R. Guerreiro relembra passagem pelo Flamengo e canto “poeira”.

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GLOBO
ESPORTE
: A última final de Taça Guanabara entre Fluminense e Flamengo foi
disputada em 21 de fevereiro de 2004. De um lado, tricolores tratavam seu time
como uma nova versão da “Máquina Tricolor”. Naquele sábado de
Carnaval, Valdir Espinosa levava pela primeira vez o quarteto Roger, Ramon,
Edmundo e Romário a campo. Os quatro tiveram seus nomes cantados em verso e
prosa, e a empolgação pelo retorno do Maradoninha, emprestado pelo Benfica, era
grande. “O lê lê, o lá lá, o Roger vem aí, o bicho vai pegar”. Pegou,
mas para o Flu. Pelos pés a cabeça de outro Roger, garoto de 22 anos
recém-emprestado pelo Corinthians ao Rubro-Negro.
O
camisa 6 rubro-negro, que fora algoz do Flu 20 dias antes em virada eletrizante
por 4 a 3, com dois gols anotados, marcou o do título da Taça GB, aos 30 da
etapa final.
– Um
Roger para cada lado, e a torcida deles falou que o bicho ia pegar. Eles
acertaram, só erraram a cor (risos). Pegou para o lado deles. É brincadeira
sadia. Hoje qualquer brincadeira que se faz já leva para tribunal ou tem
agressão. Naquela época o futebol era mais divertido, engraçado. Havia
provocações sadias nos clássicos. Hoje levam muito para o lado pessoal e acaba
havendo agressões e mortes. Espero que a alegria do futebol volte com o passar
do tempo – afirmou o lateral-esquerdo, que na época ainda não adotava o
sobrenome Guerreiro.
Que
Roger foi o grande carrasco do Fluminense em 2004, com quatro gols em mesmo
número de jogos, todo mundo ficou sabendo. O que poucos sabem é que por pouco
ele não foi parar nas Laranjeiras antes do destaque vestindo vermelho e preto.

