Flamengo vive a etapa mais complexa de sua reestruturação

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Mozer, Zé Ricardo, Fred Luz e Rodrigo Caetano – Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

CARLOS
EDUARDO MANSUR
: Um dos maiores patrimônios de grandes clubes é a intimidade com
as ocasiões nobres, sentir-se à vontade, fortalecido nos grandes testes. Quando
tal característica se perde ao longo do tempo, recuperá-la é das tarefas mais
difíceis. Retrato de tal desafio, o Flamengo vive etapa das mais complexas de
sua longa travessia de reestruturação, cheia de acertos administrativos e erros
esportivos.

Em seu
mais recente livro sobre Pep Guardiola, o escritor e ex-atleta espanhol Martí
Perarnau descreve o fenômeno que denominou “bulimia de vitórias”. Entende que
os grandes clubes europeus, ricos e poderosos, passaram de tal forma a
alimentar-se de êxitos que não são sequer capazes de desfrutá-los, pendentes da
próxima vitória e da incapacidade de lidar com fracassos. O caso rubro-negro é
uma bulimia às avessas. Nos duelos transcendentais, tem se intimidado.
Não é
preciso limitar-se à gestão atual, embora as características do clube tenham se
alterado. Antes dela, o Flamengo vivia a típica instabilidade dos grandes
clubes brasileiros: a alternância entre conquistas esparsas e crises técnicas,
formações de times caros entre anos de penúria econômica. Em meio à
precariedade administrativa, algumas vitórias foram gestadas em bases quase
artificiais, a preços que não se podia pagar. O que o clube conservava era a
ambição, o apreço por grandes decisões, embora fosse dominante no Rio e já
coadjuvante nacionalmente.
A
gestão atual iniciou em 2013 a necessária reforma administrativa. Mas dotou o
clube de uma autocomplacência que tomou de assalto o futebol, protegido pelo
discurso de que o trabalho essencial não se fazia no campo, mas nos
escritórios. O preço foi, primeiro, encarar derrotas como inexoráveis. Mais
recentemente, a dificuldade de recuperar a intimidade com as grandes ocasiões.
Fatores
anímicos não explicam tudo em futebol. Era natural que o saneamento do clube
cobrasse um preço no campo, ainda que seja justo discutir se o tamanho do
impacto pudesse ser menor. O fato é que, nos últimos anos, entre trocas de
técnico, de executivos e de modelos de gestão no futebol; entre equívocos no
mercado e montagens deficientes de elenco, o Flamengo geriu mal o dinheiro
destinado ao campo. Fosse ele pouco ou muito. O elenco atual tem nível elevado
no âmbito doméstico, mas tem carências e desequilíbrios incompatíveis com o
quase meio bilhão de reais em receitas em 2016. Com investimento alto, na hora
de dar o salto para objetivos maiores, o clube exemplar na administração
fraquejou na Libertadores.
É mais
fácil fazer este elenco progredir mantendo a base do que pregando a terra
arrasada. Assim como é mais fácil avançar dando sequência ao trabalho de Zé
Ricardo, que não foi feliz em Buenos Aires. Mas o salto decisivo será a
recuperação da velha identidade. O que não é missão apenas para quem entra em
campo.
Quem tem razão?
Donos
de destinos opostos na Libertadores, Botafogo e Flamengo oferecem algumas
lições valiosas num esporte que não tem fórmulas infalíveis. Criticado por se
permitir pressionar pelo San Lorenzo, por ficar pouco com a bola, o rubro-negro
foi eliminado em Buenos Aires. Fiel a um estilo que despreza a posse de bola,
mas que é forte na marcação e cirúrgico em contragolpes, o alvinegro vai
superando fases no torneio sul-americano. Fundamental entender que se trata de
uma falsa contradição.
O
futebol é, muitas vezes, um jogo de convicções. Modelos com amplo domínio da
bola são mais encantadores, mas é possível ganhar de várias formas. O segredo é
construir um time convicto do que pretende, treinado para defender em campo a
ideia em que escolheu acreditar.
O
Botafogo de Jair Ventura é moldado para a marcação forte e as estocadas
rápidas. E assim tem decidido boa parte de seus jogos. Mesmo em casa, diante do
Atlético Nacional, assumiu sua vocação, acreditou em suas ideias e assegurou
seu lugar na próxima fase da Libertadores.
Desde
que Zé Ricardo assumiu o cargo, embora tenha dotado o time de boa organização defensiva,
o Flamengo foi preparado para ter o controle das ações através do domínio da
bola. Daí o estranhamento da postura de Buenos Aires, a sensação de um time
desorientado, fora de seu habitat natural.
O que
o futebol não costuma perdoar é a renúncia ao jogo. A que o Flamengo exibiu ao
sequer ultrapassar sua metade de campo na Argentina, ou a que o Botafogo
ameaçou ter no primeiro tempo contra os colombianos. Assim que reencontrou seu
estilo, passou a construir jogadas rápidas ao retomar a bola, o Botafogo
pavimentou o caminho de sua vitória. Sem trair suas convicções.

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