Brasileiro de 87 é a discussão biscoito x bolacha do nosso futebol.

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Gazeta Press

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FC
: Por João Luis Jr.

Poucas
tarefas são mais complicadas do que tentar discutir racionalmente o que
aconteceu no Campeonato Brasileiro de 1987. Nascido de um racha entre o Clube
dos 13 e a CBF, que gerou um campeonato em dois módulos, com um quadrangular
final que deveria ser disputado mas depois decidiu-se que não seria disputado.
Aí os vencedores de um módulo quiseram disputar, os vencedores do outro não, e
todo mundo se considerou campeão. O Brasileirão de 1987 é talvez o mais perto
de uma discussão biscoito x bolacha que chegamos no nosso futebol: as opiniões
são passionais, a possibilidade de convencer o outro é nula, o resultado da
discussão não vai afetar em nada a realidade.
Isso
porque a objetividade da análise histórica quando o tema é futebol é quase a
mesma da análise de fisionomia quando o tema é “meus filhos”. Da mesma maneira
que uma mãe é capaz de distorcer sua percepção com as próprias mãos para dizer
que seu filho é bonito, um torcedor está, sim, disposto a rasgar o tecido da
realidade tal qual uma toalha de mesa de boteco para beneficiar a narrativa do
próprio time, o que é menos má fé ou cinismo e mais paixão, esse elemento que,
seja no esporte ou fora dele, tem uma imensa capacidade de nos tornar menos
sensatos do que costumamos ser.
A
maior parte das opiniões sobre o que aconteceu em 1987 está diretamente ligada
com a relação que a pessoa tem com os times envolvidos. Torcedores do Flamengo,
torcedores do Sport, torcedores de rivais do Flamengo, torcedores de rivais do
Sport, não são exatamente historiadores imparciais em busca da verdade sobre um
momento polêmico do nosso futebol, mas sim pessoas que querem tirar onda numa
mesa de bar ou fazer montagens horríveis na ferramenta Paint para enviar em
grupos do Whatsapp. Então a tendência é que se apeguem à versão da verdade que
melhor se presta a esses interesses. Como eu disse, não é má fé, é apenas
paixão, e paixão é o que move o futebol.
Então
mais do que explicar aqui por que eu acho que o Flamengo foi campeão brasileiro
de 1987, por que sigo considerando meu time hexa e exibir argumentos com os
quais todos os flamenguistas vão concordar, todos os torcedores do Sport vão
discordar e torcedores de times aleatórios vão se apegar ou não dependendo do
contexto da conversa. O tipo de discussão útil que a bagunça desse campeonato,
que ainda não foi decidido 30 anos depois – o Flamengo já informou que irá
recorrer novamente da decisão -, pode gerar é mais no sentido de como evitar
novas bagunças
Afinal,
a Copa União foi a maior tentativa dos clubes de organizar um campeonato sem a
CBF e fracassou exatamente pela falta de união dos próprios clubes. Seja pelo
que chamam de elitismo do Clube dos 13, que excluiu outros clubes do seu
torneio, seja pela decisão dos próprios membros do Clube de apoiar Flamengo e
Inter na época e hoje questionarem o título rubro-negro, seja pelo fato de
Flamengo e Sport estarem decidindo isso nos tribunais e com alguns ataques
públicos vagamente infantis, fica claro que a CBF consegue se manter no poder
exatamente porque os clubes são incapazes de se entender entre si.
Independente
de quem você considerar campeão brasileiro de 1987, esse torneio segue como um
lembrete da bagunça que é o nosso futebol, da infantilidade dos nossos
dirigentes, da incapacidade da CBF, de como temos um potencial imenso para que
sejamos uma das maiores ligas do mundo mas preferimos nos manter brigando entre
nós mesmo. E claro, a pior parte de todas: nos lembra que tudo já era assim 30
anos atrás e hoje continua basicamente do mesmo jeito.

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