Orlando Berrío revela emoção de quando acertou com o Flamengo.

37
Orlando Berrio em sua chegada ao Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

GLOBO
ESPORTE
: Na Colômbia, era noite; no Brasil, madrugada. No mundo todo, choque e
comoção. No dia 29 de novembro de 2016, o avião que transportava a delegação da
Chapecoense que disputaria a final da Copa Sul-Americana com o Atlético
Nacional, em Medellín, colidiu com o topo de uma montanha na região de Cerro
Gordo, no distrito de Antioquia. Enquanto policiais mais próximos ao local da
tragédia enfrentavam a escuridão e o frio para abrir caminho pela mata e
retirar sobreviventes, Berrío olhava para sua esposa sem acreditar na notícia
que o cunhado trazia, quando já se preparava para dormir em sua casa. Agora, o
jogador assistirá ao duelo que teria pela frente no ano passado pela televisão.
Atlético Nacional e Chapecoense começam a decidir outra taça, a Recopa, nesta
terça-feira, às 19h15 (de Brasília) em Chapecó.

O
atacante – agora rubro-negro – já conhecia os nomes dos jogadores da Chape, a
forma como atuavam, seus hábitos dentro de campo, tudo o que foi passado na
preparação para a partida. E se dava conta de que todos eles não estariam mais
no gramado. Ficou sem palavras. Da manhã seguinte, reunido com os companheiros
e comissão técnica do Atlético Nacional, tem uma dolorosa lembrança: o
silêncio.

Ninguém era capaz de dizer nada, simplesmente nos limitamos a escutar as
notícias, nos olhávamos, nos reunimos com a comissão técnica, nos disseram o
que se passou e, na verdade, não acreditávamos. A sensação era essa.
O
colombiano lembra que a emoção tomou conta dos jogadores no primeiro jogo após
a tragédia, no dia 3 de dezembro, contra o Millionarios, quando a equipe obteve
a classificação no Campeonato Colombiano com uma vitória por 3 a 0. O momento
mais marcante, contudo, ficou para depois, quando os jogadores começaram a cantar
a plenos pulmões “Vamos, Chape!” no vestiário, imitando a comemoração
do time de Chapecó quando obteve a classificação para a final continental.
Confira
a íntegra da entrevista de Orlando Berrío
GloboEsporte.com: Onde você estava quando
soube do acidente com o avião da Chapecoense e qual foi a sua reação?
Berrío:
Estava em casa, quase indo deitar. Estávamos conversando, eu e minha esposa,
distraídos, quando o meu cunhado disse ter ouvido que tinha se perdido um
avião. Então, ligamos a televisão, ouvimos que possivelmente era o avião da
Chapecoense. Não podíamos crer. Pensamos em rezar para que não fosse isso, que
os jogadores da Chapecoense estivessem bem, toda sua gente, mas depois soubemos
que era realmente isso. Na madrugada já confirmavam na televisão. Ficamos sem
palavras. Somente nos olhamos e não podíamos crer.
Você chegou a receber ligações de
companheiros do Nacional naquela mesma noite?
Recebi
ligações já no dia seguinte, às sete da manhã, quando nos encontramos todos no
clube. Chegamos todos em silêncio. Ninguém era capaz de dizer nada, simplesmente
nos limitamos a escutar as notícias, nos olhávamos, nos reunimos com a comissão
técnica, nos disseram o que se passou e, na verdade, não acreditávamos. A
sensação era essa.
O Atlético Nacional fez diversas
homenagens à Chapecoense nos dias que se seguiram ao acidente. Qual parte
dessas homenagens partiu diretamente dos jogadores?
Nós
nos sentimos diretamente afetados porque eram campeões que não poderiam mais
jogar uma decisão contra seu rival. Estávamos muito familiarizados com seus
nomes, posições, tudo o que tinha a ver com a Chapecoense. Primeiro, do grupo
partiu a ideia de, antes de tudo, entregar o título de campeão sul-americano,
porque para nós são campeões que por azar não puderam disputar essa final. Não
lhes deram nada para chegar a essa final, venceram no campo, e venceram muito
bem. Fizemos uma homenagem na hora da partida também com as flores para
homenageá-los. Era para ser um momento de alegria, de estar jogando futebol, de
estar fazendo o que amamos, mas foi um silêncio simplesmente…Um sentimento
difícil de explicar.
Depois,
na partida (contra o Millionarios) dedicamos esse triunfo da classificação. Foi
muito bonito porque lá estavam parentes dos sobreviventes, a partida foi dura,
foi difícil, ganhamos por 3 a 0. E após a partida, demos as nossas camisas a
esses parentes, e no vestiário cantamos a canção (da Chape, reproduzindo a
comemoração da equipe ao se classificar para a final da Sul-Americana), foi um
momento muito bonito.
Há uma forte carga emocional para os dois
times. O que esperar dessa final da Recopa?
Acho
que será uma emoção com peso duplo. Uma Recopa, há algo que nos une, essa
tragédia, mas a maior homenagem que se pode fazer é jogar um grande futebol,
demonstrar um grande espetáculo, e deixar o resultado nas mãos de Deus.
E qual a sua torcida?
Tenho
o Atlético Nacional no coração. Torço para que o Atlético vença a Chape. Tenho
carinho pela Chape, mas o meu coração manda.
Chegou a falar pessoalmente com algum dos
jogadores da Chape, algum dos sobreviventes?
Não,
não. Não tive a oportunidade de falar com eles. Os cumprimentei outra vez no
amistoso entre Brasil e Colômbia, mas não saíram palavras naquele momento.
Como foi receber uma proposta para jogar
no Brasil pouco depois dessa tragédia, e fazer essa transferência em um momento
tão especial?
Creio
que foi uma decisão de Deus, uma mensagem de Deus. Recebi uma ligação do
Brasil. Depois de tudo o que aconteceu, saber que o Flamengo se interessava por
mim, que queria me contratar. Foi perfeito e agora estou aqui.
E qual foi, em todo esse período entre a
tragédia e a confirmação de que você jogaria no Flamengo, o momento mais
emocionante, o que mais te marcou?
O
momento que mais me emocionou foi quando meu representante me disse que eu era
jogador do Flamengo. Era um sonho que eu tinha de jogar no exterior, e o
Flamengo me abriu as portas do clube para seguir minha carreira e seguir
crescendo pessoal e profissionalmente. Foi muito gratificante receber essa
oportunidade. Dia a dia estou trabalhando duro, é a melhor forma de retribuir o
que fizeram por mim.
Aonde você assistirá a essa partida agora
e a outra em Medellín? Houve algum convite para que participasse de alguma
homenagem lá?
Não,
nem seria possível, estou com o Flamengo me preparando para a fase decisiva do
Carioca, a Libertadores. Verei pela televisão. Vou apoiar à distância o
Atlético Nacional, mas neste momento estou aqui com o Flamengo e vou estar
concentrado 100% no Flamengo.

COMENTÁRIOS: