Lukas Podolski soube usar bem o Flamengo.

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Lukas Podolski se despedindo do Brasil com a camisa do Flamengo – Foto: Reprodução / ESPN

ESPN: Por
João Castelo Branco

O
alemão queridinho do Brasil é gente boa, simpático?
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O que
eu conheci não foi assim.
Quando
encontrei Lukas Podolski em Londres, pouco depois da Copa do Mundo de 2014,
tudo conspirava para eu imaginar que ele seria um cara legal. No mínimo
receberia bem e educadamente uma equipe de TV brasileira. Nunca me decepcionei
tanto com um entrevistado. Fiquei com essa pulga atrás da orelha até agora.
Podolski
se aposentou da seleção com um golaço contra a Inglaterra e merecidamente foi
muito homenageado. Nascido na Polônia, é superquerido na Alemanha – herói de
Colônia, sua cidade, onde marcou 181 gols na duas passagens pelo FC Koln.
Falando com alemães, a única coisa negativa que você vai ouvir sobre Podolski é
que ele tem fama de ser meio burro. Às vezes a imprensa brinca com isso. A
frase “Futebol é como xadrez, mas sem os dados” é uma de suas pérolas
mais conhecidas. Mas fora isso, só elogios, dizem que ele é o brincalhão do
grupo, um cara simples, mas legal, sempre na boa.
Não
foi o Podolski que eu conheci.
Sonho de consumo do Flamengo
Podolski
é xodó dos brasileiros, virou a definição de um alemão simpático. Durante e
depois do Mundial no Brasil, ele realmente passou uma imagem muito boa. Pelas
redes sociais mostrou admiração, respeito e carinho pelo Brasil. Mandou recados
em português. Usou a camisa do Flamengo. Se saiu muito bem e, mesmo sendo reserva
do time, foi um dos destaques da Copa, conquistou milhares de fãs e seguidores
brasileiros. Lembram da campanha nas redes “Fica Podolski”, depois
alterada para “Volta Podolski”? Golaço.
O
responsável pela tradução dos posts em português é, ou pelo menos era, Douglas
Santos, não um cara de marketing, mas um empresário conhecido por levar os
jogadores para a night em Londres. Douglas foi apresentado a Podolski por André
Santos, na época companheiro do Arsenal.
O
brasileiro diz que eram todas ideias do próprio jogador.
Ele
ajudava mais com a tradução e algumas expressões do futebol brasileiro como
#tamojunto, #énois e #resenhacomosparças.
Podolski
foi muito esperto. Não estou dizendo que ele estava sendo falso, acho que ele é
carismático e sabe trabalhar bem a imagem. Acredito que ele viu que um recado
em português caiu bem e aí ele surfou a onda com categoria. A camisa do
Flamengo foi brilhante também, mas duvido que estaria posando com ela se na
época ainda fosse feita pela marca Olympikus. Mas está certo ele. Por que não?
Seja de onde tenha vindo a camisa, ele soube usar bem.
O
problema é que pela imagem que ele criou eu imaginava que seria simpático
quando fui a seu encontro na entrevista marcada. Mas não foi. Foi arrogante,
marrento e mal-educado.
Na
hora que saí do local, deu vontade de fazer uma matéria desconstruindo o mito.
Mas “seria um exagero”, pensei, “quem sabe ele estava em um dia
ruim, de ressaca, mau humor”. Às vezes o jogador não esta a fim. Tudo
compreensível, e no fim das contas eu tinha uma boa entrevista nas mãos. Quando
ligava a câmera, ele sabia fazer o papel dele. E eu fui parte do jogo, vendi a
imagem que ele criou e que nós queríamos aproveitar.
FUI
PARTE DO JOGO! Tanto que vi agora que eu dei retweet nos elogios dele à nossa
entrevista. Caí na dele, o meu ego falou mais alto.


