Flamengo é dentro da gente.

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Foto: Divulgação

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Vivi Mariano

Convive
com teus textos sobre o Flamengo, antes de escrevê-los. Tem paciência, se
obscuros. Calma, se te provocam. Com a licença poética do Drummond tenho
esperado que esse amor pelo Flamengo se manifeste cada vez mais em mim antes de
escrever um texto sobre o Mais Querido. Até que Diego sai de campo machucado e
eu tenho vontade de ligar para ele. Perco o sono. Conto as horas para a
entrevista do médico responsável. E agradeço ao bom Deus pela resultado
positivo da cirurgia. E passo a pensar numa novena que proteja Ederson de uma
gripe, um esbarrão, um empurrão, ou de queimar o pé numa lâmpada do jardim. O
amor pelo Flamengo, apenas aceite. Sinta. Respire. Perca a respiração. Volte a
respirar. E siga adiante. O Flamengo é para os que vivem o Flamengo. Se você
apenas está nele, passa por ele, tem simpatia por ele. Lamento, o Flamengo não
é para você. Flamengo é dentro da gente.
Chego
no estádio sozinha e um estranho, quase que da minha família – pois é assim que
nos identificamos na torcida do Flamengo, com essa intimidade de primos,
irmãos, filhos, parceiros de uma vida – Me aborda. “Olá, você está sozinha?”
Respondi que estava acompanhada de uns 40 milhões de rubro-negros, fora o
baile. Ele riu. E respondeu: “Te entendo”. E seguiu adiante. O Maracanã tem
seus fantasmas. Seus personagens. Seus seres de outro mundo. Anjos e demônios.
Achei, de verdade, ter tido uma experiência mística que me confimava: nós somos
o Flamengo. Naquele instante a torcida adversária invadiu o espaço destinado a
nossa torcida, numa daquelas atitudes animalescas que só a cadeia deveria ser
capaz de educar. Sou empurrada para a grade de entrada até conseguir entrar.
Vejo meu braço machucado pela pressão dos torcedores apavorados que tentavam
fugir da confusão. Sigo em paz e marcada pela própria natureza rubro-negra.
Sinto orgulho da dor e dos arranhões. Não me julguem.
Subo a
rampa com um cara que grita, pula, bate nas costas das pessoas: “Eu amo o
Flamengo. Eu amo o Flamengo. Eu amo o Flamengo.” Olha para o alto e aponta para
o céu:  “Me perdoa mulher, me perdoa
filhos, me perdoa chefe: O Flamengo é mais importante que todos vocês. Todos.
Todos. Todos.” Por um segundo imaginei ele correndo na minha direção, me
sacudindo e gritando: “Você me entende, Vivi! Diz que você me entende?” Do
fundo da minha alma rubro-negra: eu disse sim. E lembrei de uma frase do
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas. “No centro do sertão, o que é
doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!” No centro da
torcida do Flamengo também. Quando eu morrer quero ser cremada e as cinzas
espalhadas no Maracanã. Se ele ainda não tiver virado cinzas também.
Continuo
caminhando para meu lugar na arquibancada, ainda com os gritos do torcedor
declarando amor explícito ao Flamengo ecoando pela subida da rampa. Começo a
reconhecer aqueles rostos de desconhecidos de uma vida inteira de Maracanã.
Sinto uma falta enorme do meu pai, que esteve bem longe de ser o melhor pai do
mundo, mas ali no estádio, ele nunca me abandonou. Eu precisava estar sempre
num raio de visão dele. Não podia dar um passo sem avisar para onde ia, ou com
quem falaria. Muito tempo sem ele, aindo me sinto órfã. Mas acompanhada de uma
Nação. E dos meus 11 leitores. Caminho livremente e falo com amigos de uma vida
que acabo de fazer. E abraço, abraço, abraço torcedores que moram comigo nas
redes sociais. São da “família”. Vivo aquele prazer lentamente de entrar no
corredor que me leva para o altar. Ouço os sinos tocando. Vejo estrelinhas
brilhando. Sete. A arquibancada, o gramado, o grito da torcida. TRÊS VOLANTES!
Seguimos com Márcio Araújo, Rômulo e Arão. Vamos de Trauco novamente no meio,
com Gabriel e Guerrero na frente? Alegre ou triste, amor e Flamengo é a coisa
que mais quero. Viva eu. Viva tu. Viva o urubu.
Pra
vocês,
Paz,
Amor e Fé no Zé.

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