O moderno e sua palestra de apresentação.

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Foto: Divulgação

PERON
NA ARQUIBANCADA
: Não tenho nada contra a modernidade no futebol, que se sempre
faz necessária, assim como a renovação. Ser moderno é mais do que usar palavras
e expressões novas e pomposas para explicar funções e acontecimentos que sempre
foram comuns no jogo. Lembro que o esporte só é tão popular por ser fácil de
entender, portanto ninguém precisa de termos rebuscados para provar que sabe de
futebol. A modalidade era para uma elite, que alguns fazem questão de recriar
agora, no início do século passado, quando o esporte estava longe de ser
popular.

O fato
relatado abaixo ainda é uma ficção, mas está muito próximo de virar realidade.
Se o
time tinha algum planejamento para a temporada, ele terminou com apenas três
meses. As derrotas e eliminações precoces tornaram insustentável. Pressionada,
a diretoria tomou uma decisão “corajosa” e, para fugir da pressão e dos
holofotes, correu para contratar um treinador tido como moderno, com cursos na
Europa e que incorporou a nova nomenclatura do futebol – se isso existe.
Treinadores
precisam de apresentações. E eles acontecem. Primeiro para a imprensa. O belo
discurso e o conhecimento agradou a todos que parecem adorar quem fala difícil,
com tom professoral e demonstram conhecimento teórico.
Chega
a hora dos jogadores conhecerem o treinador. Os atletas já acham estranho, pois
o primeiro contato não seria no vestiário, mas sim no moderno auditório. Também
não é permitido que os atletas e alguns membros da comissão técnica, ocupassem
as duas primeiras fileiras. Como em um grande show, eis que surge o novo
professor, acompanhado por um séquito de auxiliares, todos carregando
computadores de última geração. Assim, o novo comandante começa a falar, sempre
com o tom de um catedrático.
“Eu
fico muito honrado pela lembrança do board e do diretor remunerado pela na
minha contratação. Eu e equipe de trabalho que trouxe fazemos parte do mais
moderno existe no futebol. Trago um departamento de inteligência que vai mapear
todos os jogos do planeta, todos os jogadores. Vamos saber tudo o que mais
moderno existe no futebol. Quer saber o que o Chelsea fez no último jogo? É só
eu apertar duas teclas e vai aparecer o “mapa de calor” aqui na tela, fora a
visão 360º de qualquer atleta em campo.
Toda
esta tecnologia mostra como eu sou antenado com um grupo de pessoas que querem
modernizar o nosso futebol. Trocamos mensagens via aplicativos e em pouco
tempo, nossas expressões vão tomar conta do futebol e da mídia. Está por fora e
merece virar piada quem não está ao lado desse grupo de estudiosos. Eu, por
exemplo, fiz meetings com os principais técnicos da Europa, com alguns eu
consegui tirar selfies. Eu não tenho nenhum gap de conhecimento, em comparação
com qualquer técnico do Velho Continente e mantenho networking constante com
eles.
Esqueçam
a palavra tática, aqui teremos sistema. Vamos entrar em campo com o jogo da
outra equipe totalmente desconstruído pela nossa inteligência. Em casa, vamos
propor o jogo, teremos o máximo de posse de bola e marcação será alta. Quero
intensidade no meu time e compactação, com as linhas juntas. Também quero uma
equipe que faça a transição de forma rápida e recomposição na mesma velocidade.
Fora, em busca da vitória, não terei a mínima vergonha de montar uma equipe
reativa, marcando com duas linhas de quatro bem compactadas, quando a minha
leitura do jogo assim pedir. A partir de hoje seremos um time de vanguarda e
seguiremos todas as tendências que vão surgir no futebol, que somente eu e a
minha equipe de inteligência identificaremos antes de todos. 
Quero
jogadores de lado de campo que marquem e cheguem à linha de fundo e o nosso
centroavante vai ter que se adaptar e fazer ao mesmo tempo a função de
artilheiro e falso 9. Não se preocupem [olhando para os jogadores da posição]
nossos softwares simularão o que eu pedirei para vocês. E só olhar para tela e
vocês entenderão. Fora o treinamento no campo, que só eu sei fazer, sempre baseado
em infinitas repetições e separações por setores. Em muitas vezes, nem vamos
usar a bola, para aperfeiçoar o posicionamento. Lógico que drones filmarão
tudo.
Não
esqueçam que na fase de fake news é preciso ter cuidado nas declarações para a
imprensa, então é teremos um media training. Assim, passaremos para o exterior
que tudo está bem no nosso dia a dia.
Sou
uma pessoa bem democrática. Qualquer problema que você possam ter é só falar
com um dos meus auxiliares e eles vão me traduzir para o nosso vocabulário o
que vocês querem dizer. Aí mando a resposta por eles. Contratações? não temos
budget alto, mas temos jogadores que estão no meu target. Dispensas ou
downsizing no elenco? Só para aqueles que vivem no século moderno. Agora, esse
clube está na era da modernidade do futebol. O passado já era.
Acho
que, como sempre, eu fui muito claro. Alguma pergunta?
[Silencio
absoluto, alguns bocejos e a voz do craque do time aparece]
“Já
que somos jogadores, quando nós vamos para campo, treinar com bola? Quando você
vai dizer mesmo como jogaremos? Com certeza, aqui ninguém entendeu nada. Não dá
para você ser técnico, dizer que sabe tudo, se não consegue passar o que quer
para os atletas. Você tem treino para falar com a imprensa e seria moderno se
preparasse para falar com jogadores. Você trabalha com homens e não com seus
computadores”.
Silêncio
total e todos os jogadores foram saindo da sala sem olhar para o treinador e
sua equipe. A modernidade seria testada na manhã seguinte, no primeiro treino.
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pitacos: @humbertoperon

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