Executivo analisa direitos de transmissão: “Não há modelo.”

16
Elton Simões – Foto: Divulgação

DE
PRIMA
: Em 1997 o futebol do Brasil entrou na era do pay-per-view. O sistema,
inovador, caiu no gosto do brasileiro. Mas, por trás das câmeras, as
negociações foram intensas até a definição do modelo atual. À frente do projeto
estava o executivo Elton Simões. Hoje, no Canadá, CEO do British Columbia
Arbitration and Mediation Institute, ampliou seu leque de atuação, especializou-se
em resolução de conflitos, negociação, e utilização estratégica de propriedade
intelectual, inclusive direitos esportivos. Mesmo de longe, acompanha a
evolução do tema no Brasil. E se frustra com situações como o cancelamento de
Atlético x Coritiba, semana passada.

Como você vê o impasse entre Coritiba,
Atlético-PR e a Federação por conta da transmissão do Atletiba?
O que
aconteceu ali foi uma demonstração clara da fragilidade institucional que
norteia no Brasil a questão da propriedade intelectual. Os diretos de imagem,
de transmissão, se incluem nessa categoria. Não há processos para assegurar os
negócios, para dar tranquilidade a quem discute e a quem executa. E esses, não
são produtos que você compra, coloca debaixo do braço e leva para casa. É uma situação
bem mais complexa.
O modelo brasileiro é falho, então?
O
problema do Brasil não é que o modelo é falho. O problema é que não existe um
modelo. Simplesmente isso. Tivemos alguma evolução com as leis regulatórias, a
Lei Zico, a Lei Pelé. Reconheceu-se que a propriedade dos direitos, do
licenciamento, é dos clubes. Mas a lei esqueceu, por exemplo, que um jogo tem
dois clubes. E não se resolveu esse conflito. Esqueceu que há jogadores, há os
árbitros, e que não se pode desprezar esses atores.
E essa instabilidade impacta a receita dos
clubes…
Claro
que sim, é um círculo vicioso. As incertezas reduzem os preços pagos. Se o
preço cai, o bolo para dividir fica menor. Se o bolo é menor, a distribuição
passa a depender ainda mais da força política de cada um. E mesmo quem tem mais
força recebe menos do que poderia. Sempre haverá alguém se sentindo
prejudicado.
Que modelo deveríamos adotar, então?
Não há
modelo melhor ou pior. Há realidades diferentes e modelos que se adequam a
elas. O que é preciso é definir uma estratégia clara. Problemas como os que
levaram ao cancelamento do Atletiba, acontecem a cada contrato. É
impressionante que até hoje não se tenha estabelecido uma estratégia sólida e
permanente de negociação.
No Brasil já tivemos experiências de
negociações conjuntas e individualizadas. E a sensação é que sempre os clubes
poderiam receber mais.
Na
Liga Inglesa, a venda é conjunta, de todos os clubes. Você leva a caixa de ovos
inteira, não pode comprar um ovo avulso. A Liga estabelece os parâmetros,
negocia e distribui receitas de acordo com critérios previamente acertados. No
Brasil, o Clube dos 13, na época da Copa União (1987), foi o que mais se
aproximou de um modelo eficaz de negociação conjunta. Mas mesmo ali havia
problemas e insatisfações, nem todos os participantes eram filiados à entidade.
Uma das reclamações da dupla Atletiba é
que a negociação dos direitos do paranaense foi mal feita pela Federação, que
eles receberiam R$ 1 milhão, o que consideraram ridículo.
Nos
estaduais, exceto no Rio e em São Paulo, são dois ou três grandes em 20 clubes.
Isso significa que a concentração das receitas é maior. E ainda assim, como se
vê há queixas. Nessa questão dos preços, dos valores, o mercado paga o preço da
hora. Se o valor é x ou y é um ponto da negociação. O problema são as regras e
os critérios dessas negociações.
A negociação clube a clube é o que se vê
agora, com as emissoras fazendo acordos individuais…
Mas é
o que eu falei no começo, falta um modelo objetivo. Na Itália, na Espanha, a
venda é direta, por partida, por clube. No italiano, cada um tem 50% dos
diretos. O jogo de ida pertence a um clube e o de volta, ao outro. E eles negociam
com seus parceiros. Isso não acontece aqui. Por falta de legislação eficiente,
jogos com conflito de direitos podem até não ser transmitidos.
Qual a solução, então?
Tem de
pensar a longo prazo; definir regras claras que levem a expansão do acesso. Isso
garante receitas transacionais maiores e, o que é fundamental, aumenta a
visibilidade do produto. Por que a gente vê no Brasil as ligas europeias, o
mexicano, até o argentino e ninguém vê o Brasileirão lá fora? É exatamente por
conta dessa insegurança. E enquanto não resolvemos, nossas crianças compram
camisas do Barça, do Real, que eles veem na TV. A incerteza reduz o valor do
futebol brasileiro, é um risco imensurável.

COMENTÁRIOS: