Confira a dívida dos Clubes brasileiros segundo balanços 2016.

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EPOCA:
Mudam
os dirigentes, mas não muda o comportamento. Em meio à crise econômica que
achata o país, os principais times brasileiros de futebol bateram recorde de
faturamento. Em 2016 foram R$ 5 bilhões arrecadados, 41% a mais que no ano
anterior. Boa notícia. Se sobrou dinheiro, enfim, seria lógico crer que os
cartolas pagariam dívidas e poupariam algum trocado para não se estreparem em
2017. Só que o futebol é uma draga. Quanto mais ganha, mais gasta. E, no
Brasil, onde não há nenhum tipo de autorregulamentação para pregar
responsabilidade, quando sobra é hora de gastar ainda mais.
O
melhor indicador do que foi feito com o dinheiro excedente está no
endividamento dos clubes. ÉPOCA extraiu os dados dos balanços financeiros e,
com o apoio técnico de Cesar Grafietti, analista financeiro do Itaú BBA que se
dedica às finanças do futebol há anos, classificou as dívidas dos times. O
panorama mostra que entre os 24 principais clubes do país, os 20 que jogaram a
primeira divisão em 2016 e os quatro que foram promovidos e a disputarão em
2017, as dívidas aumentaram 2% e chegaram a quase R$ 6,4 bilhões.
Para
entender por que o endividamento subiu mesmo com tanto dinheiro a mais,
precisamos separar as coisas. Nem toda dívida é igual. O maior credor dos clubes
de futebol é o governo, a quem essas 24 equipes devem R$ 2,7 bilhões. Todo esse
dinheiro corresponde a impostos que não foram recolhidos por dirigentes ao
longo dos anos. Só em 2015, com a criação do Profut – uma lei federal que
possibilitou aos clubes parcelar os valores devidos em até 20 anos e ganhar
descontos em multas, juros e encargos –, é que a dívida foi revista.
A
dívida fiscal dos times aumentou 8% em 2016. Não quer dizer que os impostos
voltaram a ser sonegados pelos clubes. Não é o caso. O que foi combinado pelos
dirigentes na renegociação do Profut em 2015 tem sido cumprido até agora. A
questão é que, sobretudo com uma dívida tão grande e com um prazo tão alongado,
a correção anual pela inflação fará com que o valor suba um pouco todo ano.
Isso não quer dizer que houve novamente irresponsabilidade por parte dos
cartolas – até porque, nas condições atuais, com quase toda primeira divisão
patrocinada pela Caixa, quem ignorar os impostos acaba perdendo o dinheiro
público que vem do banco.
A
segunda maior dívida do futebol é bancária. Embora arrecadem centenas de
milhões de reais com televisão, patrocínios e torcedores, quase nenhum clube
tem um caixa organizado a ponto de sanar as despesas só com essas receitas. Por
isso dirigentes recorrem a bancos para tomar empréstimos. É a dívida mais
perigosa porque, para convencer os banqueiros a lhes emprestar dinheiro, os dirigentes
dão receitas futuras como garantia. Caso não honrem com os compromissos, os
clubes correm o risco de perder tudo o que têm a receber da emissora de TV ou
do principal patrocinador no futuro. Neste caso, a dívida bancária dos 24
clubes soma R$ 1,7 bilhão.
Os
clubes reduziram, sim, sua dívida bancária em 2016, mais precisamente em 6%. O
problema é que isso é muito pouco diante do dinheiro excedente que entrou no
caixa – as receitas subiram 41%, lembra? Em outras palavras, para que a escolha
tomada pelos cartolas fique mais clara, os clubes diminuíram o montante que
deviam a bancos em R$ 120 milhões, enquanto a arrecadação aumentou em R$ 1,6
bilhão. Era de esperar que a grana a mais fosse usada para quitar boa parte dos
empréstimos com bancos ou, ao menos, fazer um colchão para aliviar gastos em
2017. Que nada.
A
terceira maior dívida é trabalhista. O cartola promete mundos e fundos para
contratar jogadores, deixa de pagar os salários no meio do caminho e vai parar
na Justiça do Trabalho. É um tipo de endividamento que sai muito caro porque,
além de sacanear os atletas que ficaram sem receber e ainda levam a fama de
vilões perante as torcidas, as receitas dos clubes são comprometidas por
penhoras. Acontece muito no Rio de Janeiro. Quando o time vai a campo e
arrecada milhões com as bilheterias, por exemplo, o juiz (do tribunal, não o
árbitro) retém uma parte na fonte para que os jogadores recebam. Aqui estamos
falando de R$ 1,1 bilhão, uma dívida trabalhista que aumentou 3% em 2016 em
relação a 2015.
Afinal,
se os clubes bateram recorde histórico de arrecadação, mas as dívidas
aumentaram, onde foi parar o dinheiro? Em contratações de mais atletas. O
Corinthians gastou R$ 53 milhões em novas aquisições no decorrer da temporada,
um reajuste considerável em relação aos R$ 9 milhões investidos no ano
anterior. O São Paulo aumentou o gasto em contratações de R$ 34 milhões para R$
89 milhões. Assim fizeram Atlético-MG, Botafogo, Cruzeiro, Fluminense, Grêmio,
Internacional e Santos. Todos esses clubes, em medidas diferentes, enfrentam
problemas financeiros. O Vasco foi o único que reduziu a gastança em 2016 – por
um motivo razoavelmente simples: na Série B a demanda por novos investimentos é
mais baixa.
O
dinheiro excedente de 2016 não é regra. O futebol brasileiro bateu recorde em
arrecadação porque os clubes venderam direitos de transmissão para o período
entre 2019 e 2024, antecipadamente, e receberam luvas por isso. É aí que está o
problema. Quando as receitas caírem em 2017, porque não haverá mais luvas a
receber, os clubes nem terão poupado dinheiro para os gastos e prejuízos
habituais, nem terão reduzido tanto quanto podiam suas dívidas mais perigosas.
Além disso, terão aumentado seus custos com os jogadores que contrataram na
bonança de 2016. Nada disso aconteceria se, a exemplo do que fez a Europa com
suas regras de fair play financeiro, tetos de gastos fossem estabelecidos pelos
próprios clubes em consenso. Mas no Brasil cada um faz o que bem entender, e a visão
do dirigente, amador, só vai até o ano seguinte, quando termina seu mandato. O
problema fica para depois.

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