Torcida única transforma clássicos em jogos ordinários.

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Foto: Divulgação

PERON
NA ARQUIBANCADA
: O jogo entre Cruzeiro e Atlético-MG, disputado em 1º de
fevereiro, é um dos que mais me marcou neste início de ano. A partida – que
teve a vitória do Cruzeiro (1 a 0) – foi especial por contar com a presença das
torcidas dois clubes no estádio.

As
mais de 40 mil pessoas que estiveram no Mineirão naquele dia, mostraram como a
presença de grupos de torcedores de dois grandes times transformam os clássicos
em partidas especiais, mesmo que seja no começo de temporada e independente da
importância ou fase de qualquer campeonato.
Um
confronto entre rivais com apenas uma torcida – ou com algum grupo com acesso
limitado – transforma o clássico em um jogo qualquer. Hoje, em São Paulo, onde
a determinação da torcida única, que agora infelizmente está chegando ao Rio de
Janeiro (felizmente os clubes cariocas lutam contra a medida, mesmo que para
isso o Fla-Flu, que decide a Taça Guanabrara, não tenha público, o que não
aconteceu com os paulistas) é utilizada há mais tempo, isso já acontece. Há a
tradição dos confrontos, se promove a partida com termos tipo “o maior
clássico do planeta”, mas não temos no gramado realmente um clássico.
Um
confronto entre “grandes” sempre indicava uma igualdade de forças –
mesmo quando um dos times vivia uma fase ruim. Agora, isso não acontece. O
clube que joga no campo do rival entra acuado – como se fosse um time do
interior – querendo “segurar” os 15 primeiros minutos. Os resultados
improváveis dos clássicos vão acabar, pois o clube que joga em casa vai entrar
em campo levando boa vantagem.
Quando
havia divisão de torcida, até a disputa para saber qual time levaria o maior
número de torcedores, ou iria fazer a festa mais bonita, gerava grande
expectativa. Aqui em São Paulo, os torcedores vibravam, como se o time tivesse
feito um gol, no momento em que os fãs de seu clube conseguiam ocupar sete
gomos da arquibancada do Morumbi – o setor era dividido em 12 partes. Isso
significava que havia mais torcedores do seu clube. Por outro lado, ouvir o
grito de gol que “avançava” pela arquibancada do outro lado do
estádio era um terror.
Em uma
época que os clubes perdem torcedores também é um tiro no pé evitar que uma
torcida não possa ir aos clássicos. Torcedor se forma mesmo no estádio e
acompanhando grandes vitórias contra rivais. Para um jovem, um clássico, mesmo
sendo na cidade que ele mora, por uma simples “canetada”, se torna
tão distante quanto uma partida disputada em Londres, Milão ou Munique. Diante
da TV, na escolha entre um confronto entre os grandes clubes da Europa ou o
jogo da sua cidade, existe a grande possibilidade de o adolescente escolher o
jogo de um torneio do Velho Continente.
Lógico
que existe o problema da violência, mas há maneiras – e o clássico que eu citei
no início mostrou isso – de evitar que alguém corra risco de morrer indo ao
estádio. A polícia precisa fazer um trabalho de inteligência antes das
partidas, acompanhando os grupos violentos – que são sempre os mesmos e todos
sabem – e os torcedores, que não são violentos, também precisam fazer sua
parte, denunciando aqueles com comportamento inadequado – isso boa parte já faz
dentro do campo, apontando quem pode prejudicar o clube ao atacar algum objeto
no gramado – e indo aos clássicos para evitar que os grupos tomem conta dos
estádios. Qualquer jogo entre um “grande” e um “pequeno”
não pode ter mais público que um confronto histórico, como acontece atualmente.
Também
ajudaria muito se melhorasse a relação entre qualquer tipo de torcedor e a
polícia – e vice-versa. Em São Paulo, por exemplo, os torcedores acusam a
polícia de tudo que acontece de errado, fora a provocação tola que o público
faz com aqueles que estão trabalhando para cuidar da segurança. Os policiais
não fazem a mínima questão de tratar bem quem vai ao estádio – desde o momento
em que o torcedor é revistado na entrada – e, em qualquer situação, mesmo em
que não exista a ameaça nenhuma de conflito, há o uso de força excessiva e
cavalos são jogados contra os torcedores.
O
futebol brasileiro cresceu graças à rivalidade entre os principais times e
estamos bem perto – com apenas uma decisão de gabinete – de jogar a história
dos principais confrontos do país no lixo. Os clássicos precisam da presença
das duas torcidas no estádio para não se transformarem em jogos ordinários.
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pitacos: @humbertoperon

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