Cosme Rimoli diz que Flamengo só quis torcida mista por dinheiro.

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Pedro Abad, Presidente do Fluminense, e Eduardo Bandeira de Mello, Presidente do Flamengo – Foto: Divulgação

COSME
RIMOLI
: Flamengo e Fluminense terão seus torcedores no Engenhão.

A
decisão da Taça Guanabara foi uma demonstração de força política, pressão,
manipulação da opinião pública, irracionalidade, saudosismo, amor ao dinheiro,
negação da realidade.
Eduardo
Bandeira de Mello e Pedro Abad conseguiram.
Transformaram
o Rio de Janeiro na capital contra a torcida única.
Chegaram
até a ameaçar jogar de portões fechados.
Os
veículos de comunicação se revoltaram.
Se
uniram em torno das torcidas rivais nos clássicos.
Agiram
em nome da tradição, da festa, da alegria.
“Sempre
fui criado no Maracanã, morava perto, assistia a todos os jogos do Flamengo.
Sempre com torcida mista. Sempre fui ao estádio com meus amigos tricolores,
vascaínos, botafoguenses e nunca brigamos. A tradição de torcida mista deve ser
preservada, faz parte da nossa cultura.
“O
desembargador reconheceu isso para a nossa alegria. Isso nos dá
responsabilidade. Temos de manter e ampliar a campanha pela paz nos estádios.
Nós merecemos a torcida mista. Quero agradecer a postura do Fluminense, do
presidente Abad. Ele foi firme, teve coerência ímpar.
“Ele
poderia ter tido uma decisão após ter vencido o sorteio do mando, mas esteve ao
nosso lado. O Flamengo fez o mesmo contra o Vasco, pois o mando era nosso. O
presidente Eurico está conosco nessa campanha pela paz.”
O discurso
foi do presidente do Flamengo.
Mas
Eduardo Bandeira não tocou no fator realmente motivador no enfrentamento dos
clubes diante da torcida única.
Dinheiro.
A
média de público do Carioca de 2017 é assustadora.
2.280
pagantes.
A
alegação é que o Maracanã não foi usado.
Mas o
torneio de 2016 teve média de 3.702 pessoas.
O de
2015, chegou a 4.074 torcedores.
Isso
com torcidas mistas.
Os
estaduais no Brasil são desastrosos.
Insignificantes.
Perderam
a razão de ser.
Atrapalham
o calendário dos grandes clubes.
Os
dirigentes sabem mas se dobram.
Não
têm coragem de enfrentar os maiores defensores da competição.
A CBF
e a Globo.
Daí
fingirem não enxergar a realidade.
Apenas
tentam tirar o máximo proveito dessa competição falida.
Daí
ressuscitar textos de Nelson Rodrigues, lembrar da infância do sexagenário
Eduardo Bandeira de Mello, citar a charanga do Flamengo, que fazia a farra na
década de 40. Não olvidar do pó de arroz que a torcida do Fluminense espalhava
nas arquibancadas de madeira, quando seu time fazia um gol, na década de 10, do
século passado.
Infelizmente
esse tempo passou.
A
maior prova do fim da inocência é um espeto de churrasco.
Foi
com ele que foi morto Diego Silva dos Santos, na entrada do Engenhão.
“É
uma decisão judicial (a liberação de duas torcidas na decisão da Taça
Guanabara), não há o que fazer. Só acho que antes de a Justiça tomar esse tipo
de decisão, ela tinha que dar uma resposta à sociedade. Ninguém falou sobre os
assassinos do dia 12 de fevereiro. O torcedor do Botafogo foi assassinado com
um espeto de churrasco, ninguém foi preso, ninguém está respondendo a nada. E
as pessoas estão tratando isso como uma coisa menor, sem importância. Para nós,
não é. Os mesmos assassinos do dia 12 poderão ir ao jogo no domingo”,
resumiu o presidente do Botafogo, Carlos Eduardo Pereira.
Ele
cita o assassinato do botafoguense Diego antes do clássico contra o Flamengo,
