“Agradeço oportunidade de ver a torcida do Flamengo”, diz Bielsa.

61
Treinadores, Tite e Marcelo Bielsa em palestra na CBF – Foto: Lucas Figueiredo / CBF

BLOG
DO PVC
: A CBF realizou o simpósio que o Brasil necessitava depois dos 7 x 1. Se
seria positivo ter Josep Guardiola, Carlo Ancelotti e José Mourinho, nada
desprezível foi o elenco montado para a segunda semana de evolução do futebol
brasileiro, como se chama o evento, que terá palestras sobre negócios,
marketing, com gente da Premier League, do Arsenal, e que no primeiro dia
contou com Tite, Fabio Capello, Carlos Alberto Parreira e Marcelo Bielsa.

Tite
abriu o trabalho com uma ilustração brilhante sobre as relações entre técnicos
com dirigentes, jogadores, jornalistas, sobre o ator principal do futebol, o
atleta, e ilustrações geniais sobre marcação por pressão no campo de ataque, no
meio-de-campo e na frente da grande área defensiva.
Fabio
Capello evitou falar de tática e correu o risco de parecer o mais boleiro dos
três, ao tratar de autoridade e simplificar o sistema com três zagueiros.
Explicou também como fazia o treinamento para linha de impedimento. Mas tratou
muito bem das relações necessárias para aprender como se trabalhar em cada
país. A cultura de cada lugar é fundamental.
Marcelo
Bielsa é um espetáculo à parte. A começar pela maneira como chegou à sede da
CBF. Enquanto a maioria estava de blazer, Bielsa chegou de roupa esportiva. Foi
caminhando do hotel até a sede da CBF, um percurso de 3,4 km, percorrido em
aproximadamente 43 minutos. Contou sobre o garoto Gabriel, porto-alegrense a
quem conheceu e com quem troca informações sobre futebol, no Brasil. Sobre o
Maracanã, onde jamais havia estado e visitou no domingo à tarde, para o
Fla-Flu.
”A
razão de ser do futebol é o torcedor. O que acontece no campo mexe com seu
corpo”, Bielsa diz.
Foto: Screenshot / Twitter

”Nunca
tinha estado no Maracanã e agradeço a oportunidade de observar a torcida do
Flamengo e, no espaço onde eu estava, três garotos com a camisa do Fluminense.
Apreciar a convivência me emocionou.”

Discorreu
sobre os sistemas táticos sem citar o 4-4-2 nem o 4-2-3-1, mas mostrando suas
variações em linhas de três ou de quatro, defensivamente. O xis da questão de
sua conversa sobre futebol é o jogador e a paixão. E a polivalência. A razão de
seu jogo são as mudanças de sistema com os mesmos jogadores e, para isto, a
capacidade dos jogadores executarem duas ou três funções. 

”Me impressiona como
todos os jogadores da seleção brasileira podem fazer duas funções, exceto os
laterais”, disse.

”Nas
divisões de base, não se deve ter uma escola de um clube que faça todas as
categorias jogarem com um mesmo sistema. O ideal é cada jogador passar um ano
atuando em um sistema diferente. Ou mudar de sistema a cada dois meses, para
que todos possam ter cultura tática.”
Bielsa
é a terceira escola argentina. Dividida entre os menottistas e os bilardistas,
os argentinos duelaram durante anos entre os apreciadores do futebol arte e de
resultados. O embate Menotti x Bilardo por lá significa um pouco o que, para
nós, é ganhar como em 1994 ou perder como em 1982.
Bielsa
é o misto, a terceira via.
”Sou
um apreciador de Menotti, do que ele significa para mim. Ele costuma dizer que
cada coisa deve estar em seu lugar. A cozinha na cozinha, o banheiro no
banheiro. Isto é exatamente o oposto do que penso. Pensar diferente de um
mestre é realmente muito perigoso, mostra que sua chance de estar errado é
muito grande. Exige também respeito pela discordância.”
Lembre-se
de que Guardiola, antes de dirigir o Barcelona, usou como base conversas longas
com dois mestres argentinos: Marcelo Bielsa e Cesar Luis Menotti.
Não se
sai da palestra de Bielsa com a certeza de que ele é um modelo para vencer no
futebol. Ele mesmo diz que venceu pouco. É verdade. Digamos que Bielsa seja mais
do que isso: um exemplo de paixão pelo futebol. E de firmeza nos princípios que
defende. 

COMENTÁRIOS: