Quem são os moradores que não querem um estádio na Gávea?

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Gávea, Sede do Flamengo, sendo construida – Foto: Divulgação

AGÊNCIA
SPORT LIGHT
: Lúcio de Castro

Cheguei
na Cruzada São Sebastião e logo fui vendo um cartaz anunciando a morte do Sammy
Davis Jr. Consternado com a perda de tão boa figura, segui andando ainda meio
zonzo pelos blocos que compõe o enclave popular no meio do chique Leblon. Abro
um parêntesis para lamentar a ausência de uma foto do Sammy. O nobre leitor
morreria de rir e louvaria a sabedoria popular. Quem foi o sábio tão cirúrgico
ao botar o apelido em sósia tão perfeito? Mais alguns passos e eis que tomo um
dos maiores sustos nesses bons anos. Quem está vindo na minha direção, já com a
mão estendida e o sorriso de sempre? Ele, do alto de seu metro e meio e queixo
protuberante. O próprio, aquele que há 5 minutos era um defunto…
Tinha
esquecido que mês sim e outro também alguém bota um cartaz lá na Cruzada
anunciando a morte do Sammy…Que mesmo resignado com a brincadeira de gosto
duvidoso, não se poupa de proferir uns 10 palavrões…E repetir que acha que é
coisa do Soninha…Não vou contar pra ele, mas claro que é coisa do Soninha,
vulgo Da Sônia… Refeito, parei para a boa resenha de sempre. E foi aí que tomei
o verdadeiro susto. Mais algumas linhas aí abaixo e já explico meu susto. O
verdadeiro susto. Um imenso susto. Para o amigo leitor que não é do Rio, peço
desculpas porque algumas ruas e localizações não farão sentido. Mas estou certo
de que, como disse o poeta, falando de minha aldeia, serei universal. E logo
reconhecerá tudo o que vem impregnado nesse breve relato.
São
945 apartamentos ali na Cruzada. Espalhados em 10 blocos. Uns dizem que são
oito mil moradores, outros dizem que chegam a dez mil… Deve haver algum número
oficial por aí mas não difere muito de ser uma grande concentração em espaço
exíguo, um quarteirão espremido entre o Jardim de Alá e a Afrânio de Melo
Franco. Vizinho do Flamengo, da AABB, do Monte Líbano, do Caiçaras, do Shopping
Leblon e de alguns dos mais caros endereços do Rio.  Penso naquela comunidade e sempre me vem a
imagem de um bantustão. Aqueles territórios da África do apartheid, onde os
negros deviam ficar para não se misturar. Historicamente, sempre viram assim a
Cruzada. Mas como a vida deu uma volta, o tempo empoderou aquela gente e na
fresta (apud Simas) eles deram a volta em todo mundo e fizeram dali seus hinos
de vida. Suas festas, seus rituais. Há muito mais vida ali do que nas mansões
do Jardim Pernambuco, do que na Delfim Moreira.
Há um
talento sempre pronto a explodir na poesia das cinco escolas de samba que ali
já existiram, na marca inigualável de ser, preste atenção no que vou falar e
conteste se for capaz, a comunidade no mundo (falei no mundo) que mais revelou
craques de futebol, De Dominguinhos a Uri Gueller, passando pelo maior deles,
Adílio, Ernani, Rui Rei, Paulinho Pereira…são mais de 10 em um pequeno lugar.
Nessa equação tão Brasil em que a demanda de talento é muito maior do que as
oportunidades. Tem médico, advogado, saiu juiz, fisioterapeuta, tem grandes
atores (alô Negueba!), tem tudo.  E tem
alguns dos sambas mais lindos que já ouvi, dos bambas que andavam no pedaço em
outras décadas. Que vão se perdendo conforme as pretas-velhas vão morrendo…
Encontro meu bom amigo Alberto Mussa, craque maior das letras e sempre falamos
que vamos ligar uma câmera ali pra que isso não se perca…Só com a dona Arlete
já ouvi umas dez joias raras… Monsueto, gênio da raça pouco lembrado, era dali.
Tinha Ari Meganha, que ninguém conhece, de letras lindas…
Prometi
que ia falar da razão do susto e me perdi nas divagações sobre essa usina de
talentos. Chego lá, me dê só mais algumas linhas, amigo leitor. Essa gente não
era pra brilhar pelo projeto de poder original. E brilha. Não era porque sempre
tentaram botar eles pra baixo do tapete. A história da Cruzada é essa.
