Estancar a sangria.

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Policiais tirando torcedor que invadiu o gramado – Foto: Armando Paiva / Fotoarena

CARLOS
EDUARDO MANSU
R: Maracanã, 13 de abril de 2014. Num dos portões, duas crianças,
a mais velha com seus oito anos, choravam abraçadas à mãe. O carro em que
estavam fora atacado de forma selvagem minutos antes de Flamengo e Vasco
jogarem uma final de Estadual que levou ao estádio 700 policiais e mais de mil
agentes públicos. Nos rostos delas, o pânico. Difícil crer que tenham voltado a
um jogo.

Sempre
que me perguntam o que acho da torcida única em clássicos, costumo responder
com outra pergunta: quais as alternativas?
Uma
delas, praticadas no Brasil, garante a presença de 10% da torcida visitante.
São escoltados numa operação de guerra, um ritual que termina numa chegada
tensa e assustadora ao estádio, onde ficam comprimidos num canto. Quem os
presencia, duvida que está num evento de lazer. Quantas famílias e crianças há
ali? É tudo tão opressivo, que se promove um filtro: dispõem-se a ir,
majoritariamente, os elementos mais violentos e íntimos do confronto. Não vale
a pena lançar mão de tantos recursos do estado para pôr este grupo num jogo.
A
outra é o mundo ideal: a divisão igualitária do estádio. O propósito é nobre,
mas vinha sendo sustentado a que preço? A cada conflito, aumenta-se o
policiamento. A complexidade do tema, ignorada por todos os níveis de governo,
pelo Judiciário e até pelos clubes — únicos promotores de eventos deste país
que julgam não ter responsabilidade por atos criminosos praticados em suas
apresentações —, conduziu a uma situação insustentável: há de chegar o dia em
que, para realizar um jogo, vai se inviabilizar uma cidade, pedir aos cidadãos
que se refugiem em suas casas.
No dia
em que as crianças do início do texto choraram no Maracanã, comunidades, praias
e praças ficaram expostas, e a cidade, mais insegura do que já é, apenas para
que se jogasse futebol. Mas nunca contestamos, porque temos a visão distorcida
de deve haver futebol a qualquer preço. Determinamos que “é problema da polícia
dar um jeito de garantir a segurança”. Pois bem, o preço que a sociedade paga
deixou de ser razoável. É especialmente inaceitável numa cidade que vive sob o
fantasma da violência tão presente quanto o Rio. Naquele 13 de abril de 2014,
os arredores do Maracanã viram arrastões, agressões. Todo aquele aparato bélico
pareceu pouco. E sempre parecerá, enquanto um real plano nacional de segurança
não for posto em prática. Colocam-se mais e mais homens nas ruas para combater
bandidos — que se sentem imunes.
Os 700
policiais e suas armas pesadas e visíveis, além de não garantirem segurança,
criavam um cenário tenso, violento. Raras foram as famílias que caminharam do
metrô ao Maracanã celebrando, com leveza, a tarde de futebol. A chegada era
nervosa, amedrontada. Ao empregar 700 homens e armas pesadas para um jogo,
importa pouco quantos incidentes o Rio viu nos últimos anos em estádios. A
derrota para a violência já aconteceu.
Convencionou-se
chamar a opção pela torcida única de falência do futebol, derrota da sociedade.
Se de fato ocorrer, serão cenas tristes no Maracanã. Mas será que já não faliu
um futebol que produz mortos e feridos e que só pode ser jogado sob a guarda de
um exército? Que derrota queremos evitar, se ela já é tão categórica?

reside o ponto crucial. É um erro ver a torcida única como a solução para a
violência das torcidas. Brigas e mortes existirão em outros pontos da cidade ou
até nos estádios, entre organizadas de um mesmo time. O passo mais importante
na luta contra a selvageria também precisa ser dado longe dos estádios. Começa
em Brasília, envolve todos os níveis de governo, o Judiciário voltado para o
real cumprimento das punições já previstas em lei, o Legislativo pensando
eventuais reformas, o engajamento real dos clubes. Envolve o enfraquecimento
das gangues infiltradas nas torcidas organizadas, cujos líderes já nem parecem
ter mais total controle. Envolve a asfixia financeira destes grupos, um
monitoramento de inteligência, a prevenção.
O
problema é complexo, e nem sequer demos o primeiro passo. O processo é lento e
é preciso estancar a sangria. Há uma situação limite e fora de controle. A
torcida única, com todo dano ao espetáculo que representa, pode reduzir a
sensação de insegurança das pessoas de bem, ao menos, ao redor dos estádios. E
pode, principalmente, permitir a realização de jogos sob condições mais
razoáveis, sem que toda uma cidade. Há capitais do país em que se evita sair de
casa em dias de clássico.
Se
adotada isoladamente, a torcida única será apenas o dano à festa, sem a
recompensa no fim do processo. Será um eterno paliativo. Mas se for adotada
como etapa de um processo de reconstrução da nossa forma de organizar jogos de
futebol, pode ser um preço que valha a pena pagar. Perderemos cores na
arquibancada, o que é um dano menor do que perder vidas ou cultivar o medo na
porta de estádios cercados por aparatos de guerra.

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