Torcer, para que torcer?

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Foto: Divulgação

LANCE:
Luiz Fernando Gomes

A
confusão generalizada que precedeu ao Fla x Flu deste domingo, e uma pesquisa
sobre torcidas divulgada essa semana em São Paulo, pelo Instituto DataFolha,
aparentemente não tem nada a ver uma com a outra. Mas só aparentemente. As duas
coisas estão, na verdade, ligadas umbilicalmente. Uma explica a outra.
A
pesquisa mostrou que 24% dos paulistanos já não torcem por time algum. No Rio,
embora não haja números atualizados, a situação não deve ser muito diferente. E
isso ocorre, não porque o brasileiro deixou de gostar de futebol. Mas,
trapalhadas como as da final da Taça GB e o desrespeito constante por que
passa, estão, definitivamente, cansando o torcedor.
Mas há
dados ainda mais alarmante na pesquisa do DataFolha.
Mesmo
entre os que acompanham futebol, cresce, ano após ano, o percentual dos que não
sabem citar, sequer, três nomes de jogadores de seu time. Sim, não estamos
falando da escalação completa – coisa que boa parte de nós tinha sempre na
ponta da língua – mas de apenas três, três jogadores. Foram 60% de são-paulino,
59% de palmeirenses, 51% de corintianos e 49% de santistas desinformados.
São
tragédias brasileiras.
Motivos
não faltam, nem para deixar de torcer para um clube, nem para explicar por que
o torcedor simplesmente desconhece os ídolos do seu time. Só para tratar de
alguns:
– É
inadmissível tricolores e rubro-negros, por exemplo, não saberem até 48 horas
antes de um jogo decisivo, se poderiam ou não ir ao estádio torcer por seus
times. Ninguém suporta mais isso. Como insuportável é o descaso com que o
assunto da violência no futebol vem sendo tratado ao longo dos anos, com
atitudes de rompante e sem nenhum planejamento ou estratégia minimamente
estruturada. Prevalecem apenas as decisões antifutebol como a adoção da torcida
única ou a proibição das bandeiras, como em São Paulo.

Enquanto a CBF insiste em manter o calendário daqui em desacordo com o resto do
mundo, dificilmente um clube começa o Brasileirão com o mesmo time que termina.
A janela europeia abre no meio da nossa temporada e talentos se vão, em plena
disputa do mais importante campeonato do pais. Essa instabilidade afeta o
rendimento, os resultados, e gera desconfiança e insegurança permanente no
torcedor.
– A
realização de jogos, especialmente no meio de semana, tarde da noite, é um
desinvestimento no público infantil, aquele que desde pequeno precisa ter
contato, ver seu time jogar para desenvolver laços. Eles não aguentam ficar
acordados. E, para completar, impedido por pais temerosos, já não podem sequer
usar nas ruas a camisa do seu clube, expor sua paixão. E as trocam por Real,
Barça e Bayern…
– Os
garotos formados na base, cada vez mais cedo, antes mesmos de se tornarem
profissionais em alguns casos, já deixam o clube e o pais. Assim, os ídolos
formados em casa e que fazem carreira nos clubes são cada vez mais uma exceção.
Gerações identificadas com uma camisa, como a de Pelé, Zico, Ademir da Guia,
Roberto Dinamite, Jairzinho, Tostao, Falcão, Rivellino, mais recentemente
Marcos e Rogério Ceni, é que ajudavam a transformar torcedores em apaixonados.
É o que fazia e faz toda a diferença.
– A
desestrutura financeira da maior parte dos clubes leva a uma mudança de boa
parte do elenco ao fim de cada temporada. Vender jogadores se tornou fonte de
renda necessária para fechar as contas. E, com essa alta rotatividade, fica
difícil criar vinculo do torcedor com os jogadores. Situações como a do
Palmeiras e do Flamengo, que mantiveram a base do ano passado quase intacta,
são cada vez mais raras.
– Por
fim, um problema cultural: o futebol está ficando chato. Jogadores que se
identificavam com o torcedor pelo carisma, o bom humor e a provocação sadia,
como Romário, Renato Gaúcho, Vampeta, Túlio Maravilha, Paulo Nunes, Edilson e
outros, praticamente entraram em extinção, substituídos pelo comportamento
politicamente correto que não empolga nem o mais conservador e careta dos
torcedores. Se driblar virou desrespeito e fazer firula, humilhação, torcer
muitas vezes, virou chateação.

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