Como a TV ajudou o Flamengo a turbinar seu balanço financeiro.

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EPOCA:
O futebol é um caso à parte. Enquanto o Brasil registrou a maior recessão de
sua história em 2016, com queda de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB), fora
outros dados negativos pelos lados do desemprego e da inflação, a elite do
futebol brasileiro cresceu. Muito. Os 24 maiores clubes do país – os 20 que
jogaram a primeira divisão, mais os quatro que foram promovidos e a disputarão
em 2017 – arrecadaram R$ 5 bilhões na temporada, um aumento de 41% sobre 2015
que deixa os indicadores de outros setores no chinelo. Mas não comemore ainda.
O recorde foi alcançado graças a uma razão só: televisão. Os números de
patrocínios, bilheterias e sócios-torcedores, estagnados ou em queda, mostram
que os clubes evoluíram pouco.
Para
entender o que aconteceu fora de campo, primeiro precisamos quebrar aquele
numerão. Os R$ 5 bilhões se dividem em diferentes fontes de receitas, e nem
todas cresceram do mesmo jeito. O ano de 2016 foi peculiar – e aí está a maior
explicação para a enxurrada de dinheiro – porque nele quase todos os clubes da
elite venderam antecipadamente seus direitos de transmissão do Campeonato
Brasileiro de 2019 a 2024. As assinaturas desses contratos renderam luvas, ou
seja, prêmios que as emissoras pagaram para que os times optassem a fechar
negócio com elas. A concorrência entre TV Globo e Esporte Interativo pelos
direitos da TV fechada também ajudou a elevar os valores. Ao todo, foram pagos
R$ 890 milhões em luvas.
Dentre
as receitas ordinárias, que se repetem todos os anos, os direitos de
transmissão ganharam um reajuste generoso. Os clubes, que em 2015 tinham obtido
em torno de R$ 1 bilhão, receberam R$ 1,8 bilhão das emissoras em 2016. Os
valores de televisão, na soma dos repasses regulares com as extraordinárias
luvas, são a explicação para um futebol que cresce apesar de uma economia que
padece.
As
áreas comercial e de marketing, cujas vendas vão desde patrocínio na camisa até
produtos licenciados comercializados em lojas, não subiram, nem desceram. Foram
R$ 660 milhões arrecadados em 2016 em comparação com os R$ 650 milhões em 2015.
Há motivos internos e externos para a patinada. Ao mesmo tempo que a crise faz
empresas investirem menos em publicidade, o futebol ainda não aprendeu a vender
patrocínios consistentes a ponto de atrair as grandes companhias do mercado. O
futebol hoje depende majoritariamente dos patrocínios estatais da Caixa e de
patrocinadores-torcedores como a Crefisa no Palmeiras.
As
torcidas, que financiam seus clubes quando compram ingressos ou pagam
mensalidades como sócios-torcedores, passaram a contribuir menos. Os R$ 770
milhões arrecadados com bilheterias e programas de associação em 2016 são
menores do que os R$ 830 milhões registrados em 2015. As justificativas são
similares às anteriores. Se o país está em crise, o cidadão tem menos dinheiro
para gastar com fins supérfluos, como o futebol. Mas também é fato que os
estádios ainda têm problemas com segurança, que o preço dos ingressos afasta
torcedores de baixa renda, que boa parte das partidas não tem qualidade
suficiente para empolgar a massa. São todos problemas nos quais os clubes têm
responsabilidade.
Os
clubes brasileiros são exportadores de “pé de obra”, e isso impacta nas contas
dos clubes, porém muito menos do que as demais fontes de receitas. As transferências
de atletas somaram R$ 550 milhões em 2016, enquanto em 2015 tinham rendido R$
430 milhões. O problema aqui é que apenas alguns clubes ganham muito com a
venda de jogadores. O Palmeiras embolsou R$ 51 milhões ao mandar Gabriel Jesus
para o Manchester City. O Corinthians recebeu R$ 74 milhões depois que vendeu
quase um time inteiro para estrangeiros, a maioria deles chinesa. E a grana
varia muito de uma temporada para outra. O Flamengo, que em 2017 tem proposta
superior a R$ 150 milhões para vender Vinicius Junior ao Real Madrid, arrecadou
só R$ 12 milhões com todos os atletas que transferiu em 2016.
O
resumo da ópera é que, ao mesmo tempo em que o faturamento explodiu por causa
dos novos contratos de televisão, as receitas com patrocínios, bilheterias e
sócios-torcedores estagnaram. Além disso, não dá para contar mais com as luvas.
Alguns times ainda têm direitos de TV aberta para negociar, como Palmeiras e
São Paulo. Outros têm valores a receber em 2017 do acordo que firmaram em 2016,
como o Flamengo. Mas o grosso já foi. Tampouco dá para contar com as
transferências de atletas, que podem bombar numa temporada e sumir na outra. No
fim das contas, o recorde histórico, se não for detalhado, passa uma impressão
parcialmente equivocada ao torcedor: de que as coisas vão muito bem. Não vão.
Ainda não.
Disclaimer
Os
números expostos aqui vêm de balanços financeiros publicados pelos próprios
clubes. ÉPOCA compilou, padronizou e analisou os dados com o apoio técnico de
Cesar Grafietti, analista financeiro do Itaú BBA que há anos se debruça sobre
as finanças. O problema, especialmente no que toca os faturamentos, é que os
balanços não seguem os mesmos padrões contábeis para lançar as receitas – um
problema que a Autoridade Pública de Governança do Futebol (Apfut),
recém-constituída, tenta resolver neste momento. Enquanto isso não acontece, a
reportagem fez ajustes para que as comparações entre os números, e portanto
toda a análise, estejam corretas.
Tratemos
de exemplos reais. O Corinthians vendeu em 2016 a maior parte do time que foi
campeão nacional em 2015. Ao todo, as vendas somaram R$ 144 milhões. Esse é o
valor, enorme, que o time lança em suas demonstrações financeiras. Mas nem todo
o dinheiro foi parar no caixa corintiano. Como empresários detinham fatias dos
direitos econômicos de vários atletas, o Corinthians recebeu de fato apenas R$
74,5 milhões. Outros clubes, como o Palmeiras, que lançou apenas R$ 51 milhões
recebidos pelo Manchester City por Gabriel Jesus, sem a parte do empresário,
seguem outro padrão. A fim de igualar os denominadores, ÉPOCA considerou
somente os valores líquidos, depois de descontados os percentuais alheios.
O
mesmo desarranjo aparece nos lançamentos das luvas. O Flamengo contabilizou R$
100 milhões pela assinatura de um novo contrato de TV, mas recebeu R$ 70
milhões em 2016. O restante vai entrar no caixa no futuro. Já Palmeiras e São
Paulo não apresentaram as luvas que receberam em 2016, respectivamente R$ 38
milhões e R$ 60 milhões, como receitas. Não há nada errado com os balanços
financeiros. As regras estão contabilmente corretas se cada documento for
avaliado individualmente. Na comparação entre um clube e outro, no entanto, a
comparação crua dos valores apresentados sem ajustes para que sigam o mesmo
critério estaria equivocada. Neste caso, ÉPOCA levou em conta todas as receitas
com luvas que entraram em caixa no decorrer de 2016, com a ressalva de que essa
fonte não é recorrente, ou seja, não se repetirá tão logo.

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