Queimaram a Favela da Praia do Pinto pra que tirassem tudo que é preto e pobre
do Leblon. Mandaram pra Cidade de Deus, pra Cidade Alta. Pela força. Expulsando
de seu lugar. Depois se surpreendem quando a cidade explode nessas cidades. O
problema é que essa turma se esquece que quando se joga gente pra baixo do
tapete, um dia eles saem. Avisam que não vão ficar ali embaixo. Tem a mesma
fome de pão e de beleza (apud Frei Betto) que todos nós. E pegam pela mão,
avisando que, se enganou meu bem, não ficarão debaixo do tapete. Existem poucas
histórias tão incríveis e ricas como a da Cruzada São Sebastião. Por isso volto
sempre a essa história. Já cometi um documentário sobre o tema, ligado ao
futebol, já escrevi sobre. E voltarei.
É só
você imaginar para entender: em poucos lugares existe um contraste tão
chocante: aqui está a Noruega, simbolizada em um Leblon de bonança e produtor
de sobras de luxo como nenhum outro lugar no Brasil. Ou do mundo. Você cruza
uma rua apenas e entra ali, no lugar onde tentou se botar aquela gente pra
baixo do tapete.   Os crimes contra
aquela gente nunca pararam. E seguem. Depois de ressurgirem da Praia do Pinto
pelas mãos deles e a benção de Dom Hélder (existem poucas cenas mais comoventes
do que a despedida do “Dom”, como eles chamam, indo pro Recife. E o povo da Cruzada
cantava: “Obrigado reverendo/ Deus já está no céu vendo/ a nossa gratidão/
Acabou o meu sofrimento/ você fez apartamento/ no lugar de barracão…”),
seguiram tentando enfiar de volta pra baixo do tapete.
Não me
lembro de movimento de protesto a favor da Cruzada quando construíram o
Shopping Leblon. De novo pra quem não conhece, o shopping fica nos fundos da
comunidade. Com a construção, simplesmente acabou a passagem de vento. Alguma
dúvida sobre o tamanho desse crime? Vá lá no verão e veja você mesmo. Nunca se
chegaria nem perto disso, jamais seria aprovado não fosse ali gente humilde.
Acabou a passagem de vento, meus caros. De um lado é o muro da AABB. Do outro o
paredão do shopping. O fim da ventilação oprime acima de tudo as vítimas de
sempre, as crianças e os mais velhos. Certamente muitos cariocas sequer sabem
disso. É claro, a dor da gente não sai no jornal. Meus amigos,vi poucas
aberrações iguais. Fecharam a passagem de ventilação. É preciso botar em
maiúscula? Prometeram umas contrapartidas, uns empreguinhos de boy pra turma da
comunidade, o financiamento de umas melhorias e…taparam a passagem de ar. Desde
então, os ratos aumentaram, as moscas…Vai lá no verão…
Os
crimes seguiram e seguem. Com a construção recente do metrô naquele trecho,
tiraram a área que era de lazer e transformaram em passagem de carro. Onde as
crianças brincavam, onde se estabelecia um comércio, onde quem é de se virar se
virava, encostava um carro de bacana pra consertar, botava uma máquina de
frango cambalhota pra assar e arrumar um qualquer, um tabuleiro de doce…Quando
acabasse a obra do metrô, iriam devolver e tirar a passagem de carro. Tiraram?
Devolveram? O que você acha? Apenas para efeito de comparação, a poucos metros
dali, na Rua Leblon, um dos PIBs mais altos do Brasil, em um espaço físico
relativamente semelhante, os moradores simplesmente fecharam a rua. Um portão
em cada extremidade e pronto, a rua estava privatizada. Alguém reclamou?
Imagina a merda se os moradores fizerem o mesmo na Cruzada…  Era a mãe do Sérgio Pé-Frio que contava. A
madame da casa em que ela trabalhava ali perto falava na cara dela todos os
dias: “a pior coisa que aconteceu pro meu Leblon foi botarem aquela negralhada
ali”. “O meu Leblon…”. Mas certamente repetia pras amigas o quanto era boa pra
mucama. E o Adílio, o Ernani, craques dali, dos tapas na cara que a polícia
entrava dando nos meninos de 10 anos… “Livre do açoite da senzala, preso na
miséria da favela…”.
