Afinal, qual a identidade do Flamengo de Zé Ricardo?

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Zé Ricardo, treinador do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

CHUTE CRUZADO: Por  Pedro Henrique Torre

Cuellar
toca em Pará, que devolve, ainda na frente da grande área. O colombiano estica
para Everton na direita. De letra, o camisa 22 já toca para a ultrapassagem de
Pará, na ponta direita. Ele segura a bola, espera Everton entrar na área
adversário e rola. De primeira, o meia-atacante cruza para Leandro Damião, no
centro da área, que perde chance incrível ao isolar a bola. Um lance simbólico.
Era a 26a rodada do Campeonato Brasileiro, em setembro de 2016.
O
Flamengo venceu o Figueirense por 2 a 0 no Pacaembu e ficou um ponto atrás do
Palmeiras. Mas o que chamou a atenção, mesmo, foi o futebol apresentado. Talvez
o melhor desempenho do time em anos. A maturação de um processo iniciado por Zé
Ricardo. O time tinha uma cara. Uma identidade. Mas, de lá para cá, a ideia
parece ter se perdido.
Naquela
partida, a equipe finalizou 23 vezes e trocou 533 passes. Acertou 499 – ou 94%.
Era um conceito estabelecido. Vasta troca de bola. Manutenção da posse.
Envolver o adversário. Todos jogadores pareciam saber ocupar espaços em campo,
próximos um do outro. Cruzamentos e lançamentos existiam, claro. Mas eram
alternativas ao jogo no chão. E muito válidas. Um gol do jogo saiu de
lançamento de Rafael Vaz, da intermediária, para a cabeça de Arão na área. O
outro, de pênalti de Diego. E várias oportunidades perdidas. Era um Flamengo em
evolução. Construía uma maneira de jogar que era, simultaneamente, competitiva
e eficiente. E parou.
Talvez
a pressão psicológica da reta final do Brasileiro e a necessidade de vencer
para continuar a sonhar com o título aliadas ao conhecimento dos rivais pelo
jogo tenham culpa. Já travado no jogo de passes, com times mais fechados, o
Flamengo passou a alçar bolas na área para buscar a vitória. Menos chão, mais
jogo aéreo. 2016 encerrou sem título e ideias plantadas. Em 2017, elas seriam
retomadas. Azeitadas. Romulo chegou para a vaga de Márcio Araújo como se fosse
uma passagem de bastão.
No
início da temporada, em partidas do Carioca, o Flamengo buscou o jogo de
infiltrações, troca de passes, triangulações. Mancuello, um meia, parou na
direita, carregando a bola para o meio, substituindo o esforçado Gabriel. A
identidade de 2016 com perspectiva de melhora em 2017. Que encontrou problemas
diante de adversários mais qualificados. Rafael Vaz, por exemplo, é
autossuficiente e disperso para iniciar as jogadas. Invariavelmente um
lançamento ou passe para no pé rival. Zé Ricardo já disse não gostar. Mas o
problema segue sem solução.
Márcio
Araújo retornou ao meio para proteger a defesa com sua agilidade na recuperação
de bolas. Posta-se entre os zagueiros, recebe a pelota e…toca para o lado ou
devolve para atrás. O jogo vertical que resultou na bela apresentação contra o
Figueirense em 2016 sumiu. A identidade proposta por Zé Ricardo se esfacela. O
time cruza bolas, abusa do lançamentos. Uma nova ideia. Contra o Bangu, a
equipe repleta de reservas cruzou 57 bolas na área diante do ferrolho
adversário. Uma ideia totalmente distinta.
O time
parou de evoluir. Está espaçado, como se viu no Fla-Flu deste domingo. Um
Flamengo em plena crise de identidade a dez dias de sua sequência na
Libertadores. Os números são bons. Verdade. Mostram equilíbrio. 41 gols
marcados, 11 sofridos e uma derrota em 18 jogos. Mas o time parece em dúvida de
como se postar. E daí para a desorganização é um pulo. Abandona fácil uma ideia
de jogo no chão, com troca de passes, diante de uma retranca à frente. Em
minutos, recorre às bolas na área.

Ricardo tem sua identidade. Claramente prefere o jogo proposto, de pé em pé até
a área adversária. Mas, iniciante entre os profissionais, certamente lê o
ambiente e já entende ser necessário conquistar para se manter imune às
contestações. Por isso, parece por vezes já preferir a segurança das mesmas
peças a tentar alternativas para retomar a identidade daquele Flamengo contra o
Figueirense. A construção do jogo parece ruim, o time exposto? Márcio Araújo
volta. Gabriel é sempre opção para as pontas. 4-2-3-1. Cuellar pouco tem
chances. Romulo já deixou a equipe. Donatti só atua entre os reservas. O garoto
Ronaldo também. É hora de Zé Ricardo se desapegar e defender suas ideias. Ele
mesmo é parte da novidade.
Obviamente
é bom técnico. Tem boas ideias e encaixou uma maneira de fazer o time ser
competitivo em 2016. Após a reta final do Brasileiro, tentou retomar seus
pensamentos em 2017. Talvez seja hora de pensar em alternativas de jogo para
consolidá-los. Mudar uma ou duas peças. Tentar retomar a fluidez do Flamengo
envolvente e de troca de passes que deixou o Pacaembu boquiaberto em 2016. Não
só competitivo. Era um jogo bonito. De dar gosto. O contrário do que se vê
atualmente. Jogar bem é o melhor atalho para vencer. O material em mãos é
melhor do que o do ano passado. Ainda há tempo na temporada para responder.
Afinal, qual a identidade do Flamengo de Zé Ricardo?

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