Flamengo não marca gol de falta há 10 meses.

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Arte: UOL

UOL: De decisivos a esquecidos

Era
comum nas décadas passadas: a falta na entrada da área – em alguns casos até
mesmo na intermediária – significava uma chance clara de gol. Os responsáveis
por isso atendiam pelo nome de Rivellino, Nelinho, Zenon, Neto, Zico, Roberto
Dinamite, Marcelinho, Alex, Marcos Assunção, Rogério Ceni, entre outros grandes
jogadores do futebol brasileiro.
Nos
últimos anos, porém, os gols de falta sumiram dos gramados do país. Para se ter
uma ideia da escassez, no último ano, a redução chegou a 61%, passando dos 44
gols na edição do Campeonato Brasileiro de 2011 para apenas 17 no Brasileirão
2016.
O UOL
Esporte mostrará os prováveis motivos que levaram a essa situação. Para isso, a
reportagem escutou grandes batedores de falta da história, jogadores que se
aposentaram há pouco tempo e atletas que estão em atividade.
Vasco, Cruzeiro e Atlético-MG se destacam
Nesse
ano, somente Vasco, Cruzeiro e Atlético-MG , entre os 12 times grandes do país,
marcaram gols de falta. O time carioca foi às redes com Nenê, na Florida Cup,
contra o River Plate-ARG. Rafael Sobis e Robinho fizeram pela equipe
cruzeirense. No Galo, o venezuelano Otero acertou uma cobrança diante do
Joinville, na Primeira Liga.
Especialistas apontam um culpado
Eles treinam pouco, é preciso ter muita
dedicação para esse fundamento. Não é de uma hora para outra que começa a fazer
gols. Sempre treinei muito. Eu fiz 124 gols de falta. Isso só no profissional,
sem contar a base. Para chegar a esse número foram muitos dias de treinamento –
Marcos Assunção
Nós temos batedores da falta, que batem
bem na bola, mas fazem gols uma vez ou outra. Eles não têm sequência. Não ficam
conhecidos por serem grandes cobradores de falta. Isso para mim é falta de
treinamento. É o cara que bate bem na bola, mas não treina o suficiente para
ter um índice de acerto alto – Nelinho
Hoje o atleta tem pressa para sair do
treino. Não tem ousadia, é preciso arriscar, mas hoje eles ficam com medo de
uma vaia. Jogador hoje tem pressa, não tem paciência, não quer fazer a
repetição. Os treinamentos vão colocá-lo em um patamar maior para decidir jogos
– Marcelinho
Restrição de Felipão e até de Capello
“Muitas
vezes o Felipão falava que ia lesionar, mandava embora do treino, falava que
precisava de mim no jogo.” A atitude, segundo o ex-jogador Marcos
Assunção, é recorrente no futebol e aconteceu até com Fabio Capello, quando ele
defendia a Roma: 

“Ele também pegava no meu pé”, contou o jogador, que
muitas vezes chegou a discutir com técnicos.

Marcelinho
também viveu essa situação na carreira. 

“Tinha restrições, mas você sabe o
limite do corpo. E não tem limite para quem tem 17 anos. Com mais de 30, sim,
diminui a quantidade. Hoje há mais suporte para o atleta treinar em alto
rendimento. É questão de arriscar mais, treinar e ter confiança e, se descobrir
que tem o mínimo de talento, persistir no treinamento”, disse.

Já com
Nelinho, exímio cobrador do time do Cruzeiro na década de 1970, também não
tinha conversa. 

“Comigo nem davam opinião. Quando terminava o treinamento,
todo mundo ia embora, eu ficava sozinho no campo. Chamava um goleiro que
estivesse à disposição ou um auxiliar de cozinha que tinha no Cruzeiro. Não era
por acaso, é repetição”, afirmou o ex-lateral direito.

Cobradores atuais se defendem
Em 2015, o Tite cobrava muito. Não era
exagerado, pegava dez bolas de cada lado e enfatizava muito isso, o que ajudou
bastante. A barreira anda um pouco e dificulta para o batedor. É questão de
treinamento e dom – Jadson
Sinceramente é uma coisa que até pouco
tempo atrás nós jogadores ficávamos depois do treino. Nos clubes onde passei
sempre tiveram bons cobradores. Vamos também dar méritos aos goleiros talvez – Michel
Bastos
Vou continuar cobrando, tentando e
chutando. No jogo há só uma oportunidade e tem de estar preparado. A gente fica
cansado, mas é importante. A meta é bater mais faltas, até 30 por treino. Estou
me pressionando – Fellipe Bastos
Há mesmo risco no futebol atual?
De
acordo com o preparador físico Antonio Mello, que já treinou grandes cobradores
de falta, como Alex, Marcelinho e Ricardinho, é preciso ter cuidado com a
condição física dos jogadores. Ele, porém, acredita que a atividade não afeta o
profissional.
“É
claro que é preciso tomar cuidado para não agredir o atleta, mas não vejo
nenhum problema em treinamento específico. Não é prejudicial ao atleta. Eu
sempre incentivei. É preciso incentivar. Se não treinar falta, está fechando
uma chance de marcar gol. É preciso encontrar adequadamente um momento para
treinar e incentivar esse cara a desenvolver esse potencial”, disse Mello.
O
preparador físico admite que hoje os jogos exigem mais dos jogadores, que podem
ficar cansados ao fim dos treinos. Mas Mello diz que os gramados têm dimensões
menores. 

