Guerrero, do Flamengo, ironiza zagueiro do Vasco: “Você é viado?”

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Foto: Reprodução

GLOBO
ESPORTE
: sombra paulista ficou para trás. O Guerrero do Fla, enfim, parece em
casa no Rio de Janeiro. Deixou no passado as brigas com o ex-desafeto Rodrigo –
a quem respondeu com cotovelada após apertão nos peitos num clássico com o
Vasco em março do ano passado – e mostrou que leva no bom humor a relação com o
zagueiro vascaíno. Às vésperas de novo duelo com o rival e de jogo da
Libertadores, o peruano está mais leve. E tem melhor início de temporada da
carreira.

O
calor do Rio de Janeiro não o assusta mais. Está adaptado à Cidade Maravilhosa,
ao “carioquês” e tira de letra, ainda com a timidez que o
caracteriza, nomes de pontos turísticos e músicas da moda do sertanejo e de
funk. É novo adepto também do “rubro-negrismo”, com mensagens
carinhosas aos torcedores até quando serve à seleção de seu país.
Em 20
minutos de entrevista, o peruano falou do carinho pela família, pelos seus
cavalos, lembrou momentos difíceis na Alemanha e até revelou episódio de
racismo sofrido no campo nos tempos de Europa. Como ninguém é de ferro, sobrou
leve provocação a Luis Fabiano: Guerrero pediu para a reportagem conferir a
estatística no confronto com o vascaíno, adversário neste sábado. Confira isso
e bem mais no bate-papo com o jogador de 33 anos.

Você voltou do Peru, com dois gols, um
deles muito importante contra o Uruguai, e soma nove em 2017 em 12 jogos. O ano
tem sido especial tanto no Flamengo quanto no Peru?
Eu não
acho que seja tão especial. Espero que seja melhor ainda. Sempre trabalho para
estar bem, graças a Deus neste ano me preparei para estar bem. As coisas estão
acontecendo como eu imaginava. Ao final do ano quero ver quais objetivos
consegui para fazer minha autoavaliação que sempre faço em todos anos. Agora
estou me sentindo bem e as coisas estão saindo do jeito que planejei. Acho que
poderiam ser até melhores, mas ainda falta muito e estou treinando e me
preparando para essas semifinais que vamos pegar agora. Estou trabalhando muito
forte para encarar esses jogos com alta intensidade, porque temos o objetivo de
ganhar tudo nesse ano.
Durante
a Copa América de 2016, falamos com um profissional de saúde que te acompanha
há um tempo. Contou que você perdeu peso, ganhou massa muscular e se equilibrou
mentalmente. Isso fez diferença no seu desempenho?

