Análise tática: Um Flamengo que usa demais a cabeça.

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CHUTE CRUZADO: Por  Pedro Henrique Torre
Ao fim
da partida entre Flamengo e Bangu, as estatísticas do site Foostats apontavam:
foram 57 cruzamentos do time rubro-negro no jogo, com apenas nove corretos. No
placar, 3 a 0 no estádio Raulino de Oliveira, em Volta Redonda. No bolso,
vitória garantida. Na cabeça de Zé Ricardo, talvez muito a se pensar. Apesar da
classificação antecipada para as semifinais do Campeonato Carioca com a melhor
campanha, o Flamengo se viu refém de bolas alçadas na área para superar um
adversário que formava um ferrolho e lhe dava a bola. Problema que parecia ter
diminuído, mas que retoma cada vez com mais força.
Para
vencer o frágil Bangu, bastou. Até mesmo a postura do time de Roberto Fernandes
indicava consciência da própria fragilidade mesmo diante de um Flamengo
desfalcado, com Guerrero, Trauco e Diego nas seleções de Peru e Brasil. Um
Bangu com ferrolho, 3-6-1, apenas Loco Abreu na frente.
Era
como se dissesse. “Tome a bola, Flamengo. Gire com ela. Mas fora da área.” O
time de Zé Ricardo tentou praticar o futebol de troca de passes no início.
4-2-3-1 de sempre, Mancuello de volta ao lado, Paquetá pelo meio, Vizeu na
frente. E entre os volantes, Rômulo barrado, Márcio Araújo de volta. O domínio,
como era de se esperar, foi amplo diante de tanto espaço. O problema, também.

Fla iniciou a partida no 4-2-3-1 – Foto: Divulgação
Muito
superior tecnicamente, o Flamengo girava a bola. Márcio Araújo, inclusive,
praticamente não errava passes. Para lá, para cá. Direita, esquerda. E a
paciência rubro-negra acabou cedo. Chute de fora da área, de Mancuello. Bolas
alçadas. Uma, duas, três…rapidamente, o time desistiu do estilo de bola no chão
e recorreu aos cruzamentos, como nos momentos de dificuldade na reta final do
Campeonato Brasileiro de 2016. Nada de infiltrações, dribles, triangulações.
Bola
no canto e jogada na área. Márcio, goleiro do Bangu, trabalhou bem algumas
vezes. Em outras, torceu. Réver mandava por cima, Vizeu lamentava. Paquetá
buscava jogo. E o primeiro tempo fechou com 70% de posse de bola rubro-negra.
Muita superioridade técnica, nenhuma no placar, zerado.
No
segundo tempo era de se esperar mais bola ao chão do Flamengo. Um time que
parecia caminhar para o amadurecer do jogo no início da temporada e de repente
voltou a flertar com as bolas alçadas. Mas o namoro ficou sério. Com um minuto
de jogo, quem quase marcou foi o Bangu, mas Bruno Luiz furou bola incrível na
frente do gol após passe de cabeça de Loco Abreu. Foi praticamente o único vacilo
rubro-negro na defesa.
Diante
de um adversário mais qualificado, como foi a Universidad Católica na
Libertadores, poderia ter sido fatal. O Bangu, no entanto, não era páreo.
Rapidamente se encolheu de novo em seu campo e chamou o Flamengo a repetir a
balada do primeiro tempo. Troca de passes, área bem protegida, bola alçada. Com
dez minutos, Zé Ricardo parecia determinado a mudar o panorama. Que nada.
Intensificou as tentativas pelo alto.
Paquetá
e Mancuello deixaram o campo para as entradas de Leandro Damião e Berrío. O
Flamengo entrava em uma espécie de 4-3-3, com Everton saindo do lado e caindo
mais ao meio e Berrío tentando usar a velocidade ao lado dos centroavantes. Mas
em qual espaço? As bolas, rapidamente, voaram para a área de novo, em busca de
uma cabeçada de salvadora de Vizeu ou Leandro Damião.

Fla no segundo tempo: dois centroavantes – Foto: Divulgação
Márcio
trabalhou bem em jogadas de Damião e Berrío na grande área. O Flamengo chegava
como sempre. Mas falhava na conclusão, ficava nervoso, se entregava ao abafa
pelo abafa. Faltava cabeça. Quem teve, então, foi Renê. Esperto, o lateral
decidiu resolver a parada de fora da área. Aos 27 minutos, arriscou um petardo
pelo lado esquerdo. Talvez acostumado aos cruzamentos, o goleiro Márcio se
assustou e não chegou. Bola na rede. 1 a 0.
Com a
partida na reta final, o Bangu se entregou. Era, claramente, pior. Mas o
Flamengo parecia determinado a vencer pelo alto. E conseguiu, em um cruzamento
de Pará pela direita para Damião, que se antecipou ao goleiro. Eram 55
cruzamentos até então. Aquele era apenas o nono certo. 2 a 0. Mais calmo e com
o adversário mais aberto, o time trabalhou pelo chão.
Renê
para Everton pela esquerda, que rolou mansinho para Matheus Sávio bater
rasteiro no contrapé de Márcio. 3 a 0. Vitória garantida, vaga na mão e um
problema sobre pé ou cabeça para Zé Ricardo levar para a Libertadores e para os
momentos finais do Campeonato Carioca. Contra o Bangu, deu certo. Diante de
adversários mais qualificados, o jogo será mais exigido. Só pelo alto é muito
pouco.

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