“Os jogos estão mais intensos, mas os campos estão menores. Se
joga num campo pequenos hoje em relação aos do passado. É uma redução muito
grande”, afirmou.

A rotina dos especialistas
Zico
O
ex-camisa 10 do Flamengo treinava três vezes por semana, com até 100 faltas em
cada atividade e tinha até que improvisar pelo fato de não ter barreira móvel. 

“Eu tinha de chamar alguns funcionários quando não tinha mais jogador,
Quando não tinha nada, eu pendurava camisa no ângulo e tentava derrubar.
Improvisava de alguma maneira”, disse.

Marcos Assunção
A
repetição nos dias que antecediam os confrontos era rotina para o ex-volante. 

“Sempre treinava dois dias antes dos jogos. Se o jogo fosse domingo,
treinava sexta e sábado. Sexta um pouco mais, umas 60, 80 faltas. No sábado
umas 20, 30, pois a perna tinha de ficar mais tranquila para o jogo”,
frisou.

Marcelinho
Segundo
o camisa 7 do Corinthians no fim da década de 1990 e começo de 2000, os treinos
se davam diariamente. 

“Eu chegava a chegar uma hora e meia antes do treino
começar e ia embora uma hora depois. Treinava de manhã e à tarde quando o time
trabalhava meio período. O número de repetições te leva à perfeição”,
ressaltou.

Nelinho
O ex-jogador
do Cruzeiro, Atlético-MG e da seleção brasileira também treinava todos os dias
e apostava na variação de posição. 

“Só não fazia no dia do jogo. Começava
chutando do escanteio da direita e ia parar do outro lado. Treinava falta com
barreira e sem. Ficava uma hora, uma hora e meia”, destacou.

Dedicação do “Camisa 10 da
Gávea”
Nos
tempos de Flamengo, Zico treinava até altas horas, mesmo quando a luz do dia já
não estava presente. Naquela época, o time rubro-negro, segundo Zico,
trabalhava sempre à tarde. Na véspera do jogo, o camisa 10 tinha de pedir para
o goleiro Raul Plassmann ficar com ele até mais tarde. Para trabalhar à noite,
eles dependiam da luz artificial do Jockey Club, localizado ao lado da Gávea.
“Não
tinha terceiro e quarto goleiros. Pedia para ele ficar no gol. Ficava escuro e
ele falava para ir embora. Eu falava que dava para continuar com a luz do
Jockey, a gente treinava ao lado. Depois eu falava que ele não precisava ir na
bola, era só ficar parado. E ainda dizia: ‘você está reclamando, mas na
terça-feira vai ficar feliz na hora de pegar o bicho'”, disse o craque,
que usava o treino como uma forma de se concentrar.
“O
resultado era sempre favorável, eu gostava de treinar na véspera dos jogos. Depois
que acabava tudo ficava sozinho para chegar no jogo mais confiante”,
disse.
Marcelinho dá dicas
Diante
da escassez de gols atual no futebol brasileiro, Marcelinho chegou a dar dicas
para os jogadores jovens.
“É
bom treinar com sete metros de distância da barreira e não 9,15m. Criar graus
de dificuldade, porque no jogo, às vezes só há uma oportunidade. Se treinar
assim, pode virar especialista e conseguir fazer com que a bola te
obedeça”, disse.
Marcelinho
ressalta ainda que um ponto importante é treinar com a bola e a chuteira do
jogo. Além disso, é necessário treinar até os movimentos, como a envergadura do
corpo e o a pisada do pé de apoio. Variar as batidas é um método de
treinamento. De perto da área, Marcelinho aconselha a batida chapada.
“Mirar
no segundo homem da barreira para a bola cair rápido, como um taco de sinuca.
Ver também o posicionamento do goleiro”.
Ele
ainda cita as cobranças de média e longa distância.
“Bater
na bola como uma alavanca, com o peito do pé, a bola do meio para cima, vai cair
rápido. Ou três dedos de longe, de rosca para surpreender o goleiro. Isso tudo
faz com que o jogador se torne um grande cobrador de faltas”.
Afinal: é dom ou treinamento?
Quando eu me tornei profissional, senti
que as faltas poderiam ser um algo a mais e passei a treinar bastante porque
sempre fiz muitos gols. Aumentei o ritmo de treinamento – Zico
Existem os cobradores de faltas e o
especialista, que nasce com dom e talento. E são os treinamentos que vão
colocá-lo em um patamar maior para decidir jogos – Marcelinho
Só o dom não adianta. Você vai precisar de
cinco, seis faltas para acertar uma. No jogo isso é muito difícil. Além do dom,
é preciso muito treinamento, senão ele não consegue – Marcos Assunção

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