no dia 12 de fevereiro, na entrada do Engenhão. Até agora ninguém foi acusado
pela morte do torcedor. As investigações não deram em nada.
O
comportamento dos torcedores mudou desde que Eduardo Bandeira de Mello era um
garoto. 50 anos fazem muita diferença. O mundo se tornou muito mais violento. A
insegurança domina o país. As organizadas dominam o futebol deste país. A falta
de controle facilita o acesso de vândalos, facções criminosas. Estimuladas pela
impunidade, as brigas são para matar.
Não há
nada de romantismo.
O
abraço do presidente do Flamengo e do Fluminense não representa nada. Não será
por eles que quem estiver disposto à violência amanhã no Engenhão, vai recuar.
De jeito algum. Acreditar e divulgar isso é mera hipocrisia.
Se
fosse assim, os dirigentes não ficariam revoltados com a condição para que o
clássico tivesse torcida única amanhã e no restante do Carioca. O Ministério
Público quer impor um Termo de Ajustamento de Conduta.
Ou
seja, multa de R$ 3 milhões ao clube que tiver seus torcedores envolvidos em
brigas.
O que
é na verdade uma mera compensação.
O
governo não tem competência para evitar conflitos.
E
passa a responsabilidade da falência da segurança pública aos clubes.
Eduardo
Bandeira de Mello, Pedro Abad, Eurico Miranda e Carlos Eduardo Pereira sabem.
Não têm o menor controle sobre suas torcidas organizadas. Por isso não podem se
comprometer a pagar R$ 3 milhões cada vez que elas resolverem brigar.
Ou
seja, não acreditam na própria campanha pela paz.
Seria
fácil e hipócrita defender no blog torcidas mistas.
Mas as
mortes, as brigas, o ódio entre as organizadas não deixam.
São
Paulo, a cidade mais rica da América do Sul, desistiu.
E
impôs torcida única nos clássicos.
Foi
uma exigência da Secretaria de Segurança Pública.
Ou
seja.
O
reconhecimento que não poderia cuidar de torcedores rivais.
Desde
2009 imperava 10% apenas de ingressos ao clube visitante.
O que
dava um trabalho imenso aos policiais.
Já que
apenas torcidas organizadas ficavam com ingressos dos visitantes.
Isso
acabou em 2016.
São
Paulo virou às costas à tradição de Palmeiras e Corinthians. Santos e São
Paulo. São Paulo e Palmeiras. Corinthians e São Paulo. Palmeiras e Santos.
Santos e Corinthians. Finais foram disputadas com torcida única.
O
clássico de hoje no Itaquerão só terá corintianos.
Santistas
são proibidos.
Os incidentes
diminuíram drasticamente nos clássicos.
O Rio
de Janeiro hoje festeja.
Esquece
os mortos em conflitos de suas organizadas.
Age de
maneira alienada, finge que tudo está bem.
Pisa
no estatuto do torcedor para vender ingressos para o Fla-Flu.
Jornalistas
festejam a vitória da festa.
A
Globo terá um cenário mais animador para a decisão.
A
Federação Carioca vibrará com o estádio cheio.
E se
esquecerá dos estádios vazios no jogos dos pequenos.
Também
ninguém se interessa quando os grandes enfrentam os pequenos.
A
média de 2.280 pessoas leva em consideração também os clássicos.
O
Fla-Flu de amanhã tem tudo para ser festivo.
Dirigentes
e jornalistas festejam.
A
tradição venceu.
Mas a
vitória é de Pirro.
A
violência, a insegurança e a impunidade estão nas ruas cariocas.
Como
nas do Brasil inteiro.
E nas
cercanias dos estádios, ônibus, metrô, trens.
Que
Bandeira de Mello e Abad assumam sua responsabilidade.
O
saudosismo, a gana por dinheiro não podem disfarçar.
A
segurança pública deste país está falida.
O
Brasil hoje não comporta clássicos de torcidas mistas.
Infelizmente.
E o
tempo vai provar…

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