Mansur elogia Vasco por se intitular o rival do Flamengo.

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Eurica Miranda, Presidente do Vasco – Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br

CARLOS
EDUARDO MANSUR
: A violência sem controle que habita o futebol do país exige
responsabilidade na condução das relações entre clubes rivais. O que não
significa desconhecer o peso e o significado das rivalidades locais. Estas são
responsáveis por memórias afetivas, traços da construção das identidades de
muitos de nossos clubes. Entendê-las e cultivá-las, de modo saudável, é assumir
um compromisso com a História.

Uma
combinação perversa torna quase clandestina a semifinal da Taça Guanabara.
Décadas de negligência com a violência das torcidas, má gestão do Estadual,
incapacidade de articulação dos clubes e um Rio de Janeiro que sangra exilaram
Flamengo e Vasco em Volta Redonda.
Hoje
com palco e enredo menos nobres, o clássico revela, nos últimos anos, dois
olhares distintos para o jogo, entendimentos opostos sobre o papel da
rivalidade local na vida dos clubes e de sua gente. Há acertos nas duas visões.
Os equívocos surgem quando tais posições se tornam extremadas.
Os
números são contundentes e vão além dos nove jogos sem derrota do Vasco para o
Flamengo. Desde 2014, o clube de São Januário disputou 27 clássicos contra
rivais do Rio: venceu 17 e perdeu apenas três. O Flamengo enfrentou 30 vezes os
grandes da cidade: ganhou oito e perdeu 12.
Desde
a bem sacada estratégia de posicionar seu clube como principal antagonista do
rubro-negro, Eurico Miranda mobilizou todo um clube em torno dos jogos contra
os adversários locais. E, mais fortemente, em torno dos enfrentamentos com o
Flamengo. Acerta ao valorizar tradições que, afinal, são importantes por
preencherem anseios de sua torcida. Clubes de futebol têm esta missão. É
legítimo, há uma herança cultural envolvida.
O erro
foi radicalizar. Nas duas últimas temporadas, o Vasco bicampeão estadual teve
desempenho pífio fora dos limites do estado. Foi rebaixado em 2015 e fez
péssima Série B em 2016. Premiada pelo bom Carioca do ano passado, a base
envelhecida de time teve contratos ampliados e o preço ainda é pago: o Vasco tenta
remontar seu time com a temporada em andamento.
O
Flamengo é o oposto. A elogiável preocupação da atual gestão em reordenar o
clube, fazê-lo crescer administrativa e economicamente, foi cumprida à risca.
Nitidamente, apresenta-se um clube saudável, pronto para objetivos mais altos
que têm esbarrado em erros esportivos. Mas, por vezes, a mensagem de
reconstrução excedeu limites e resvalou na refundação do clube. Beirou o
distanciamento de valores da entidade, traços marcantes de uma identidade de
clube — a política elitizante de ingressos é a face mais visível. A frieza em
relação a antigas tradições e o justo anseio por um papel mais nacional geraram
uma frieza excessiva em relação a rivalidades que nunca deixaram de ser
importantes para a torcida. Como se um jogo contra um adversário local fosse
objetivo vulgar demais.
Ocorre
que a memória afetiva é um dos pilares da paixão pelo futebol. Valorizá-la não
significa travar a evolução do clube ou colocar o Estadual, hoje um torneio
anacrônico e que ocupa mais espaço do que deveria, acima de voos maiores. Há um
saudável meio-termo nos caminhos de Flamengo e Vasco.
Hoje,
os rivais tentam corrigir a rota. Em futebol, alma e mobilização nunca explicam
tudo. Boa parte do desempenho ruim do Flamengo em clássicos recentes remete à
sua instabilidade esportiva, erros na formação de elenco e os sete treinadores
que passaram pelo cargo desde 2014. Em 2017, há mais recursos no time, fruto de
um clube mais forte, e um técnico há mais de nove meses no cargo. Há, no entanto,
mais pressão por títulos, o que parece ter modificado o olhar do clube sobre o
Estadual.
O
Vasco, com seu novo time, busca o vigor e juventude que lhe faltaram no ano
passado. E parece saber que o conserto de um carro em movimento pode lhe custar
o Estadual. O olhar, hoje, parece mais de longo prazo.
Enquanto isso, em Xerém…
O
animador início de ano do Fluminense justifica o tom otimista e a cautela de
Abel. Defensivamente, é um time ainda por ajustar. O trabalho é tão recente que
faz do tricolor não mais do que um projeto que segue bom caminho.
Difícil
de aceitar é este Fluminense obrigado a jogar em Los Larios. A existência de um
núcleo da polícia especializado em futebol, o Gepe, torna razoável imaginar uma
atitude proativa. Desde novembro, há uma semifinal marcada para o carnaval. Mas
foi somente na semana do jogo que a polícia vetou não o clássico, mas um
Fluminense x Madureira. Assim como seria razoável que, ao voltarem a marcar um
jogo para o período de carnaval após quatro anos, clubes e federação tivessem
se antecipado e dialogado com as autoridades. O bom-senso não é o forte do
futebol carioca.

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