Por que torcida única não é solução nem por cinco minutos.

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ESPN: Em
junho de 2016 fui convidado a participar de audiência pública na Assembleia
Legislativa de São Paulo. Em pauta, torcida única em jogos de futebol. Era um
dos representantes da imprensa, com Luís Augusto Símon, do Blog do Menon (Uol);
e Rodrigo Vessoni, então no Diário Lance e hoje no site Meu Timão (vídeo abaixo).

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Os
grandes clubes não enviaram representantes. E lá estavam o deputado Luiz
Fernando Teixeira, que idealizou o debate; o Presidente da Assembleia
Legislativa, o também deputado estadual Fernando Capez, e seus colegas Roberto
Morais, Delegado Olim, Welington Moura, Alencar Santana, Chico Sardelli e
Itamar Borges.
O
Promotor de justiça, autor da medida que impõe torcida única em São Paulo,
Paulo Castilho, também lá esteve, assim como o vice-presidente da Federação
Paulista de Futebol, Fernando Sollero. Representando o a CBF, Roberto Cicivizzo
Júnior.
O
tenente coronel Luiz Gonzaga de Oliveira, Comandante do Segundo Batalhão de
Choque; o Coronel Marcos Cabral Marinho de Moura, então diretor de segurança e
prevenção Federação Paulista; Arles Gonçalves Júnior, presidente da Comissão de
Segurança Pública da OAB SP; e a delegada Margarete Barreto, titular do
Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (Drade-DHPP).
Ouvimos
vários argumentos, contrários ou favoráveis à polêmica medida. E tive alguns
minutos para uma apresentação sobre o tema (vídeo acima). O conteúdo
compartilho com os leitores deste blog a partir daqui, para que mais pessoas
possam ler, entender melhor o problema e refletir a respeito de algo que fere o
futebol, vítima disso tudo.
O
hooliganismo é reconhecidamente um problema mundial. Para comprovar tal tese,
peguemos a Holanda, país dos mais tolerantes e abertos do mundo, com PIB per
capita de € 40 mil (o do Brasil é de € 9 mil) e analfabetismo em 0,1% (no
Brasil 7%, 8º do ranking com 14 milhões de pessoas nesta condição).
Apesar
de seus ótimos indicadores, os holandeses sofrem com o mesmo problema.
Inclusive com brigas em estádios (acima). A situação é tão grave que os
estádios têm preparo específico para isolar torcedores extremamente rivais. É
uma das medidas tomadas pelas autoridades da Holanda em jogos de futebol.
Os
hooligans representam problema na Holanda como em toda a Europa. E é assim
apesar de os habitantes em vários países não terem em suas rotinas os problemas
de desemprego, saúde e educação precárias, diferenças sociais extremas e
violência urbana. Como acontece em nações de Terceiro Mundo, como o Brasil.
Os
confrontos de grupos organizados são comuns, como acertos de contas e
emboscadas. Independentemente de ser dia de jogo. Em 1997, Carlo Picornie,
líder da torcida do Ajax, morreu em confronto com torcedores do Feyenoord, que
usaram facas, martelos e correntes. Muito parecido com o que é comum por aqui.
O
governo reconheceu que perdera o controle e ampliou ações policiais, com
reforço do exército e treinamento adequado para conter o problema. E não era
dia de jogo quando Picornie foi morto. Até hoje a torcida do Ajax
“jura” vingança e isso explica em parte os cuidados tomados nos jogos
entre os dois maiores rivais holandeses.
No
Brasil os confrontos dentro de estádios de futebol são raros há anos, e
costumam acontecer movidos pela “oportunidades” dada aos que estão
sempre prontos, ávidos pelo embate corporal. Isso ocorre quando o policiamento,
a segurança é nitidamente fraca. Percebendo que a chance existe, brigam.
No
Brasileiro de 2016, corintianos enfrentaram a Polícia Militar no Maracanã antes
de partida com o Flamengo. Isso ocorreu depois que perceberem o efetivo
pequeno. Foi uma oportunidade de encarar um “rival”. Sim, para muitos
desses assíduos brigões, a PM é tão odiada quando os inimigos de organizadas de
outros clubes.
Levantamento
do blog feito antes de tal episódio mostra que os estádios são seguros em
99,996% dos jogos do Campeonato Brasileiro. O ano mais difícil foi 2013, com
três conflitos nas arquibancadas. Aconteceram 820 jogos de Série A desde a
última briga de 2013 e o confronto de flamenguistas e palmeirenses em Brasília
ano passado.
Foram
910 dias entre a última briga de 2013 e esta ocorrida em 2016. Os pontos em
comum onde houve brigas: falhas de segurança, a polícia da capital não soube
isolar torcidas; não havia policiais em Joinville, mas sim seguranças
particulares sem treinamento adequado; cenário favorável para quem deseja
brigar.
Fica a
pergunta: quando a polícia trabalha mal, por que os clubes são punidos, mesmo
quando tomam as medidas de segurança necessárias, entregando tal missão a quem,
em tesem tem preparo? Se não fica comprovada a conivência dos cartolas com
brigões, vira transferência de responsabilidade. O poder público se exime da
culpa.
Mesmo
com torcida única, é possível que confrontos aconteçam, sejam emboscadas ou
brigas combinadas. Em 25 de março de 2012, centenas de torcedores se
enfrentaram na Avenida Inajar de Souza, Bairro do Limão, São Paulo. No conflito
com corintianos, que teria sido uma vingança, dois palmeirenses morreram.
A
batalha aconteceu a cerca de 12 quilômetros do Pacaembu, estádio que recebeu o
clássico Corinthians x Palmeiras, que teve bola rolando muitas horas mais
tarde. Enfrentar os rivais em situações assim também configura oportunidade
para quem deseja brigar, em determinados casos uma oportunidade criada.
Como
no assassinato do torcedor holandês, aqui no Brasil os confrontos mais comuns
são fora e longe dos estádios. Como na morte do líder da torcida do Ajax, não é
preciso ser dia de jogo para que inimigos que integram tais grupos se
enfrentem.
Qual
autoridade pode assegurar à sociedade que num dia de jogo com torcida única os
rivais não irão preparar emboscadas ou agendar brigas como a da Avenida Inajar
de Souza? Teremos um domingo de terror se um grupo resolver espalhar tocaias
para os rivais que se dirigem ao estádio? Ou se resolverem marcar brigas, como
já aconteceu?
Em
contrapartida, brigas nas arquibancadas entre organizadas do mesmo clube ou em
jogos de torcida única são fato. Os exemplos do Serra Dourada podem se
reproduzir em qualquer outro lugar. Pois não são poucas as organizadas rivais,
mesmo sendo do mesmo clube. Ocorre pelo Brasil e no exterior.

