Estádios lotados não podem alimentar a ilusão dos estaduais.

14
FOTO NELSON PEREZ/FLUMINENSE F.C.

ANDRÉ
ROCHA
: Responda com sinceridade: que torcedor lembra de título estadual em
dezembro? Só os que nada conseguiram no resto da temporada. Serve no máximo
para tirar sarro do rival que nem isso comemorou no ano.

Mas e
se ele ganha a Copa do Brasil e o seu é rebaixado no Brasileiro, como aconteceu
com a dupla Gre-nal no ano passado? De que valeu o hexa colorado em 2016?
Alguém lembrou?
”Ah,
mas os estádios lotaram, a média de público subiu!” Ora bolas, se só existe
esta competição no calendário do fim de semana, se os clubes mais estruturados
e com estádios atraem seus torcedores pela fidelidade e alimentam a cultura da
arquibancada, o fanático vai assistir a qualquer jogo.
Mesmo
os inúteis, dentro de um calendário inchado. É por causa daquela partida contra
um pequeno que seu time, se estiver bem na temporada, será prejudicado mais à
frente pelas convocações da seleção brasileira. Porque terá que estar em campo
numa data FIFA, quando todas as ligas organizadas param. Punido pela própria
competência.
Também
pagando pela estrutura federativa que alimentam. Estadual inchado porque os
pequenos votam com a federação, que vota com a CBF e ninguém muda o futebol
brasileiro. O campeonato não é atraente para o mundo, que não entende essa
cultura provinciana.
”Ah,
mas os pequenos precisam jogar”. Sim, mas o ano todo. Dentro de um calendário
racional, sem esse ”mimo” de enfrentar os grandes mais do que em qualquer
outro país. Agora em alguns torneios nem são mais dois confrontos, em turno e
returno. Jogos com estádios vazios, na maior parte do tempo.
Que a
maioria tenha agenda para a temporada inteira. Quatro divisões com vinte
clubes, turno e returno, uma quinta regionalizada e que se tente algo mais na
Copa do Brasil. Com apoio da milionária CBF, que precisa olhar ainda mais para
os seus clubes e não priorizar tanto a seleção brasileira.
Vencer
o clássico na final é delicioso, sim. Mas não se depois vem o gosto amargo de
ver o time definhando na reta final da temporada com vinte jogos a mais que
clubes de outros países. Podendo sofrer por isso na Libertadores ou na
Sul-Americana, agora disputadas ao longo do ano.
Perdendo
aquele clássico realmente importante numa reta final de Brasileiro porque
ganhou lá atrás na disputa regional. Que peso isso terá no balanço final do
ano?
Além
da questão política, o Estadual sobrevive no Brasil por um único motivo:
alimenta uma ilusão de grandeza. O clube afundado em administrações amadoras,
que nada consegue a nível nacional e internacional, vai se escorando na
conquista menos importante da temporada.
E,
claro, também para ser visto com bons olhos pela entidade máxima do nosso
futebol. As ovelhas mansas seguem se contentando com migalhas.
Se
você é sócio-torcedor, cobre dos seus dirigentes uma visão a médio e longo
prazo, não imediatista. E daí que a televisão paga bem pelo Estadual? Ela
também é cúmplice da CBF neste crime com os clubes, porque quer jogo todo dia,
já que é um dos poucos eventos transmitidos capazes de manter o espectador sem
zapear por 90 minutos. Se o Brasileiro se valorizar como produto para o mundo,
todos ganham.
Portanto,
vale a comemoração dos que faturaram as taças, sim. Afinal, é o que se tem pra
hoje. Mas não se deixe enganar pela ilusão do estadual.

COMENTÁRIOS: