Discursos para quem precisa de discursos.

10
Foto: Reprodução

REPÚBLICA
PAZ E AMOR
: Lacrou nas redes sociais o discurso de Zé Ricardo após a vitória
sobre o Vasco, na semifinal da Taça Guanabara. Fala em voos altos do urubu, reforça
que todos são igualmente importantes (mais ou menos, né?) e pede união não
apenas nas vitórias, mas sobretudo na derrota que mais cedo ou mais tarde há de
vir.

É um
discurso bacana. E toca fundo, especialmente, o coração de quem se emociona até
com imagens do Diego soprando as trinta e duas velinhas do seu bolo de
aniversário. Mas convém aquietar a periquita.
Sobre
discursos motivacionais, tenho cá minhas restrições.
Obteve
um gigantesco número de views, likes e compartilhamentos um discurso do então
capitão Rogério Ceni aos demais jogadores do São Paulo, segundos antes do time
entrar em campo para enfrentar o Atlético Mineiro, na última rodada da fase de
grupos da Libertadores de 2013. O Atlético estava classificado, o São Paulo
precisava vencer para ir adiante. O Atlético jogou como quem treinava, ao São
Paulo não restava alternativa senão dar o sangue. A vitória por dois a zero
permitiu ao São Paulo sobreviver na competição, o que serviu de senha para
Rogério Ceni ser saudado como uma espécie de Henrique V do Morumbi, tendo suas
palavras equiparadas às do shakespeareano discurso do rei britânico antes da
batalha de Azincourt.
Próxima
cena: um dos duelos das oitavas de final daquela mesma Libertadores foi – ora,
ora – Atlético Mineiro e São Paulo, e o Atlético atropelou: dois a um no
Morumbi, quatro a um no Independência. Curioso é que, nos dias seguintes às
duas derrotas, não havia discurso algum de Rogério Ceni nas redes sociais. Vai
ver, foi isso.
Após a
conquista da Copa do Mundo de 2010 pela seleção espanhola, Ronaldo Fenômeno
declarou no programa “Central da Copa” que o treinador Vicente del Bosque, que
o dirigira no Real Madrid, era um figuraço. Segundo Ronaldo, não havia nada
mais prosaico do que as preleções – se é que assim podem ser chamadas – de del
Bosque antes das partidas. Com todos prontos para subir ao gramado, em vez de
falar de garra, de guerra, de glória ou do dia de São Crispim, o treinador
perguntava a cada um como estava se sentindo. Tudo bem? Tudo sob controle?
Então vamos pro jogo, vamos fazer o que vocês sabem e o que nós treinamos.
Outro
bom depoimento aconteceu na entrevista de Leonardo a Renato Maurício Prado,
logo após o esculacho que levamos da Alemanha na última Copa. Nosso lateral
campeão brasileiro em 87 garantiu que, salvo uma ou outra exceção, jogadores e
treinadores dos clubes europeus não dão a mínima para discursos motivacionais.
Jogadores querem saber quais serão suas funções em campo, treinadores procuram
assegurar que todos estão cientes do que é para ser feito.
Somos
diferentes, bem sei. É bastante possível que, se antes de uma partida decisiva
não houver palestra motivacional, o time entenda a ausência das poderosas
palavras como falta de confiança. E se o próprio técnico não acredita, quem vai
acreditar?
Por
falar em crenças e treinadores: tido como um dos melhores técnicos do nosso
futebol, Cuca foi campeão brasileiro e da Libertadores enchendo de beijos sua
medalhinha de Nossa Senhora de Aparecida. Com o mesmo fervor, embora
encaminhado a outra destinatária, Felipão pagou promessa para Nossa Senhora de
Caravaggio depois do título na Copa de 2002. Entretanto, os sete a um de 2014
nos permitem deduzir que nem ela suportou tanto atraso e teimosia. Prefiro
ficar com a sabedoria e o humor de Neném Prancha e João Saldanha: se macumba
ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava sempre empatado.
Habituar-se
a discursos motivacionais não chega a ser um problema. Superestimá-los, sim. Zé
Ricardo deve ser elogiado ou criticado pela eficiência ou a fragilidade dos treinos
que promove, pelas escolhas certas ou erradas nas escalações que manda a campo,
pelos acertos ou equívocos nas substituições que ordena, pelas variações
táticas que monta ou deixa de montar, pelos bons resultados que o time obtém ou
pelas vitórias que permite escapar. O resto é blá-blá-blá.
Mas
como seguro morreu de velho, tomara que o blá-blá-blá de logo mais, e
principalmente o da próxima quarta-feira, estejam inspirados.
JORGE
MURTINHO

COMENTÁRIOS: