Flamengo emprestou Luiz Antonio de graça à Chapecoense.

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Volante Luiz Antonio está emprestado à Chapecoense – Foto: Sirli Freitas/Chapecoense

MAURO
CEZAR PEREIRA
: pós três anos à frente do Grêmio, Rui Costa assumiu a direção
executiva de futebol da Chapecoense no início de 2017 com a missão de remontar
o elenco. Ele conversou com o blog, contou detalhes sobre as contratações,
ajuda de outros clubes e sobre o momento atual, com o time em campo enfrentando
as dificuldades que qualquer equipe tem pela frente. Três meses depois da
tragédia de Medellín, a Chape não é “café com leite”, pelo contrário,
os rivais querem derrota-la no gramado, e as críticas ante maus resultados já
aparecem. Como se o clube não tivesse perdido tantos profissionais no acidente
que comoveu o planeta.

Dois jogos no mesmo dia, três em quatro
dias, o calendário tem sido um adversário maior do que imaginavam nessa
reconstrução do time?
Calendário
sempre foi uma preocupação, por isso formamos um grupo grande, com 33 atletas
contando os da base. Se contarmos todo o grupo de transição, poderemos chegar a
38. Precisamos de um grupo, não para enfrentar dois jogos no mesmo dia, o que é
surreal, mas partidas próximas. Não dá para ter 11 titulares, mas 16. Saímos do
zero.
O clube tentou fazer algo para evitar
tamanho acúmulo de partidas em tão pouco tempo?
Tentamos
alterar jogos, remanejar partidas junto à Liga e à Federação Catarinense de
Futebol, mas o calendário não permite isso. O (Vagner) Mancini (técnico)
precisa da semana cheia para treinar a equipe e foram poucas até aqui, fora a
pré-temporada. Tentamos criar esse espaço, mas infelizmente não tem sido
possível.
Quais as maiores dificuldades do
departamento de futebol nessa remontagem de elenco?
O
tempo para estabelecer perfil de atletas, adequar orçamento e necessidade, que
era de muitos jogadores. Além disso não poderíamos escolher qualquer um. Era
preciso ter detalhamento de scout e de perfil para contratar cada um deles. Não
abrimos mão de um critério muito profissional na escolha desses atletas. Nem
todos que nós escolhemos estão aqui, mas todos os que estão aqui foram
escolhidos. Isso tomou muito tempo, mas era fundamental. Trabalhamos com um
clube de características próprias e que ficaram ainda mais particulares. É um
clube da comunidade. E agora pessoas que não gostavam de futebol gostam da
Chapecoense. Jogar pela Chapecoense é como jogar no País Basco, na Catalunha.
Era preciso que esses atletas que contratamos não viessem apenas pensando em
usar o clube como uma passagem.
Faltava identificação?
Em
alguns casos faltou capacidade para criar identificação, que leva tempo. Mas
conseguimos um grupo que se sente motivado por jogar aqui. E existem motivações
profissionais, a Libertadores, enfrentar o Barcelona… E a cada jogador que
contratávamos virava notícia até na Europa, cada vez que um jogador vestia a
camisa da Chapecoense, repercutia, e usei isso também. Houve um momento em que
não se sabia se a Chapecoense teria futebol em 2017. Foi mais uma dificuldade.
Quantos jogadores foram contratados?
Fizemos
24 contratações. A do Rossi foi a primeira e muito interessante. Ele já era
disputado por várias equipes e quando cheguei já estava na lista de todos nós e
foi muito interessante porque em nenhum momento me perguntou se tinha time ou
não. Ele simplesmente assinou o contrato sem perguntar com quem jogaria.
Outros, como Túlio de Melo abriu mão de valores para vir para cá e disse que
não se sentiria satisfeito profissionalmente se não devolvesse à Chapecoense o
que ela fez por ele. E todos os outros de alguma forma fizeram algo mais para
jogar aqui. Tenho certeza que isso nos trará algo de positivo lá na frente.
Daquela promessa inicial de times da Série
A, que se propuseram a ceder atletas à Chapecoense, quais realmente o fizeram e
quais os jogadores que dentro dessa ideia foram incorporados ao elenco?
Vários
clubes tiveram grandes parcerias com a Chapecoense. Não fizeram doações, mas
temos jogadores que ganham R$ 100 mil e por eles pagamos R$ 40 mil. O clube de
origem completa a diferença. Por outro lado aqui eles têm mais visibilidade.
Alguns nos ligaram oferecendo profissionais, estrutura. Claro que para nós a
grande ferramenta é contar com jogadores emprestados a custo zero e com
salários compartilhados. Isso foi muito importante para conseguirmos montar o
elenco. Não podemos desconsiderar que os clubes parceiros, casos de Cruzeiro e
Atlético. E o Palmeiras, o que mais nos viabilizou situações favoráveis. Outros
têm relação de parceria, como São Paulo, Flamengo, Sport, Londrina, Grêmio, que
nos emprestaram jogadores sem custo.
A Chapecoense estreia na Libertadores
contra o Zulia, na Venezuela, no dia 7 de março. Quanto falta para alcançar o
patamar mínimo esperado?
Falta
tempo. Tempo de trabalho, de reconhecimento dos atletas, de lidar com
frustração e sucesso. Falta termos a capacidade de perceber porque ganhamos e
perdemos. Mas confio muito nesse grupo, claro que temos outras equipes mais bem
preparadas em termos de tempo e de grupo, teremos pela frente a melhor equipe
da Argentina, que é o Lanús, mas precisamos realmente é de tempo.
Qual o investimento da Chapecoense no novo
elenco?
A
direção fez um esforço, tivemos um orçamento conservador, mas o clube precisava
contratar mais de 20 atletas e permitiu um valor extra para viabilizar isso.
Mas nossa folha é praticamente igual à do ano passado, mesmo estando na
Libertadores. Não deixei de entender que aqui é preciso praticar o modelo de
gestão tradicional do clube, eu me adaptei como gestor à Chapecoense, não o
contrário.
As receitas subiram em relação ao ano
passado? Quanto?
Bem
menos do que se cogitou, se especulou e se desejou, mas de fato o clube
aumentou a receita, reconsiderou suas relações históricas e em nenhum momento
virou as costas para patrocinadores históricos. Foram revistos contratos e
houve um aprimoramento. A TV tende a passar mais jogos nossos, as pessoas vão
ao estádio, mas cresceram as despesas, com a indenização de vítimas, o clube
tem sido muito criterioso nisso. Outro dia me perguntaram se o dinheiro de
doações seria utilizado para contratar jogadores, o que seria absurdo. Temos
tudo separado, diferentes centros de custo entre o valor que vem para esse fim
e o orçamento que é destinado à formação do elenco.
A perda de um time inteiro representou,
além, óbvio, de tantas vidas, um prejuízo econômico. De quanto foi, calculando
o valor de mercado de atletas que se foram e formaram uma bela competitiva
equipe?
Não
fizemos esse levantamento, mas eram ativos do clube. Isso certamente foi feito
em algum momento por investidores, para questão de seguros. O clube, por
questões que fogem à sua vontade, teve que enfrentar situações em que a
contabilização foi necessária.
Como tem sido o dia a dia de Vagner
Mancini em meio a tantos problemas tendo que estruturar um time do zero?
Convivemos
mais entre nós no clube do que com nossas famílias, e vejo nele uma capacidade
de trabalho impressionante. Um cara que veio para cá com o objetivo de vencer,
alguém que entendeu o que é pertencer à Chapecoense. Com nossas convicções,
conseguimos perceber que de nada adiantaria aplicar todas elas sem compreender
o que é pertencer a Chapecó. Mancini é um inteligente, rapidamente entendeu o
contexto. O luto acabou, quando ganhamos é bom, se perdemos recebemos críticas.
É impossível fazer um time nesse período que tivemos, mas em momento algum ele
reclamou disso. Ninguém está transferindo responsabilidade. Mancini, como todos
nós, abriu mão de valores para participar da recuperação do clube. Poder
contribuir com o nosso trabalho, nesse momento, é algo especial. Essa cláusula
existe em nossas cabeças sem estar no papel, acho que isso terá um peso em
nossas carreiras.
Quais as metas realistas da Chapecoense
para 2017 nas diferentes competições que disputará até dezembro?
Temos
objetivos internos. Mas entendemos que é um ano de transição, com isso temos
que manter o clube num patamar, que seria permanecer na Série A. Buscar um
título regional. Temos a Recopa, que são dois jogos, podemos sonhar com uma
conquista internacional dentro de campo. E fazer uma bela Libertadores. Temos
que buscar metas, mas entendendo que são 30 pessoas trabalhando juntas e que
não se conheciam. E cada vez que nosso time entra em campo isso tem um peso,
com a necessidade de conquistar a paixão do torcedor. Não são metas de mera
participação, o que desmobilizaria o grupo, mas não podem ser de conquista de
todos os títulos, algo impossível. Temos que manter o crescimento da
Chapecoense. E se terminarmos nosso ano entendendo que evoluímos como clube,
teremos alcançado nosso objetivo.

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