto.
Fazendo
uma conta básica, 36 meses pagando R$29,90 ao mês, chegamos ao desembolso de
R$1.076,40 para que qualquer pessoa possa votar para presidente. Democrático,
mas perigoso. Me parece desproporcional o investimento de alguém que queira
garantir 1.000 votos, por exemplo, e gerir aproximadamente R$1,2 milhões em 03
anos.
O
legítimo interesse dos rubro-negros mundo a fora de participar efetivamente da
vida política do clube, trará também um efeito colateral: as torcidas
organizadas se transformarão, imediatamente, em currais eleitorais. As
características especiais desses agrupamentos e os interesses, por vezes,
opostos aos interesses do clube, farão aumentar o poder político das lideranças
das organizadas, uma vez que possuem poder de mobilização e disporão de real
poder de influir no pleito.
Sempre
importante lembrar que, desde que estejam dispostos ao comparecimento
presencial, os sócios off Rio possuem direitos políticos no clube.
É
muito válida, e deve ser levada em consideração, a preocupação de que os
frequentadores da piscina ou da quadra de tênis que, muitas vezes nem torcem
pelo Flamengo, possam influenciar nos destinos do clube. Eu mesmo conheço
alguns sócios que torcem por rivais, estão pela Gávea mais pela localização
privilegiada do que por paixão clubistica.
Qual
seria a maior ameaça? Que eles coloquem o parquinho e não o futebol como
prioridade, certo?
Responsável
por uma parte ínfima do orçamento do clube, a área social tem pouco poder de
combalir as finanças do clube. Me parece razoável que qualquer um que pretenda
assumir o cargo maior do clube se preocupe com a estrutura da Gávea. Menos
provável é um movimento orquestrado de sócios simpatizantes de outras
agremiações para, deliberadamente escolher alguém incapaz de gerir até mesmo o
espaço pelo qual eles pagaram caro para usufruir.
Até
porque, minha percepção é de que as decisões no Flamengo são tomadas por
rubro-negros. Não mais rubro-negros do que aqueles que não podem ser sócios,
mas não menos.
Muito
mais possível (e perigoso) que, necessitando de apoio dos sócios-torcedores,
algum aventureiro contrate um ex-craque em atividade para satisfazer a massa
sedenta por prazeres vãos. Ou distribua gratuidades nos estádios…

Não
há, em nenhum caso, garantia de acerto. O voto dos sócios já elegeu muito
presidente fraco (para dizer o mínimo) no Flamengo, mas o voto do
sócio-torcedor já derrubou o Internacional para a série B. Qualquer que seja a
fórmula, o principal é construir um clube responsável e vencedor.

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