Recentemente
falei dos trabalhos que estamos fazendo aqui no Flamengo. A gente tem uma
academia muito boa, a preparação mudou muito, e acho que todo mundo está se
sentindo bem, não só eu. Fisicamente estamos correndo muito bem.
Um colunista do jornal inglês “The
Guardian” disse que você estaria no Barcelona se fosse brasileiro,
argentino ou uruguaio. Foi um elogio, evidentemente. Você concorda? Se coloca
entre os melhores atacantes do mundo?
Eu não
estou vendo se estou ou não (entre os melhores). Só tento fazer o meu melhor.
Para isso, tenho que me preparar bem. Senão eu não consigo estar feliz. Se não
estou bem fisicamente, não consigo render o que posso. Graças a Deus, estou
muito bem, me adaptei a esse calor. Não é fácil jogar nesse calor. Morei na
Alemanha 10 anos, lá era frio e tinha neve. São Paulo às vezes sai um calor
assim, mas não é tão abafado quanto o Rio de Janeiro. Demorei muito a me
adaptar a isso, mas graças a Deus me acostumei e encaro os jogos de forma
tranquila e sem problema algum
Sábado vocês enfrentam o Vasco. É o único
time que você não fez gol entre os grandes rivais do Rio de Janeiro. Isso te
faz alguma falta?
Não
sinto falta. Só quero ganhar (do Vasco).
Luis Fabiano deu entrevista bem-humorada
quando chegou, lembrou que era mais velho e tinha mais gols que você. Como é
essa relação? Vocês já se enfrentaram algumas vezes né.
Nos
enfrentamos muito mesmo. Já ganhei muitas vezes dele (risos). Podem ver as
estatísticas: quem ganhou mais jogos. Ele pelo São Paulo, eu, pelo Corinthians.
Mas não quero discutir quem ganhou mais. Vejam nas estatísticas (risos).
Nota da redação: são 10 confrontos entre
Guerrero e Luis Fabiano – nove pelos clubes, um pelas seleções. Guerrero venceu
cinco vezes Fabuloso no clássico Corinthians x São Paulo, contra duas vitórias
de Luis Fabiano e dois empates nos confrontos paulistas. Brasil e Peru
empataram por 1 a 1, em Lima, em 2007. Nos confrontos, Guerrero marcou três
vezes, e Fabuloso, duas.
Está com saudade de encontrar o zagueiro
Rodrigo?
(Risos)
Ah, essas rusgas que a gente tem em campo são legais, são fortes… Já falei para
ele no último jogo, “não vai botar a mão aí que você vai ser castigado, vai ser
punido, hein”. Aí ele fica: “é verdade, verdade”. Mas já tivemos um papo legal
agora.
Você falou que “botou a mão aí”. Aonde?
Cara, vocês já sabem o que ele gosta de
fazer. Aí eu falei para ele, “cara, você é viado?” (risos).
Você parece mais adaptado ao Rio. Já está
até com cavalos por aqui também.
Tenho
três. Eles até já estrearam. Faltam correr ainda outros.
E quais os nomes? Em São Paulo, você
colocou alguns em referência ao Corinthians. Pacaembu, Coringão…
Aqui
no Rio é difícil mudar o nome. No Peru, por exemplo, eu tenho o
“Rubro-Negro”. No Peru quando você compra, pode botar o nome. Aqui
tem que pagar uma taxa pra mudar o nome.
É comum aqui no Rio vermos senhores de idade
apostando no Joquéi, em casas de apostas. O Guerrero vai ser assim no futuro?
Meu
pai que é assim. Eu não aposto, eu vou ver as corridas dos meus cavalos. Os
cavalos são como a minha família. É como o meu filho jogando bola que vou
assistir.
Você tem relação muito bonita com a dona
Peta, sua mãe. Como é essa relação?
Tenho
relação forte com meu pai também. Com os dois. É que minha mãe é muito
protetora, como se fala aqui é mãe coruja. Sou muito ligado aos meus pais,
estou sempre falando com eles.
Dona Peta contou que o Gerd Müller,
ex-craque alemão, que o treinava no Bayern de Munique, o presenteava com
chocolate a cada gol. Aprendeu muito com ele?
Aprendi
muita coisa. Fazia as finalizações com ele e trabalhávamos muito cruzamento de
cabeça. É uma pessoa muito legal, muito tranquila. Ele era assistente do meu
treinador, o Hermann Gerland e que era assistente do Guardiola. Os dois me
ensinaram muita coisa.
Você ainda tem esse costume de comer
chocolates depois dos gols?
Eu
gostava nessa época, o frio te faz comer chocolates (risos). Aqui no calor não.
O que mudou no Guerrero da Alemanha, aos
17 anos, para o de hoje, de 33?
Eu era
mais moleque, mais menino e muito mais novo. Cheguei muito jovem no Bayern de
Munique. Agora tenho 33 anos, acho que amadureci muito. Dentro do campo também
há muita diferença, me sinto mais experiente. Mas sou o mesmo, tento ser mais
brincalhão com meus companheiros, sempre estou zoando mais os moleques, que
ficam mais bravo, mais p… eu ia falar… (risos). Isso não mudou.
No fim de sua passagem pelo Hamburgo,
houve dois problemas: você jogou a garrafa num torcedor e deu carrinho forte no
goleiro. Por que teve essas atitudes?
A
falta não foi nada. Dei um carrinho, e o cara continuou jogando depois. A
