“Estrutura do Flamengo é para anos de títulos”, diz Márcio Araújo.

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Foto: Bruno Giufrida

GLOBO
ESPORTE
: Márcio Araújo não é daqueles jogadores expansivos, que dão entrevistas
arrebatadoras e nem mesmo dos que se preocupa com críticas. Em resumo, é um
cara centrado, contido, que não tem redes sociais e nem mesmo WhatsApp. Nascido
em São Luís, capital do Maranhão, o camisa 8 do Flamengo passou a infância
jogando futebol depois da escola, ainda de uniforme, e tendo apenas a formação
de boleiro de rua.

Tendo
como inspiração o irmão mais velho, que participava de competições contra times
de outros bairros, Márcio Araújo diz acreditar que sua formação na rua (ele só
foi jogar na base após os 17 anos) ajudou na caminhada.
– A
minha vida toda foi envolvida por futebol. Quando chegávamos da escola a gente
saía, às vezes nem trocava de roupa, e ia jogar na rua. Isso fez com que eu
sonhasse, assistisse aos jogos na televisão e fosse para a rua para jogar
futebol. Isso foi sendo gerado em mim por causa desses pequenos jogos de rua…
campeonatos que o meu irmão Paulinho jogou também me deram inspiração de quando
eu crescer disputar os mesmos campeonatos e ter a mesma alegria que ele tinha
de, no fim de semana, reunir todos os amigos e colegas para juntos disputarem
uma competição que trazia times de outros bairros. Tudo o que eu formei de base
muscular mesmo foi sem trabalho de academia nem nada. Claro que a gente nem
sonhava em chegar no ciclo profissional, mas aquilo me ajudou bastante.
Quando
criança na capital maranhense, Márcio recebeu muita ajuda. Como não tinha
dinheiro para fazer peneiras fora de seu estado e os pais não tinham condições
financeiras de bancar a ida do filho para a base de um clube, ele foi
precisando de favores. Grato pelas oportunidades, o volante reconhece que tem
talento, mas o que fez com que as pessoas confiassem nele foi a força de
vontade.
– A
gente sabe de tudo que a gente passou, quantas pessoas nos ajudaram e eu não
queria que o esforço deles fosse jogado fora… Tenho muitos amigos que pagaram
passagem para mim, que apostaram no meu sonho, acreditaram no meu talento. Mas
acreditaram além do talento. Eu sei que tenho talento e às vezes é até difícil
as pessoas entenderem isso. Minha força de vontade era muito maior e as pessoas
acreditaram nela. Eles viram que eu não ia desistir por qualquer coisa.
Seu
primeiro clube – ainda nas divisões de base – foi o Corinthians-AL. Foi em
Maceió onde o jogador ganhou seu primeiro salário e pôde ajudar a mãe que ainda
morava em São Luís. Do clube alagoano, Márcio foi para o Atlético-MG e esteve
no Palmeiras antes de chegar à Gávea. Desde a passagem por Alagoas, o camisa 8
do Flamengo tem conseguido retribuir aqueles que um dia apostaram no sonho do
garoto maranhense.
– A
minha vida era tão simples há 14 anos e o pouco que eu tinha já dava para me
sustentar. Quando eu cheguei no Corinthians-AL, eles me davam um salário mínimo
para eu me resolver financeiramente. A vida que eu tinha não era ligada a luxo.
Nunca liguei para comprar as coisas para mim. Os meus primeiros salários eu
lembro que praticamente mandava tudo para minha mãe e ficava muito feliz com o
dinheiro que eu recebia. O que eu guardava era para necessidade pessoal mesmo.
Mas quando eu cheguei no Corinthians-AL as coisas foram encaminhando. De lá
para cá eu não precisei mais que as pessoas me ajudassem em relação a isso.
Pelo contrário, tenho ajudado muita gente também e reconhecido o que eles
fizeram por mim.
A VIDA NO FLAMENGO
No
Rubro-Negro desde 2014 – ano em que fez o gol do título do Campeonato Carioca
contra o Vasco –, Márcio Araújo já passou por momentos bons e ruins no Fla. No
clube, o volante teve sete treinadores desde que chegou.
O camisa
8 viu de perto a ascensão de Zé Ricardo ao comando rubro-negro. Desde que virou
técnico, o atual “professor” quase não teve dúvidas sobre quem escalar na
posição de primeiro volante. Mesmo com as contratações de Cuéllar (em 2016) e
Rômulo (em 2017), Márcio Araújo segue sendo utilizado por Zé. Para o treinador,
o volante é um jogador “muito forte mentalmente” e o próprio Márcio reconhece
isso, mas ressalta os valores do técnico.
– Ele
me vê como um espelho em relação a isso, de vencer as críticas e as coisas que
estão lá fora. Eu falei para ele que isso é normal. A gente vive em um grande
clube. É o clube de maior torcida do Brasil. O Flamengo tem uma história muito
grande e que a gente tem que respeitar. A camisa pesa muito. Muitos jogadores
passaram por aqui, viveram muito menos do que eu vivi, não aguentaram a pressão
e foram embora. São coisas que a gente vive, aprende e que serve de experiência
para a nossa vida. Não que hoje eu possa ser espelho para ele, até porque daqui
a pouco ele vai ser espelho para outros treinadores e jogadores. Ele tem uma
referência muito grande em relação à base. As pessoas respeitam muito ele e ele
está conquistando seu espaço no profissional mesmo tendo pouco tempo. Ele já
tem o respeito de todos os atletas, mesmo aqueles de nome. Quando ele fala,
todo mundo sabe respeitar, todo mundo ouve e sabe o conhecimento que ele tem e
o que ele tem feito pela nossa equipe.
As
percepções de Márcio Araújo sobre o clube que defende vão muito além do campo e
bola. O jogador ressalta a qualidade na estrutura que está sendo montada pelo
clube. Segundo ele, o Flamengo tem tudo para ser o favorito ao título em todas
as competições que chegar.
– A
estrutura que o Flamengo tem montado e tudo que o Flamengo tem preparado é para
viver longos anos conquistando títulos. Não é algo de que conquistou o Carioca
ou o Brasileiro e daqui a 15 anos pode voltar a acontecer. Não. O Flamengo está
montando uma estrutura para que todo ano esteja em Libertadores e esteja na
ponta do Brasileirão. Para que todas as competições que entre as pessoas o
coloquem como favorito, coisa que a gente não imaginava nos últimos cinco anos.
Hoje todo mundo fala que o Flamengo é uma das forças. Já é algo que torcedor
tem que entender também.

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