A falta de afago na alma rubro-negra

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

CHUTE
CRUZADO
: Por Pedro Henrique Torres

No fundo, o rubro-negro não deseja uma revolução após a eliminação na
Libertadores. Há em cada torcedor, lá no fundo, aquele pingo de sensatez antes
da verborragia carregada de mágoa. Queria, mesmo, um afago na alma. Alguém que
compartilhasse da sua frustração no momento mais doloroso da temporada, quando
um sonho se dissipou. Que fosse uma voz do coração rubro-negro nos microfones.
Eduardo Bandeira de Mello, o rosto do atual Flamengo, passou longe. Talvez por
tentar blindar o clube. Talvez por tentar manter o caráter político. Mas errou.
Passou a mensagem de quem flerta com a indiferença. “O trabalho continua.” Um
dia comum. Não foi.

O
caráter popular está enraizado no Flamengo. É um clube acostumado a posturas
mais enfáticas. Verborrágicas. Não, Bandeira não deveria ter gritado, dedo em
riste, proferido palavras pesadas e demonstrado descontrole diante das câmeras.
O desgaste na imagem do presidente poderia ter sido poupado com palavras
simples. Sim, virão algumas mudanças pontuais. Sim, houve erro e será analisado
internamente. Sim, desculpas são pedidas diante de mais um fracasso. Sim,
haverá cobranças no departamento de futebol. Sim, de novo o Flamengo caiu em
uma primeira fase de Libertadores mesmo diante de tanto investimento. Nada
normal e natural.
A
desconexão com sua gente não foi apenas do presidente, Eduardo Bandeira de
Mello. Foi também do vice de futebol, cargo que acumula desde a saída de Flávio
Godinho. O torcedor rubro-negro pedia, ali, indicações mínimas. Um afago. Um
carinho do presidente como a mãe que diz ao filho, choroso com o joelho ralado
depois de uma queda, que tudo vai ficar bem. Pelo contrário. Bandeira optou
pelo velho caminho de se vestir de Dom Quixote em busca dos moinhos
imaginários. Confrontado com perguntas duras indicou que existiam rubro-negros
felizes com a derrota no Twitter. Além de não afagar, ironizou a dor de quem
esperava tter o pesar compartilhado. Colocou-se num pedestal, longe da massa.
Pecou.
O
brilhante trabalho administrativo não o exime de críticas diante dos fracassos
no futebol. São muitos em quase meia década de gestão. Copa do Brasil,
Sul-Americana e Libertadores, apenas nas mais recentes. A promessa de ano
mágico, dourado ou qualquer outro adjetivo que indica sucesso cada vez mais
parece se perder no ar. Por isso, em mais um baque tão violento, faltou
sensibilidade e menos frieza ao presidente. “Não está acontecendo nada. Foi uma
derrota”. No vexame da Libertadores perderam todos os rubro-negros. Mas perdeu,
principalmente, Bandeira. Não, o torcedor não deseja a cabeça de Zé Ricardo, a
troca de todos os jogadores. Queria, apenas, um afago na alma. E não o recebeu.

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