garrafada, o cara me xingou, era uma pessoa racista. Eu havia machucado o
joelho e fiquei oito meses sem jogar. Entrei só 10 minutos, porque era o
segundo jogo depois da lesão. A pessoa começou a me xingar, porque eu era de
cor. Nessa época tinha pouco latino. Ele estava me xingando muito, e eu estava
com muita raiva, então eu fiz isso.
Seus filhos moram na Alemanha né?
Diego
e Alessio moram na Alemanha. Minha filha (Naella) mora no Peru. Com Alessio eu
estive em dezembro. Ele foi me ver e ficou um tempo comigo. Diego é mais velho,
já viaja sozinho, está vindo agora. A gente ia passar o Natal e Ano Novo junto,
mas ele não conseguiu vir. Mas agora vem porque tem férias. E toda vez que vou
ao Peru, estou com minha filha.
É a parte mais difícil da profissão? Deve
sentir muita falta deles.
Muita
(falta). Mas toda vez que estou perto deles tento dar 100%. Não estou para
ninguém mais. Muitas vezes as pessoas não entendem isso. Por exemplo, quando
vou ao shopping com minha filha. Todos querem tirar foto. Eu falo, “me
desculpa.” Tento tirar uma ou duas fotos. “Quero dar 100% de atenção
para minha filha.” O pessoal muitas vezes fica chateado.
O que sente falta de não ter feito na vida
por começar a carreira tão cedo e fora do país?
Meus
amigos na escola sempre saíam, iam para festas de 15 anos, lá se diz
“Quinceañera”. Eu não ia. Mas eu não sentia falta. Eu não ia porque
não queria. Queria ficar focado no futebol. Não me arrependo de nada. Já me
privei de muita coisa, mas porque queria. Não porque alguém me exigia.
O filme da sua vida inspira muitas
crianças no Peru. Em quem o Guerrero se inspirava?
Sempre
tentei focar nas coisas que o Ronaldo Fenômeno fazia. Era minha inspiração. Não
fui assim de ter pôster na parede, mas os jogos que tinham dele, sempre
assisti.
O auxiliar do Gareca disse à imprensa
argentina que chegou a sugerir sua ida para o Boca Juniors num momento ruim seu
pelo Flamengo. Houve algo disso?
Não
acompanho muito a imprensa. Não falaram comigo e não leio imprensa. Não assisto
televisão. Se assisto, é jogo do Flamengo.
Mas pensou efetivamente em sair em algum
momento do Flamengo? Você parecia chateado. Houve cobranças de torcedores
também e irritação sua em jogos. Houve a procura da China recente também.
Nunca
tentei sair do Flamengo. Sempre chegavam propostas, isso eu sabia. A gente (ele
e os empresários) discutia isso. Mas minha intenção sempre foi ficar aqui. As
outras ofertas que já tive, inclusive quando cheguei aqui, 20 dias depois,
discutimos. Mas nunca foi algo que chegou perto de acontecer. Afinal de contas,
fiquei aqui.
Você tem escrito muito “Mengão” nas redes
sociais. Hoje, você é mais íntimo com a torcida, com o clube, com a história do
Flamengo?
É
porque eu escuto muita gente “vai, Mengão, vamo!” (grita), então eu também
chamo assim. É uma coisa carinhosa para o clube. “Vai, Mengão” eu também chamo.
A gente percebe, nesse papo, o quanto você
já está mais à vontade no Flamengo. No futuro, você quer ser lembrado como o
Guerrero do Flamengo, como ficou marcado no Corinthians?
Não
estou pensando nisso. Eu não sei. Não sei nem se vou ser lembrado também. Não
fico realmente pensando nisso.
Você tem contrato até metade de 2018. O
Flamengo já manifestou desejo de renovar com você? O que você está pensando
neste momento, em ficar, sair?
Não
sei, meus empresários que veem isso. Claro que gosto de estar aqui, gostaria de
ficar aqui. Estou muito feliz, já estou carioca. Falando carioquês (risos). Mas
eu deixo isso com meus empresários, procuro focar só no futebol, não dou muita
atenção para isso (renovação), porque acho que depois pode desconcentrar, fica
pensando em outra coisa… Tento focar numa coisa só, que é treinar bem e jogar
bem.
Guerrero ouve mais sertanejo ou
reggaetown?
Reggaetown.
Mas gosto dos dois. E tem o funk também, que curto um pouquinho (risos).
Por fim: o que te encorajou a bater falta?
A gente via você treinando e batendo muito bem faltas, mas no jogo não batia.
Na
verdade, sempre fui assim. Todo mundo pega a bola, todo mundo quer bater falta.
E eu não gosto de brigar muito no campo (com meus companheiros). Gosto de brigar
com os zagueiros, esse é o meu trabalho, mas com meus companheiros não. Quero
que eles se sintam bem comigo, tenham confiança. Quando alguém pega a bola, não
reclamo. Mas agora estão me cobrando muito: “você tem que bater, tem que bater,
tem que bater”. Meus companheiros falam também: “pega a bola e bate”. Então
hoje eu pego a bola para bater. Mas não gosto de discutir dentro do campo.

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