Violência continua afastando torcedores dos estádios.

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Policiais em jogo do Flamengo – Foto: Alexandre Loureiro

OLHAR
CRÔNICO ESPORTIVO
: Há somente 26 dias, em 19 de janeiro, o título do post deste
OCE era “O falso charme da violência e a perpetuação do medo nas
arquibancadas”… É bem verdade que a modernidade linguística acabou com as
arquibancadas (até melhorada nas novas arenas, outra modernidade para
substituir estádio, mas, no geral, arquibancada continua sendo o que sempre
foi: arquibancada, chique ou não), mas não há modernidade que acabe com a violência
e com o medo que ela gera.

Naquele
post, o falso charme da violência ficava por conta da apresentação do jogador
Felipe Melo no Palmeiras e a perpetuação da violência ficava por conta dos
convites & salamaleques com que os presidentes dos dois clubes de maiores
torcidas do Brasil brindaram “organizados” em reuniões que chegaram ao cúmulo
de contar com a participação de jogadores!
Hoje,
26 dias depois, volto ao tema, infelizmente. O tema é a violência e o
afastamento dos torcedores dos estádios.
Se
você ainda não viu ou não tem uma boa noção do que aconteceu domingo no entorno
do Engenhão, agora, oficialmente, Estádio Nilton Santos (homenagem mais do que
justa), assista à matéria a respeito da edição de ontem do Jornal Nacional –
aqui.
Reparem,
por favor, nos depoimentos do torcedor, acompanhado por um garoto, e de outro
torcedor, tendo ao lado uma moça. Este último, por sinal, é sócio-torcedor do
Botafogo e está indo embora.
Desistiu
de assistir ao jogo.
Foram
vendidos 24.000 ingressos e somente 22.000 pessoas passaram pelas catracas.
Sintomático, não?
Peço,
também, a leitura de mais uma matéria do portal Globoesporte sobre os
acontecimentos no entorno do Engenhão (aqui).
Uma
pessoa foi assassinada, duas permaneciam internadas e cinco foram atendidas e
liberadas.
Pelos
números de ingressos vendidos e ingressos recolhidos na entrada, não é
exagerado ou errado dizer que duas mil pessoas desistiram do jogo em função da
violência e do terror que cercou o estádio. Quase 10% do total vendido, de
resto um número irrisório para um Botafogo x Flamengo, mesmo que numa fase
inicial do estadual.
A
violência atingiu também os moradores e os comerciantes da região, que nada
tinham a ver com o jogo, exceto estarem próximos ao estádio. Na manhã de ontem,
segunda-feira, parte do comércio sequer abriu as portas, como mostra a matéria
linkada.
Fechando
esse cenário: ontem à noite, no programa “Bem, Amigos”, o volante rubro-negro
Willian Arão falou a respeito dos acontecimentos de domingo:
“É
inadmissível. Fico revoltado com um fato desse. Partindo do lado do jogador,
vou para o estádio e falo para minha esposa não ir, porque não sei como você
vai chegar no estádio. Não sei se no decorrer, vai com a minha camisa, e vai
encontrar um grupo de torcedores de outra torcida. O que vai acontecer com
você? A gente joga e não sabe o que está acontecendo lá fora com nossos
familiares, esposa. Com quem tem filho, fico imaginando. Como o cara entra em
campo com o filho indo para o estádio? É inadmissível. Enquanto não tiver uma
punição drástica para combater esse tipo de atitude, isso vai continuar.”
O
jogador posicionou-se exatamente como a maioria dos torcedores brasileiros
hoje.
Enquanto
isso, em São Paulo um bando de “organizados” ganhou vida nova e enorme destaque
na mídia. Uma candidata à conselheira da Sociedade Esportiva Palmeiras, e
eleita com votação recorde, foi “apoiada” pela organização, que teve sua escola
de samba contratada para participar de festa da candidatura.
A nova
conselheira é a dona da principal patrocinadora do clube, relação que acredito
não mais ser de patrocínio, o que me leva ao uso de aspas doravante:
“patrocínio”.
Não
bastasse, o novo reforço do time chegou e foi apresentado com toda a “pompa
& circunstância”, mas, curiosamente, não vestia a camisa do time do clube
que o contratou… Vestia a camisa do mesmo grupo de “organizados”.
Aqui
no Brasil é grande a quantidade de pessoas que adoram o estádio do Borussia
Dortmund, basicamente por ter uma ala onde os torcedores ficam em pé e gritando
o jogo inteiro. É a “muralha amarela”. Em jogos da UEFA, porém, a capacidade do
setor cai para menos da metade.

vários meses a “muralha” está no radar das autoridades em função de problemas
criados por seus frequentadores. No próximo jogo do Borussia, por sinal, o
setor inteiro estará fechado, por determinação da federação alemã, em função de
atos de violência e protestos fora do estádio e no setor da “muralha”, no jogo
contra o Leipzig dia 4 último.
Infelizmente,
violência e futebol continuam caminhando juntos em boa parte do mundo,
principalmente, é claro, onde as autoridades esportivas deixam tudo correr
solto.
A
resposta, em especial no caso brasileiro, é o afastamento das pessoas dos
campos de futebol.
Ontem,
por mera curiosidade e passatempo, fiz umas continhas simples sobre a presença
brasileira nos campos.
A ida
do torcedor brasileiro ao estádio caiu a menos da metade do que era nos anos 70
do século passado

População média do Brasil entre 1971 e 1975 – 96,8 milhões de habitantes.

População média do Brasil entre 2012 e 2016 – 202,7 milhões.

Crescimento da população no período: 109,4%.

Público médio do Campeonato Brasileiro de 1971 a 1975: 16.000 torcedores

Público médio do Campeonato Brasileiro de 2012 a 2016: 15.400 torcedores

Crescimento do público médio: -3,75%.
Durante
esse período de 46 anos os estádios diminuíram sua capacidade de lotação? Sim,
felizmente.
Essa
medida afetou o comparecimento do brasileiro ao estádio? Quanto?
Nada
afetou, influência zero.
Porque
os estádios já eram muito maiores que os públicos médios que recebiam e as
míticas (cantadas em prosa & verso) e gigantescas lotações, eram raras em
relação aos jogos de uma temporada. Mesmo assim, mesmo com aqueles públicos
gigantescos, que ficavam em condições quase animalescas dentro dos estádios, a
média já era baixa, o mesmo ocorrendo com o índice de ocupação de assentos.
0,00017%
0,000075%
Os
números acima são os percentuais relacionando o público médio às populações
médias do Brasil nos dois períodos considerados: 1971 a 1975 e 2012 a 2016.
Eles
mostram, simplesmente, que a lotação média do campeonato Brasileiro hoje é
inferior à metade da que existiu no seu início.
32.837
Esse
seria o número médio de torcedores por jogo do Campeonato Brasileiro hoje, se
tivéssemos a mesma proporção de ida ao estádio dos primeiros anos da década de
70 do século passado.
Agora,
para fechar e refletir:
A
Evolução da Taxa de Homicídios entre 1980 e 2014 foi de 159,8%. O número de
homicídios por 100.000 habitantes pulou de 11,2 em 1980 para 29,1 em 2014.
Esse é
um número geral, mas excelente e triste demonstrativo do que vem ocorrendo no
Brasil.
O
futebol brasileiro não escapa dessa realidade, pelo contrário até, pois ele
mesmo tem dado a sua contribuição, como vimos na tarde desse último domingo.
Violência
não é folclore.
Violência
é só violência, mesmo, e ela afeta a todos nós.
Sem
graça, sem charme, sem oba-oba. Só tristeza e dor.

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