Com balanço editado por Eurico, Vasco está em estado de falência.

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Eurico Miranda abraçando o zagueiro Rodrigo – Foto: Carlos Gregório Jr/Vasco.com.br

EPOCA
EC
: Eurico Miranda tem o defeito de tentar mostrar força só no gogó. Quando a realidade
dá as caras, a frase de efeito constrange – como quando o Vasco foi rebaixado à
segunda divisão, em 2015, apesar de o presidente ter garantido que se mudaria
para a Sibéria se isso acontecesse. “O Vasco vai brigar nas cabeças, com
certeza”, dizia o cartola em entrevista coletiva que havia convocado, em 20 de
dezembro de 2016, para falar sobre as finanças vascaínas. Meses depois, após
publicado o balanço financeiro do clube, chega a realidade. Não há nenhuma
evidência de que haja tenha condições de disputar as primeiras posições do
Campeonato Brasileiro. Nem perto disso. O Vasco de 2017 em estado de
insolvência.

Antes
de nos aprofundarmos nos números, um alerta. Tudo o que você lerá aqui foi
extraído do balanço financeiro vascaíno. Mas há razões para desconfiar do
documento. A auditoria independente Anend, contratada por Eurico para verificar
as contas de 2016, como manda a lei, expressou em seu relatório que não pôde
checar todos os dados. Os auditores não conseguiram confirmar se havia dinheiro
em caixa, por exemplo, nem uma série de outros indicadores cujos valores foram
apresentados pela direção cruzmaltina. A auditoria avaliou as finanças com o
que tinha e responsabilizou a administração do time pelo o que viu, mas não
pôde testar.
Dito
isso, comecemos pelo dinheiro que entra no caixa. O Vasco faturou R$ 213
milhões em 2016, o maior valor de sua história, mas com um enorme asterisco. A
maior parte do aumento se deve aos R$ 60 milhões em luvas que recebeu da TV
Globo por vender, antecipadamente, os direitos de transmissão para as
temporadas de 2019 a 2024. O faturamento recorrente, sem as luvas, está na casa
dos R$ 150 milhões. Outras fontes de receitas mostram performances
preocupantes. O Vasco teve em 2016 as piores rendas de sua história recente –
desde 2010, quando passou a detalha-las – em bilheterias, patrocínios e
transferências de atletas. O que segura as pontas é a TV.
Depois
vem o dinheiro que sai do caixa. Apesar de jogar a Série B, campeonato no qual
a competitividade é menor, os gastos aumentaram para quase R$ 200 milhões.
Repare o descompasso entre quanto o Vasco arrecada e quanto o Vasco gasta.
Faltaram R$ 50 milhões para que o clube conseguisse apenas fechar a conta – sem
que pagasse um centavo sequer das dívidas que acumulou ao longo dos últimos
anos, assunto para o parágrafo seguinte. Eurico só terminou o ano no azul
porque recebeu as luvas pelo contrato de 2019 a 2024. Uma receita que não se
repetirá nem em 2017, nem tão logo.
Se o
problema fosse pontualmente o descompasso entre receitas e despesas, estaria
tudo certo. O Vasco tem condições de, na primeira divisão, elevar suas receitas
com bilheterias e patrocínios para tentar fechar a conta. Mas não é o caso. O
resultado das trágicas gestões de Roberto Dinamite e do próprio Eurico é um
endividamento maior do que o Vasco. O clube possui R$ 205 milhões em dívidas de
curto prazo, que precisam ser pagas no decorrer de 2017, equivalentes a 40% de
todo seu endividamento. Você não precisa de calculadora para chegar à principal
conclusão. Se o Vasco fatura coisa de R$ 150 milhões, mas gasta R$ 200 milhões
com despesas e tem R$ 205 milhões a pagar em dívidas, faltam R$ 255 milhões
apenas para que o clube termine 2017 no zero a zero. A auditoria é clara sobre
a situação no relatório que acompanha o balanço: “eventos ou condições futuras
podem levar o Vasco a não mais se manter em continuidade operacional”. Em
português claro: o Vasco pode quebrar de vez.

Eurico
alega que a situação hoje é melhor do que quando reassumiu o time, no fim de
2014. É verdade. O endividamento foi reduzido de R$ 653 milhões naquele ano
para R$ 517 milhões em 2016. Mas a razão precisa ser colocada em contexto. A
direção vascaína abateu R$ 113 milhões de sua dívida com o governo, via
renegociação do Profut, graças a descontos em juros, multas e encargos. Não há
dúvida de que a diminuição e o alongamento da dívida fiscal foi uma vitória.
Isso destravou os pagamentos do patrocínio estatal da Caixa, que exige lisura
nas obrigações com o governo para por o dinheiro na conta do clube. Só não dá
para se apegar à redução de uma dívida de longo prazo para colar a versão de
que as coisas melhoraram.
Por
que o Vasco não fecha as portas? Fosse uma empresa comum, o clube entraria em
um processo de recuperação judicial e teria seus bens leiloados para pagar
credores. Não é assim que funciona no futebol. Não há juiz que compre a briga
de tomar São Januário e a sede vascaína numa canetada. Em vez disso, as
receitas são penhoradas aos poucos para pagar os quem chega às últimas
instâncias na Justiça. O efeito disso é perverso. As bilheterias, os
patrocínios e a TV mal chegam ao caixa do clube, que por sua vez vai atrás de
empréstimos para honrar sua folha salarial. À torcida, resta assistir aos
resultados em campo de um clube em estado de falência. Rebaixado em 2013 e
2015, o Vasco que se cuide em 2017.

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