Torcida única é o muro do Trump no futebol carioca e paulista.

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Polícia fazendo segurança da torcida do Flamengo em São Januário – Foto: Alexandre Loureiro/Inovafoto/Gazeta Press

RODRIGO
MATTOS
: Minha primeira recordação de um jogo de futebol no estádio é de ir às
cadeiras do Maracanã com setor misto na final do Estadual de 1986. Flamengo e
Vasco decidiam o título, e o meu pai vascaíno levou a mim e a minha irmã, ambos
rubro-negros, à decisão. Saímos festejando e ele quieto após os gols de Bebeto
e Júlio César.

Essa é
uma das melhores lembranças que tenho do meu pai, hoje já falecido. Sem gostar
muito de futebol, com temperamento difícil e com especial antipatia pelo
Flamengo, deu uma demonstração de tolerância ao nos levar ao jogo. Meu pai e
seu amigo vascaíno nos carregaram nos ombros ao final do jogo.
As
imagens daquela tarde voltaram à minha cabeça quando a Justiça do Rio decretou
a torcida única para os clássicos no Rio de Janeiro. Não é só o prazer da
arquibancada que se perde com isso. A torcida única pressupõe que somos todos
inimigos incapazes de conviver com o diferente. Ao se isolar torcedores de
equipes rivais, os torcedores vão se tornar cada vez mais radicais e mais
afastados uns dos outros.
É só
ver que medidas históricas na política para separar pessoas, como o muro
proposto por Donald Trump para conter imigrantes, só tendem a aumentar a
distância e a raiva entre as pessoas. Se você não convive com o outro, nunca
vai entender o ponto de vista dele, sua identidade. Se há a possibilidade de
aproximação, há a chance de compreensão.
A tese
do promotor Rodrigo Terra aceita pelo juiz é de que essa é uma medida que vai
reduzir a violência, após os atos de barbárie do último Botafogo e Flamengo.
Primeiro, é preciso lembramos que neste clássico houve uma falha da polícia
militar cujos soldados não foram para o estádio como estava nos planos. Foram
contidos por protestos de familiares. Os certos torcedores organizados são tão
violentos hoje quanto nos últimos anos: só estavam livres para agir.
E o
argumento da redução da violência se torna quase nulo quando constatamos que a
maioria das mortes de torcedores em conflitos de organizadas se dá longe dos
estádios. Basta lembrar do torcedor do Fluminense, que não era de organizada e
apenas gostava de seu time, agredido perto do Maracanã neste ano quando voltava
de um jogo em Xerém. No máximo, vai se reduzir a tensão em volta dos estádios
porque tem ocorrido, sim, brigas dentro e fora deles.
Uma
decisão importante como essa que afeta mais de 100 anos de tradição de festas
compartilhadas no Rio foi tomada sem que se ouvisse a sociedade. Um promotor e
um juiz definiram a ”solução” sem um levantamento dos seus efeitos, sem
consultas públicas na assembleia estadual, sem nada.
Esse
tipo de medida arbitrária tornou-se uma tônica no Rio dos últimos tempos.
Tivemos de pagar caro para organizar dois megaeventos (Copa do Mundo e
Olimpíada) sem nenhuma consulta popular. O Maracanã, um símbolos da cidade, foi
transformado pelo padrão Fifa também por decisão solitária do então governador
Sergio Cabral. E, agora, nos tiram a festa como ocorrera em São Paulo.
Como
sempre, o argumento é de que se trata de um mal necessário para nosso bem. Mas
o que vejo é que a polícia terá seu trabalho facilitado, o promotor vai poder
dizer que ”resolveu” o problema e o torcedor perde o seu direito. Será
impossível se repetir uma cena como essa do meu pai me levando para o estádio
para ver um jogo dos nossos times.
Em
1987, o Flamengo voltou a enfrentar o Vasco na final do Estadual. O time
cruzmaltino venceu com belo gol de Tita após passe de Dinamite. Eu estava lá
novamente com meu pai e sai triste do estádio, e ele com um sorriso discreto na
boca para não me chatear. Fomos embora juntos eu, ele e minha irmã.
Foi
uma lição: me ajudou a aprender a perder e a entender o outro, também inspirou
em mim um respeito que guardo até hoje pelo Vasco, por sua história, por sua
torcida, por seus times, e pelo meu pai. Se não for capaz de despertar esse
tipo de sentimento em torcedores adversários, o futebol torna-se cada vez mais
um instrumento para alimentar o ódio e perde boa parte do seu sentido.

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