Flamengo sofre retaliação do Governo por alternativas de estádio.

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Flamengo acelera as obras na Arena da Ilha – Foto: Gilvan de Souza

MAURO
CEZAR PEREIRA
: Lagardère e consórcio Maracanã (Odebrecht) devem assinar nesta
sexta-feira um “memorando de intenções”, que oficializará prazo e
condições para apresentação de uma proposta firme de compra da concessão do
estádio. Isso praticamente sela a aquisição pelos franceses, que pagariam,
parceladamente, R$ 60 milhões pelo direito de gerir e explorar a
“arena”. O governo do Estado do Rio de Janeiro habilitou a empresa em
janeiro, quando entrou na disputa pelo palco da final da Copa, que deverá gerir
até 2048.

Assinado
o documento, levará mais 20 dias para a evolução do memorando até o contrato.
Depois serão necessários cerca de dois meses, a partir da assinatura do
documento, para a transição que deve representar a entrega das chaves do
“New Maracanan” à Lagardère. Como o Flamengo se recusa a lá jogar sob
a administração da empresa, corre risco de sofrer “asfixia” na busca
por locais onde atuar durante a temporada 2017.
Em 23
de março, o clube emitiu nota oficial — clique aqui e leia — na qual é
categórico: “O Flamengo reforça mais uma vez que não fará nenhum tipo de
negociação com a Lagardère e seus parceiros comerciais. Nossa experiência com
eles evidencia uma total incompatibilidade com os princípios e valores do
Flamengo”. E aí surgem situações que, nos bastidores, chamam a atenção
pelo repentino maior rigor de fiscalização.
Desde
que o clube chegou a um acordo com o consórcio encabeçado pela Odebrecht para
enfrentar o San Lorenzo no Maracanã, ações fiscalizatórias têm sido mais
assíduas. Na oportunidade, o Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia)
apareceu de maneira repentina e questionou a reabertura do Maracanã, que
parecia ameaçada. O impasse teve grande repercussão, mas após uma inspeção, deu
o ok.

dois dias, o Corpo de Bombeiros decidiu interditar todo o setor leste superior
pela falta de cadeiras. A interdição valeu para o jogo de ontem, entre
Fluminense e Liverpool do Uruguai, pela Copa Sul-Americana. O Flamengo vende
ingressos para o local e promete reparar o problema até a partida de quarta-feira,
contra o Atlético Paranaense, pela Libertadores da América — uma inspeção está
prevista para a véspera da peleja.
Hoje,
a Folha de S. Paulo publica matéria sobre a “reconstrução de um canal
pluvial que passava ao lado do campo criou um buraco entre as duas
arquibancadas temporárias no estádio localizado na Ilha do Governador”. O
clube minimizou o fato ao emitir nota assegurando que a “obra segue em
curso com total respaldo técnico e total nível de segurança e tem previsão de
término no fim de abril”.
Em
2016 o Botafogo montou arquibancadas no local onde mandou vários jogos da Série
A e Copa do Brasil. Em 4 de outubro, quando teve vetada o aparentemente bem
encaminhada marcação do Fla-Flu (mando tricolor) para a Ilha sob administração
alvinegra, o Fluminense emitiu nota oficial — clique aqui e acesse — onde se lê
que “o Botafogo entrou em contato (…) e alegou problemas na tubulação de
esgoto do estádio Luso-Brasileiro. O clube de General Severiano informou que
não teria como avaliar a extensão do problema e que, por se tratar de uma
questão técnica subterrânea”.
Administrado
pelo Botafogo, o Nilton Santos, ou Engenhão, deixou de ser opção para os
rubro-negros por conta da incompatibilidade entre as diretorias dos dois
clubes. Além disso, no Brasileirão (começa em 13 de maio), não será permitido
mandar jogos fora do Estado onde a agremiação está sediada. Em suma: se o
Flamengo não viabilizar a Ilha a tempo, poderá ser “forçado” a
negociar com a Lagardère a partir de junho, julho, quando o estádio poderá
estar nas mãos da companhia que tem matriz em Paris.
Uma
das barreiras entre Flamengo e Lagardère era a parceria com a BWA, empresa com
a qual o clube se recusa a ter qualquer relacionamento comercial. O blog ouviu
a assessoria da organização francesa no Brasil, que assegurou: se ela assumir o
Maracanã, os rubro-negros poderão mandar seus jogos no local fazendo a chamada
operação das partidas, ou seja, cuidando do funcionamento do estádio, venda de
ingressos, etc. Sem BWA! Contudo, nem assim os dirigentes da Gávea admitem um
acordo devido a outras questões.
Na
prática os obstáculos não se limitam à BWA, como explicou em 26 de março o
jornalista Rodrigo Mattos em seu blog — clique aqui e leia. A questão não é
financeira, mas de alinhamento, de não fazer negócios com a empresa pelo perfil
apresentado no Brasil, a partir daqueles aos quais se associou no país.
Faz
sentido. No entanto, o Flamengo pode ser sufocado. Se adiante, por alguma
razão, não puder jogar na Ilha do Governador, será empurrado na direção do
Maracanã e dos franceses. Ou terá que ir para Volta Redonda, por exemplo. Mas
se alcançar fases decisivas da Copa Libertadores, precisará de um estádio para
pelo menos 40 mil pessoas. No caso, seria Maracanã ou uma cancha em outro
Estado, o que dependeria de aprovação da Confederação Sul-americana e
concordância com outros clubes.
Assim,
enquanto os franceses se aproximam do Maracanã, o Flamengo faz sábado, contra o
Vasco, sua primeira “despedida” do estádio. Mas se ficar
“asfixiado”, pode se ver obrigado a voltar atrás. Uma queda de braço
que ameaça se esticar pelos próximos meses e mostrará se foi boa a estratégia
de Eduardo Bandeira de Mello, ao afirmar que com a Lagardère seu time não volta
ao estádio.
Vejamos
se o presidente rubro-negro saberá fazer como Alexandre Kalil, quando à frente
do Atlético. O time carioca tem o seu “estádio Independência” na
Ilha, para jogos menores. E precisará, provavelmente, saber negociar jogo a
jogo para usar o Maracanã quando lhe convir e de maneira que valha a pena. A
experiência atleticana nos embates com a Minas Arena, que gere o Mineirão, vale
como referência.

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