Barriga: definitivamente um algoz do Flamengo.

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Foto: Divulgação

ESPN
FC
: Por Marcos Almeida

Se tem
uma coisa legal em semana de Flamengo e Vasco é que, inevitavelmente, o ser
humano brasileiro irá se deparar com os gols de Rondinelli e Petkovic. É
verdade que o de Cocada, por exemplo, também vem no pacote, mas a gente nem
liga. Coisa pequena perto do tiro de cabeça e da cobrança angelical. Farão 40,
50, 100, 1.000 anos desses gols, e toda vez que um rubro-negro vi-los, vai
sorrir. Silenciosa e timidamente, por dentro comemorará.
Em
semana de Fla-Flu acontece o inverso. Podem vir com Zico, Leandro, Cássio,
Adriano, Bottinelli… Infelizmente, o lance que mexerá com o torcedor será o
de Renato Gaúcho. Até hoje nos lamentamos por aquele desvio. Desde 1995, a
barriga é inimiga do Flamengo.
Quase
22 anos depois, um indício de que as coisas poderiam mudar. O jogo era Flamengo
e Vasco, em Brasília, porém pelo Campeonato Carioca. A eles, valia bastante; a
nós, não. Focado na Libertadores, o Mengão já está na semifinal do estadual e
com a vantagem do empate. Mais uma das duzentas partidas entre a Universidad
Católica e o Atlético-PR. Prova de que pouco nos importávamos é Réver. Sério
nesse 2017, ele voltara a andar com o rei na barriga. Num lance de soberba,
perdeu para Luís Fabiano. Gol do Vasco. Gol do Vasco sobre o Flamengo.
Opa,
pera aí! O jogo era Flamengo e Vasco. Flamengo e Vasco vale sempre! Então
acordamos pra vida e nos enchemos de apetite de vencer o rival. Foi-se a luz,
voltou-se a luz, e com ela a dor de barriga: Leandro Damião era o nosso
centroavante. De embrulhar o estômago saber que seu reserva, Felipe Vizeu,
também carece de intimidade com a bola. Guerrero faz falta, Diego faz muita
falta. Desfalcado deles e de Trauco, o Mengão não conseguia ser incisivo, mas
teve a chance de ouro de levar o empate para o vestiário. Pará não quis ser fominha
e pôs à prova o poder de decisão de Leandro Damião…
Com o
futebol de Willian Arão e Pará acima do que vêm apresentando, o Flamengo voltou
melhor para o segundo tempo. E, logo aos 8 minutos, ela entrou em ação. Luís
Fabiano escorregou, deu uma entrada por trás em Márcio Araújo, recebeu justo
cartão amarelo e ficou bravo; foi para cima do juiz. Inovou, deu uma barrigada
em Luís Antônio Silva Santos. Peitada de umbigo do atacante sobre o árbitro,
que, aparentemente, simulou ter sofrido uma cabeçada. Quem não é rubro-negro
nem vascaíno deve ter ficado com dor de barriga de tanto rir da cena. Teatro à
parte, expulsão merecida.
A
barriga de Luís Fabiano passou a ser o grande trunfo do Flamengo. Com um a
mais, o time decolou. Foi para cima, criou, teve um gol bem anulado e logo
virou o placar. Tivemos o lado do campo forte como há tempos não tínhamos. Bom
ver o Mengo sabendo aproveitar a vantagem numérica, ruim constatar que precisou
dela pra começar a jogar bola.
Berrío
marcou o segundo gol com o Manto Sagrado, no mesmo palco do primeiro. Segue uma
incógnita. Faz bom uso da velocidade e da força física, abusa dela para cometer
faltas infantis. Com a bola nos pés, lembra um tanto Obina. Alterna bons e
péssimos momentos, como no gol de Trauco contra o San Lorenzo e nas
tragicômicas pedaladas que resolveu dar no bico da área, no primeiro tempo
daquele jogo. Tem o sangue quente que já prejudicou contra a Universidad
Católica, mas que pode ajudar no futuro. É impressionante a quantidade de
sul-americanos “pecho frios” que têm passado pela Gávea ultimamente.
Quem
não é mais incógnita é Marcelo Cirino. Voltou a ter uma chance no time e, em
poucos minutos, cometeu duas faltas inaceitáveis. Corretamente, professor Índio
apitou ambas. Só que o jogo chegava perto do fim e ele não seria o destaque. No
máximo, responsável pela cena de comédia, porém coadjuvante no filme da
expulsão de Luís Fabiano. Acertou no cartão vermelho, igualmente na anulação do
gol de Réver. Índio iria pra casa com a razão.
Não
condiz com o que estamos acostumados, e isso vai além do compreensível. Índio
precisava aparecer, restava recorrer a ela. A barriga, grande responsável pela
reviravolta rubro-negra na partida, tornou a aparecer. Agora sim do jeito que a
gente conhece: prejudicando o Flamengo. A bola de Nenê acertou estômago,
pâncreas, duodeno, intestino e o escambau de Renê. Não para o cacique, nem para
o curumim. Pênalti para o Vaso, já nos acréscimos, e com Alex Muralha no gol, só
se a cobrança batesse na trave ou fosse pra fora. 2 a 2, placar final.
Era
para termos vencido por causa da barriga de Luís Fabiano, não vencemos por
causa da barriga de Renê. Um empate num clássico que serve para forrar o
estômago. Não digerimos até agora a derrota na Libertadores e a única maneira
de soltar o intestino vai ser vencendo o Atlético-PR no dia 12 de abril (não dá
pra chamar de “próximo dia 12” uma data menos próxima que o Natal).
Não
houve evolução do Flamengo no clássico desse domingo. No 11×11, continuávamos
sendo o time do chutão e das poucas chances criadas. A estagnação preocupa para
a Libertadores, mas é de se entender a falta de tesão dos jogadores. É a mesma
que a gente sente. Campeonato fraco, times horrorosos, regulamento pior ainda.
Uma alternativa seria testar algumas mudanças radicais, porém coerentes, nas
partidas que nos restam: Donatti/Léo Duarte titular, Mancuello volante, Pará e
Rodinei juntos pela direita… Ademais, é sobreviver às longas horas que nos
separam do dia 12 e tratar o Campeonato Carioca como Luís Fabiano fez com o
professor Índio: empurrando com a barriga.

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