Em 12 minutos, uma história: o Maracanã gritou “Vinicius!!”

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Vinicius Júnior entrando em campo pelo Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

CHUTE
CRUZADO
: Por Pedro Henrique Torre

Em 12
minutos se conta uma história. Observam-se olhos esbugalhados, correria
apressada, anseios de uma juventude angustiada em responder a todos que o
esperam. Coisas de garoto. O jogo é tenso, rivalidade pesada. Estreia no
Campeonato Brasileiro em um Maracanã com 50 mil pessoas. Que gritam. “Vinicius,
Vinicius!”. Talvez pela expectativa de vê-lo em ação. Talvez na expectativa de
contar, no futuro, que estavam lá. O técnico o chama. Mal parece acreditar. Nas
passadas entre o aquecimento atrás de uma das balizas e a linha lateral, o
estádio explode como num gol. A família, em um camarote, sacode os braços, saca
os celulares. À frente deles, ele tira o colete e o joga no chão. Revela o
número 20 às costas. Símbolo de sua passagem para o mundo dos homens da bola.
Logo
ele, ainda tão garoto. 16 anos. Zé Ricardo o puxa para seu lado. Dá instruções.
Ele parece hipnotizado. Olhos fixos em campo. Está ansioso. Deseja a bola.
Fazer sua passagem. Ele cumprimenta Berrío e o substitui. No primeiro lance, a
bola é lançada em sua direção, na ponta esquerda. O Maracanã fica suspenso.
Muitos prendem o fôlego. Outros abrem a boca. Quase todos levantam. Tem o
frisson de um craque, sem que ninguém tenha a certeza de que um dia, de fato,
será. A tentativa de matada no peito é em vão. A bola escapa pela lateral,
nervosa como a promessa do Flamengo. Ele lamenta, bate uma mão na outra. A
torcida aplaude. Alguns companheiros acompanham. “Vinicius! Vinicius!”.
Já é
um xodó. De uma gente que o trata como a criança que começa a dar suas
primeiras pedaladas com a bicicleta. Acham graça até dos erros. Bola na
esquerda de novo. Lá vai o garoto que milhões perseguem para convencê-lo a ir
logo a Madrid. Olhos esbugalhados. Olhar na redonda. Tenta hipnotizá-la. Tenta
fazer com que a obedeça como no mundo dos meninos. Mas ali, pela primeira vez,
é o mundo dos homens. A puxada para dentro tem estilo. A batida para a área,
também. Ao seu jeito, como fez diversas vezes entre a molecada. Mas a ansiedade
deixa o pé pesado. A bola viaja, sobe e passa pela linha de fundo. Guerrero,
astro do time, o aplaude. “Vinicius! Vinicius!”.
A bola
para de novo em seus pés pelo lado esquerdo. Na primeira, não a dominou. Na segunda,
mandou longe. Agora quer ser travesso. Fazer o seu jogo. Decide protegê-la
entre as pernas e usar a fantasia para ludibriar o adversário. Tenta o
calcanhar. Erra. Pela primeira vez, a torcida já chia. Reclama. Vinicius,
enfim, ganhou seu selo entre os profissionais. Troca de lado. Aparece pela
direita. Os minutos correm e o o apito final se aproxima. Ele recebe e ginga
para cima de Maicosuel. É facilmente desarmado. Não desiste, combate, está
ansioso. Em vão. No último segundo, mais uma chance. Dessa vez, um cruzamento
na medida da cabeça de Guererro, mas o zagueiro se antecipa. Fim de jogo,
início da carreira profissional. Mas há espaço para mais.
Entre
os homens, Vinicius sabe que é só um garoto. Que sonha com ídolos, imita seus
movimentos. Ali está ele, Robinho. Lado a lado. Como um tiete, se aproxima
timidamente e pede a camisa. Em seu dia, deseja a relíquia de quem sempre
admirou. O atleticano o abraça e troca palavras com o garoto-sensação.
Estupefato, Vinicius olha para onde o ídolo indica. De boca aberta. Mão no
ombro de Robinho, que o agarra pela cintura. “Vinicius! Vinicius!”. Lá está o
garoto, agora entre os homens. Promessa de um futuro dourado. Certeza, ninguém
tem. Mas já foi diferente. Em 12 minutos talvez, se tenha feito História.

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