Na consistência de Zé Ricardo, o transformar do Flamengo.

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

CHUTE
CRUZADO
: Pedro Henrique Torre

Daqui
a 25 dias, Zé Ricardo irá completar um ano no comando técnico do Flamengo. Em
um futebol tão conturbado como o brasileiro, onde cabeças de técnico são dadas
a prêmio semanalmente, é um feito. Ainda mais para um profissional que deixou
as divisões de base e partiu sem escalas para um desafio gigante. José Ricardo Mannarino,
45 anos, fala mansa e decisões firmes, trabalha tijolo a tijolo na construção
de um Flamengo raro. Um Flamengo consistente, linear, sem sobressaltos. Para
cima ou para baixo. Um trabalho incrivelmente maduro para um técnico
recém-chegado a um elenco profissional.
Não é
fácil lidar com um vestiário com jogadores pesados como Guerrero ou Diego. Zé
conseguiu tornar tudo natural. O reflexo é visto facilmente nos números. São 63
jogos, com 36 vitórias, 16 empates e 11 derrotas. O aproveitamento de 65% é o
maior do clube desde a passagem de Andrade, campeão brasileiro em 2009, com
69,2%. Ainda assim, o Tromba não completou um ano no comando, chegou apenas a
51 jogos e viveu uma enorme irregularidade, que acabou lhe custando o cargo em
2010. Zé Ricardo, não.
Nos
últimos oito meses, sua equipe foi derrotada apenas três vezes. Todas pela
diferença mínima de um gol. Está invicta no Carioca e lidera o grupo na
Libertadores. Após a segurança no esquema 4-2-3-1 que o levou ao terceiro lugar
no Campeonato Brasileiro em 2016, ele amplia o leque discretamente em 2017.
Parece não mudar. Mas, sim, muda. Ao seu gosto. Sem alarde, Zé transforma o
Flamengo e mantém a competitividade da equipe. Cria alternativas. Adapta-se às
dificuldades. No primeiro momento decisivo do ano, suas convicções provaram
estar corretas.
No
início da temporada, deu ao povo o que ele queria. Romulo chegara, Márcio
Araújo rumou ao banco de reservas. Concentrou o jogo no conforto dos volantes,
com extensa troca de passes e infiltrações. E girou o elenco. Então, durante o
Carioca, a equipe, ainda que com muitos reservas, passou a abusar das bolas
aéreas em detrimento ao já tradicional jogo de posse de bola, de pé em pé.
Parecia falta de recurso. Uma crise de identidade. O técnico deu de ombros aos
burburinhos. E tudo se provou, mesmo, um teste. Tão logo os jogos decisivos de
Libertadores e do próprio Carioca chegaram, Zé ordenou a retomada de caminho.
Retornos
de posse, girar da bola, domínio do adversário, triangulações. E alternativas.
Trauco da lateral para o meio contra o Atlético-PR. Do 4-2-3-1 para o 4-4-2,
com Diego mais avançado, jogadores agrupados. Sem o craque, lesionado, mutação
ao 4-1-4-1, com Márcio Araújo já restabelecido e Romulo em um retorno natural.
Na frente, Guerrero é garçom e artilheiro, na melhor fase desde que chegou ao
clube. Graças a um time encaixado. Uma estabilidade rara na história recente
rubro-negra. No Flamengo, mesmo os times campeões nos últimos anos beberam
muito na fonte de boas fases, mas acabaram incapazes de manter o pique a longo
prazo. Justamente por isso, a solidez do Flamengo de Zé Ricardo é o que mais
chama atenção.
O time
atual é difícil de ser batido. Claro que ainda perde, como ficou comprovado
diante de Atlético-PR e Universidad Católica. Não seria, mesmo, insuperável. E
perderá mais vezes. Mas até nas derrotas tem demonstrado um bom desempenho. Zé
Ricardo, à beira do gramado ou em entrevistas, evita gestuais e berros acima do
tom. Uma frieza incorporada pela equipe, capaz de seguir à risca o indicado em
momentos decisivos. No primeiro Fla-Flu da final do Carioca, os pontas Berrío e
Everton viraram marcadores e o Flamengo chegou a defender com seis jogadores
para bloquear o ataque tricolor. Teve sucesso. Contra a Católica no Maracanã,
ele sacou da manga Rodinei na ponta direita, um teste que já fizera no primeiro
jogo do ano. Nada ao acaso. Controle e ajustes em buracos do elenco.
Com
menos de um ano nos profissionais, Zé pode conquistar seu primeiro título já no
domingo. Ainda que a taça não venha, a consistência do trabalho permanecerá. Há
uma ideia e o time alterna formações em torno dela. Erros existem. A
insistência com Gabriel como peça de segurança é um deles. Mas esse Flamengo
terá os retornos de Diego e Ederson e a estreia de Conca nos próximos dias. Um
elenco que coleciona 16 vitórias, seis empates, duas derrotas, 50 gols pró e 16
contra em 24 partidas no ano. 75% de aproveitamento. Um Flamengo linear.
Competitivo. Parrudo. Duro. Graças à consistência de Zé.
Aproveitamento
dos técnicos do Flamengo desde o título brasileiro de 2009

Ricardo: 65% (63J 36V 16E 11D)
Muricy
Ramalho: 57% (26J 13V 6E 7D)
Oswaldo
de Oliveira: 50% (18J 8V 3E 7D)
Cristóvão
Borges: 46,2% (18J 8V 1E 9D)
Vanderlei
Luxemburgo: 63,8% (59J 34V 11E 14D)
Ney
Franco: 14,2% (7J 0V 3E 4D)
Jayme
de Almeida: 63,2% (49J 27V 12E 10D)
Mano
Menezes: 50% (22J 9V 6E 7D)
Jorginho:
59,5% (14J 7V 4E 3D)
Dorival
Júnior: 51,3% (37J 15V 12E 10D)
Joel
Santana: 60,2% (31J 17V 5E 9D)
Vanderlei
Luxemburgo: 58,1% (86J 39V 33E 14D)
Silas:
30% (10J 1V 6E 3D)
Rogério
Lourenço: 45% (20J 7V 6E 7D)
Andrade:
69,2% (51J 32V 10E 9D)

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