Mauro alerta para antecipação de Luvas do Flamengo.

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MAURO
CEZAR PEREIRA
: Mais clubes brasileiros aderiram nos balanços de 2016 ao
lançamento de todo o dinheiro antecipado de luvas dos direitos de TV. É o caso
do Atlético e também do Flamengo, por exemplo. Especialistas disseram ao blog
que do ponto de vista contábil é legal, com o “ok” tanto do Conselho
Federal de Contabilidade, quanto do Ibracon, o Instituto dos Auditores
Independentes do Brasil, órgão que regula a atividade.
Mas há
profissionais voltados às análises de balanços que alertam para a questão
gerencial da contabilização integral e antecipada desses valores. Tal ação,
mesmo permitida, pode esconder números que caracterizam más gestões, passando
ao torcedor a ideia de que eles estão melhorando, quando na verdade trata-se de
um período, um ano atípico de renegociação de direitos e aporte financeiro mais
do que extraordinário.

quem defina tal situação como a que caracteriza a “receita não
recorrente”. Ela costuma ser utilizada tanto para justificar gastos, como
também com o intuito de validar a “ditadura dos números”, já que a imprensa
em geral adora abordar cifras, tamanhos de receitas e se há superávit ou
déficit. Muitas vezes ela ignora outros importantes itens que devem ser
analisados no contexto econômico de cada agremiação.
Na
prática é um recurso contábil que permite a dirigentes apresentar resultados
positivos nas finanças de hoje porque sabem, não estarão em seus tronos no
futuro. Balanços irreais inchados por dinheiro excepcional de luvas de
televisão. E que se referem, na realidade, não ao ano do documento em questão, no
caso 2016, mas a um período de seis temporadas, que só virá bem adiante, a
partir de 2019!
Fonte: Itaú BBA / em azul dívidas que caíram

Obviamente
as redes de TV não injetarão tantos milhões de reais assim nos cofres dos
clubes em futuro próximo. E os balanços, consequentemente, não terão a mesma robustez
demonstrada nesse período de vacas “televisivas” gordas. E até lá
outros cartolas estarão nos cargos, nas presidências desses clubes. O problema
será deles. Que se virem, então com essas “bombas-relógio”. Claro,
podem existir exceções. Podem…

Exemplo?
Se os dirigentes do Flamengo não deixarem a política adotada desde 2013, isso
não deverá ser problema para futuros presidentes. E o clube tem uma espécie de
“Lei de Responsabilidade Fiscal”, que inibe, dificulta a má gestão.
Mas o caso rubro-negro foge da linha administrativa dos clubes brasileiros
desde o primeiro mandato de Eduardo Bandeira de Mello. Não é possível ver como
padrão em nosso futebol, onde a gestão tradicionalmente é perdulária, não
austera, o que explica a tabela acima e as monstruosas dívidas.
Não
questiono o aspecto legal, mas sim a economia momentaneamente anabolizada, com
dinheiro do futuro cobrindo rombos do passado e criando um falso presente,
repleto de números que não retratam a realidade econômica. Isso costuma servir
como senha para mais gastança e endividamento. Se a verba antecipada é
referente ao período de 2019 a 2024, tem lógica que apareça toda em 2016 ou
diluída adiante, ano a ano?
Imagine
um assalariado de carteira assinada e que antecipa férias e 13º em janeiro para
cobrir dois terços de suas dívidas, que equivalem a três meses da própria
remuneração. Num primeiro momento ele terá esse déficit equacionado, mas
seguirá devendo. Contudo, poderá renegociar o restante em parcelas,
administrando o caos. Caso siga com as finanças pautadas pela austeridade,
quitará a dívida aos poucos e viverá mais modestamente. Mas ao reduzir o rombo,
o sujeito recupera crédito e vem a tentação. Se continuar a gastando demais, o
futuro será pior.
As
dívidas variam a cada clube, entre bancárias, impostos e operacionais, que
refletem elenco mais caro. Para 2016 especialistas esperam uma estabilização
nos déficits relativos aos tributos, alguma redução no negativo com bancos, mas
seguem como incógnita as operacionais. Vai depender de cada clube. Alguns podem
trocar dívidas bancárias por dinheiro de Conselheiro, por exemplo, gerando uma
“dança das cadeiras” que pode enganar muito analista despreparado.
Ainda mais o torcedor apaixonado.
Quitando
dívidas dos clubes parece razoável o lançamento imediato dessa bolada, como uma
avalanche de cédulas. Mas quem fez isso na prática? E o modus operandi da
cartolagem contém ações como aproveitar que haveria o Profut para atrasar mais
o pagamento de tributos e incluir na renegociação. Você apostaria um salário
que os dirigentes do clube de seu coração não vão deixar essa dívida disparar
novamente? Se a resposta for sim, cuidado. Você também pode se endividar. E não
terá um Profut.

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