Pois
muito bem. Poderia falar muito mais. Enumerar os crimes que seguem ali. Mas prometi
que ia falar sobre a razão do susto maior do que a falsa morte do Sammy lá em
cima e cumprirei. É que pouco antes de chegar na comunidade, tinha lido uma
reportagem (Vinícius Castro, UOL) dando conta de que “os moradores não querem”,
segundo representante da Associação dos Moradores do Leblon. Referindo-se aos
moradores do Leblon e a opinião deles sobre a construção de um estádio no
Flamengo.
Salvo
engano maior, e não posso estar tão louco assim, minha pesquisa, nada
científica é verdade, mas no boca a boca, registrou uma adesão de 100% a ideia,
a querer um estádio na Gávea ali na Cruzada. Junto com a Selva de Pedra (de
novo pra quem não é do Rio, esse um condomínio pra bem remediados), ninguém tem
mais autoridade do que os moradores dali pra dizer se querem ou não. Porque a
Cruzada é grudada ao Flamengo. E no entusiasmo com o qual me descreveram a
possibilidade do estádio chego ao susto: como assim, “os moradores não querem”!
Quais moradores? Quem?
Escrevo
isso e penso algo mais grave, que espero não ser possível. Será que não
consideram os moradores da Cruzada São Sebastião moradores do Leblon? Não quero
crer. Porque além dos crimes de ação dos quais foram silenciosamente vítimas ao
longo desses anos todos, há também o crime da invisibilidade social, um dos
mais dramáticos do nosso país. Será que não foram considerados entre “os
moradores não querem”? Mais uma vez invisíveis. Não quero crer, repito de novo.
Então como se chegou a esse diagnóstico, como se falou em nome desse personagem
“os moradores”?
Vou
além: uma das tantas coisas ricas da redemocratização do país, embora alguns
não gostem, foi a sociedade civil se pronunciando, se mobilizando, as
associações de moradores tendo voz. Embora ainda falte tanto. Tudo deve ser
discutido e pensado. Por todos. Todos quer dizer todos mesmo. No caso do
estádio na Gávea, penso sinceramente que esse “todos” diz respeito aos
moradores da Cruzada, da Selva de Pedra e de alguns edifícios da Lagoa mais
próximos. Os que realmente serão afetados, se o forem. Duas, três vezes no mês.
Duvido que afete mais do que o shopping Leblon. Mas quem tem que dizer isso é
quem está ali grudado. Abrir muito esse leque, achar que um morador da Dias
Ferreira, no fim do Leblon, é incomodado, afetado, é o mesmo que dizer que um
de Laranjeiras, Botafogo, Tijuca, Méier. Ok, então que todos esses sejam
ouvidos, e não o que se acostumou entre alguns a falar no “nosso Leblon”. É o
nosso Rio que está em questão, salvo os diretamente afetados, quem pode perder
a circulação do vento com uma obra e não é ouvido…
Comecem
a enquete pelos oito, dez mil moradores do Leblon que estão na Cruzada São
Sebastião para saber se “os moradores não querem”.   Essa é minha modesta opinião, fruto de quem
tá por aí, de quem é da rua, ouvindo quem deve ser ouvido, ou seja, a todos. E
“todos” quer dizer os moradores da Cruzada São Sebastião, os que mais devem ser
ouvidos sobre o tema (junto com a Selva de Pedra). Salvo considerem que eles
não são moradores do Leblon. Os próximos dias estão agitados nessa humilde Agência
Sportlight de Jornalismo Investigativo. Pelos dias agitados e bons que vem por
aí, que me obrigam a esse texto corrido sem nem revisar, sabendo que o tema
desperta paixões e muitos interesses, deixo o alô de que não volto a ele por
bom tempo. Pelo menos até que “os moradores do Leblon” inclua todo mundo.
Por
fim, se um dia as coisas caminharem mesmo na direção do estádio, que os
mandatários do Flamengo lembrem-se sempre de Cabral e a maldição do Maracanã:
não se esqueçam de quem fez a história do Flamengo. O tal estádio acústico deve
ter camarotes caríssimos para pagar que os Vinícius Jr fiquem bom tempo no
clube, deve ter restaurante, hotel, o que quiserem. Mas tem por obrigação
respeitar a história do Flamengo e comportar a todos. Um lugarzinho pra cada
bolso. Um pros “moradores que não querem”, um pro povo da Cruzada, pra turma
que chegava no trem no Maracanã, pra favela. Senão o encontro marcado de quem
menospreza o povão com o grito do Gerdau na madrugada é certo como o Cabral tem
escutado nas noites de Bangu 8.

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