Antes de eu ir para o Flamengo quase fui para o Fluminense. O pessoal fala:
“Ah, por que você fez esses gols todos no Fluminense?”. Jogo é jogo,
mas inconscientemente pode ter sido por isso. Eu ia como moeda de troca ou
contrapeso, porque o Fluminense queria o Serginho, do São Caetano e que faleceu
posteriormente no jogo com o São Paulo. Tínhamos o mesmo empresário, ele tentou
me colocar junto no negócio, e o Fluminense tinha aceitado. No final da
negociação, o Serginho acabou não indo. Aí o Fluminense disse: “Se o
Serginho não vem, não precisa do Roger”. Não fui para o Fluminense, acabei
no Flamengo e deu no que deu (risos) – completou.
Hoje
aos 34 anos e atuando pelo Rio Verde, de Goiás, Roger Guerreiro voltou a atuar
como lateral-esquerdo, algo que não fazia desde sua saída do futebol
brasileiro. Confira outras memórias da decisão de 2004 e do outro Fla-Flu
inesquecível do mesmo ano, o 4 a 3:
GloboEsporte.com: Roger, é a primeira
decisão da Taça GB entre Fla e Flu após a na qual você foi o herói. Mas, antes
daquele jogo, você se destaca numa das maiores viradas do Flamengo no clássico.
Qual a importância daqueles gols e do 4 a 3? Lembro que você foi muito vaiado
três dias antes no empate com o Friburguense e acabou substituído…
Roger:
Muita gente fala que foi mais emocionante do que a própria final. Lembro também
do episódio com o Friburguense, empatamos em 1 a 1, e eu fiz um primeiro tempo
muito abaixo do que eu poderia render. Tinham umas três mil pessoas no Maraca,
mas estavam me vaiando. Lembro até que o Felipe olhava para a torcida e
xingava, falando para me deixarem jogar. Acabou que fui substituído no
intervalo. Lembro que Julio Cesar entrou no segundo tempo e acabou expulso. Até
acho que por esse motivo tive a oportunidade de jogar o Fla-Flu do 4 a 3.
Pelo
futebol que eu tinha apresentado contra o Friburguense, acho que o Julio que
jogaria o clássico. Então o Abel bancou minha escalação no Fla-Flu e, graças a
Deus, tive a felicidade de fazer meus dois primeiros gols como profissional e
participar dessa virada histórica, que ficou na memória. Muitos falam que foi
uma das maiores viradas do futebol do Rio de Janeiro. Fico muito feliz por ter
participado dessa vitória e, querendo ou não, ter entrado para a história desse
clube tão grande que é o Flamengo.
Naquele 4 a 3, a torcida lançou o grito
de “Poeira” que marcou a comemoração do título de 2004 e de muitos
outros. Como foi ouvir aquela energia toda?
Outra
coisa inesquecível foi esse grito de poeira, música da Ivete que eles começaram
naquele jogo. Lembro que estava 3 a 1 para o Fluminense, e a torcida deles
gritando “olé”. De repente a torcida inteira do Flamengo tirou a
camisa, começou a rodar e gritar poeira. Pessoal fala que torcida não entra em
campo, mas parece que naquele jogo entrou. Depois daquilo saiu o segundo gol do
Felipe, de perna direita, a bola toda mascada e entrou. Eu, que nem tinha feito
gols como profissional, acabei fazendo dois bonitos e conseguimos a vitória.
Fala em torcida do Flamengo, e eu lembro de “Poeira, poeira”. É
inesquecível mesmo.
Como foi marcar no dia do aniversário do
Seu Osvair na grande decisão da Taça GB?
Naquela
final da Guanabara, o gol do título que fiz foi em homenagem ao meu pai. Ele
fazia aniversário. Data marcante, 21 de fevereiro. Fato ruim ficou por conta
que ele, de emoção, passou mal. Depois do jogo eu estava crente que ia curtir
Sapucaí e o Carnaval do Rio pela primeira vez, ele passou mal, acabei voltando
para visitá-lo para ver se estava tudo bem. Acabei perdendo a Sapucaí.
Foram os momentos mais especiais da sua
carreira com a camisa de um clube?
Os
meus momentos com a camisa do Flamengo foram os mais especiais da minha
carreira, tiveram outros, mas os do Flamengo foram os mais importantes, porque
foi dali que tive ascensão no cenário nacional e internacional. Depois da passagem
pelo Fla é que surgiu o interesse do Celta de Vigo, fui para a Espanha e
posteriormente para a Polônia. Meu gol na Eurocopa foi muito importante –
naturalizou-se polonês e fez o primeiro gol de sua seleção na história da
competição -, naquela data completava seis meses que meu pai havia falecido,
foi muito especial também, mas os gols e os jogos pelo Flamengo, principalmente
esses dois Fla-Flus foram os mais importantes da minha carreira como jogador.
Qual seu palpite para o clássico e por
quem vai torcer?
Com
certeza vou torcer pelo Flamengo, apesar de ter um carinho muito grande pelo
professor Abel, que foi meu treinador naquele título. Arrisco 3 a 1 para o
Flamengo.
Como está sua vida no Rio Verde-GO. Está
bem por aí?
Estou
jogando no Rio Verde, a equipe vem fazendo boa campanha. O inusitado é que
voltei a jogar de lateral, o treinador anterior sentiu carência na lateral, e
eu falei que poderia ajudar. São cinco jogos de lateral-esquerdo depois de 12
anos. Depois que fui para a Europa, sempre joguei no meio lá. É até ponto
positivo, porque estou lateral mesmo aos 34 anos. Muita gente acha que não
corremos mais depois dos 30. Estar na lateral abre um leque de opções para ter
de repente um segundo semestre interessante. Minha preferência é o meio, mas
fazer mais de uma posição é importante. Espero fazer grande campeonato e que
portas se abram no segundo semestre.

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