Fiz o
que tinha que ser feito, mas não esqueci. Já entrevistei muita gente, e nem
todos estão com saco de falar, mas ninguém foi tão chato quanto ele. Um tempo
depois ouvi uma história parecida de um colega brasileiro que o entrevistou em
Londres: “Marcamos em uma churrascaria. Estava tudo montado em um canto.
Ele chegou super atrasado e foi mal-educado, mandando mudar tudo que tínhamos
montado de um jeito arrogante. Fiquei surpreendido, tinha uma pauta nada
polêmica, era para levantar a bola dele. Mas ele não estava nem aí. Foi
chocante, entrevista desanimadora. Respostas secas.”
Mas
este colga, como eu, deixou quieto. Fez o que achou correto na época para não
se queimar: “Na matéria só o levantei. Optei por não ir por um lado
crítico. A pauta era para levantar a bola do cara, fazer o que?”
Foi
uma experiência quase idêntica à minha.
Será
que era pelo momento ruim no Arsenal, quando não estava jogando muito?
ste
jornalista que também já entrevistou muitas estrelas do futebol mundial
concluiu: “Mesmo assim, geralmente, são profissionais, Podolski foi o pior
de todos, ele e o Celso Roth em segundo.”
Isso
me mostrou que não foi um dia isolado e acabei vendo este ‘amor’ pelo Brasil de
uma maneira mais crítica. Juntando com o conteúdo das entrevistas, fica uma
sensação de ser algo um pouco superficial e oportunista. Ele deve gostar mesmo
do Brasil, só que não fala como Cristiano Ronaldo, por exemplo, que mostra
interesse e conhecimento da cultura brasileira, além do “Guaraná e
rodízio” de Podolski. Seu ‘carinho’ também é diferente do companheiro
Mesut Özil, que um ano após a Copa discretamente financiou operações para
crianças no Maranhão.
Acabei
virando cínico, me perguntando: onde para o afeto pelo Brasil e entra o
marketing?
O
jornalista escocês Andrew Downie, correspondente no Brasil, relata em seu blog
uma experiência em uma churrascaria em Colônia onde o jogador foi muito
mal-educado com brasileiros, aparentemente sem necessidade de agir de tal
forma: “I Met Lukas Podolski Once. He Wasn’t Nice”.
“Eu
encontrei Podolski. Ele não foi legal”, título do texto de Downie,
jornalista da Reuters, revista Time, The Independent e New York Times.
Com
certeza serei criticado por alemães e brasileiros.
Seguramente
muitos já tiveram boas experiências com Podolski. Ele tem projetos sociais na
Polônia e uma história bonita na Alemanhã. Meu colega de ESPN Gustavo Hoffman
fez uma entrevista exclusiva no CT da seleção alemã em Stuttgart antes da Copa
e diz que foi legal, carismático.
No
Arsenal, me contam que se pegá-lo em dia ruim pode ser chato e meio arrogante,
mas que tem jogadores bem piores. Nos dias de bom humor, era simpático.
Simpático
mesmo dentro de um clube é Diego Costa, talvez o jogador mais genuíno e gente
boa (fora do campo) com quem já falei, o oposto de atleta marqueteiro. Uma vez
Diego me disse que prefere ser verdadeiro do que criar um personagem e fingir
ser o que não é. Mas isso é raro hoje em dia, todo mundo cria uma imagem. Diego
Costa não se referia a Podolski, mas sobre uma tendência no futebol e no mundo
em geral.
Na
minha experiência, existe um outro lado do Podolski.
Pode
ser que ele goste mesmo do Brasil e seja gente boa, mas isso não foi exatamente
o que eu vi. No mundo dominado por redes sociais, criamos e consumimos imagens.
Eu fui parte disso tanto quanto ele.
Não
estou sugerindo que seja má pessoa: acho que no fundo ele é um boleiro normal,
um ser humano que tem seus méritos e seus defeitos. Se divertiu no Brasil,
soube aproveitar bem a situação e nada errado com isso, mas o choque quando
você o encontra no dia errado é grande. Eu nunca esqueci e, de lá pra cá, sempre
fiquei na dúvida se Lukas Podolski é uma mentira.

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