Mesmo com uma só torcida ou entre torcedores do mesmo time, brigas acontecem – Foto: Reprodução

Apesar
da repercussão e das mortes, só em fevereiro de 2016 a justiça começou a ouvir
réus e testemunhas da briga na Avenida Inajar de Souza em 2012. Um episódio de
grandes proporções se arrastou na justiça após mais de quatro anos. Brigas sem
mortos não costumam resultar em penas. A impunidade não é devidamente atacada.
Na
Inglaterra há legislação específica. Se um cidadão invadir o campo, no dia
seguinte estará diante do juiz. A punição é dura e inevitável. Corintianos
detidos em Oruro no começo de 2013 participaram da briga com vascaínos em
Brasília meses depois. Sem grandes consequências para os personagens
envolvidos.
A
impunidade é um dos maiores problemas do Brasil. Não é diferente nas brigas de
alguma forma ligadas ao futebol, que apenas reflete parte do que se passa na
sociedade, afinal, está nela inserido. Enquanto esse ponto não for atacado de
forma eficiente, com estudo e inteligência policial, não teremos avanços.
Torcida
única é a rendição da sociedade diante uma minoria que participa das torcidas
organizadas. Os violentos são cerca de 6% segundo o professor Maurício Murad, o
maior estudioso do tema no Brasil. Ingleses não se renderam a isso, aprenderam
a conter o hooliganismo. Não fomos capazes disso até hoje.
Com
torcida única, a maioria, que deseja apenas torcer, é impedida de ver o seu
time porque as autoridades não sabem como conter uma minoria violenta. E a
sociedade não fica livre de batalhas em qualquer ponto da cidade. Em nome da
“segurança”, proíbem a entrada no estádio até do que não é perigoso,
até livros!
Falta
treinamento adequado a muitos policiais que atuam em jogos de futebol. Não são
raros os casos em que deveriam controlar, evitar conflitos, agir como
mediadores que impedem o alastramento do tumulto, mas tensão, logo lançam
bombas de gás, atingindo até torcedores inocentes, jogadores etc. Despreparo
claro e incontestável.
Para
piorar, as restrições à festa nas arquibancadas são tomadas, como se a
celebração do futebol estivesse diretamente conectada às brigas. Por causa da
violência vêm sendo adotadas há anos proibições e vetos. E os estádios ficam
cada vez mais tristes.
Sem
bandeiras, papel picado, fumaça, piscas (não confundir com o sinalizador naval
que matou um adolescente na Bolívia) o espetáculo do futebol perde como
manifestação popular e cultural. São decisões tomadas por achismo, mera
intuição, calçadas em desconhecimento do problema. Festa não é violência.
Torcida única não é solução.

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