Aprendiz de Eurico.

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Carlos Eduardo Pereira, atual Presidente do Botafogo – Foto: Vitor Silva / SSPress

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Jorge Murtinho

O
homem que aparece aí na foto, fazendo com as duas mãos o gesto-símbolo do nosso
humilde blog, é Carlos Eduardo Pereira.
Ele
assumiu a presidência do Botafogo no início de 2015, no vácuo da desastrada
gestão de Maurício Assumpção, que fechara seu esquecível ciclo administrativo
colaborando decisivamente com a queda do clube para a série B.
Presidido
por Carlos Eduardo Pereira, o Botafogo nadou de braçada na segunda divisão e
surpreendeu cem por cento dos torcedores e comentaristas em 2016 – quando todos
esperavam um tremendo sufoco para não cair novamente, pegou até vaga na
pré-Libertadores –, mas o manda-chuva do clube tem escorregado feio nas
questões regionais.
Já no
começo de seu mandato, talvez vislumbrando possíveis benesses da nossa
federação, pôs-se contra a dupla Fla-Flu e escancarou um indecoroso namoro com
Eurico Miranda. Tudo o que conseguiu foi um bivice, perdendo as finais dos
estaduais de 2015 e 2016 – como qualquer criança seria capaz de prever – para o
Vasco. Claro: em matéria de arranjos e armações, é difícil encarar Eurico e
seus acólitos da Ferj. O problema é que, como demonstram os três anos seguidos
de rebaixamentos – Vasco em 2013, Botafogo em 2014, Vasco em 2015 – os conluios
e conchavos não atravessam as divisas do estado do Rio.
Para
não passar por injusto ou leviano, repito: Carlos Eduardo Pereira não tem nada
a ver com o triste e terrível ano de 2014 do Botafogo. Pelo contrário: se está
a léguas de distância dos gloriosos tempos de Garricha, Didi e Nilton Santos ou
de Gérson, Paulo Cézar e Jairzinho, o futebol botafoguense sob sua gestão vai
bem melhor do que era de se esperar. Mas há um ingrediente um tanto doentio a
embrulhar ainda mais a receita do já indigesto futebol carioca.
Eurico
Miranda não esconde de ninguém, e faz questão de reforçar sempre que o assunto
surge, que seu grande mérito como dirigente esportivo foi o de transformar o
Vasco no maior rival do Flamengo. (Abordei o tema em um dos meus primeiros
textos aqui no RP&A, o post “A peleja do diabo com o dono do céu”,
publicado em 2 de fevereiro de 2015. Só que está mais do que na hora da gente
parar de bater palmas pra maluco dançar, e entender que os maiores rivais do
Flamengo, hoje, são os clubes que disputam os grandes títulos nacionais.) No
entanto, a estratégia de Eurico virou enfermidade crônica, a ponto dele exigir
dos seus jogadores, apenas e exclusivamente, sucesso nos confrontos diretos com
o rubro-negro. Fora isso, tome segundona. Tome humilhação. A pessoa é para o
que nasce.
Mesmo
na corda bamba representada pela falta de equilíbrio entre o que o clube deve e
a capacidade que tem para arrecadar, Carlos Eduardo Pereira vem tocando sua
gestão com disciplina, critério e paciência, obtendo resultados que vão além do
que seria justo cobrar. Mas seu comportamento como aliado de Eurico é
constrangedor, e a obsessão quanto ao Flamengo – ao que tudo indica iniciada
com a transferência de Willian Arão, algo mais do que natural diante do padrão
de mercado que há tempos tomou conta do mundo da bola – periga estragar tudo o
que faz de bom. Para um esporte que se pretende cada vez mais profissional e
lucrativo, são inaceitáveis as picuinhas de Carlos Eduardo Pereira sobre o uso
do Engenhão e lamentável sua posição no que se refere à ideia de torcida única.
Nos
meus tempos de faculdade, a estudantada tinha um método simples para se colocar
diante de quaisquer propostas econômicas: bastava ver de que lado estava o
Delfim Netto, e tomar a direção contrária. Parece que Carlos Eduardo Pereira
faz exatamente isso em relação ao Flamengo, o que é uma pena. O futebol carioca
dispensa a presença de outro Eurico Miranda.

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