Tostão diz que Diego, do Flamengo, não é craque.

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Diego comemorando gol do Flamengo – Foto: Alexandre Loureiro/Getty Images

FOLHA
DE SÃO PAULO
: Por Tostão

Dias
atrás, em minhas caminhadas diárias, quando converso com as pessoas sobre
futebol e outros assuntos, um leitor me perguntou por que quase todos os times
jogam da mesma maneira, por que os comentaristas discutem as mesmas coisas e
por que há tantas enquetes sobre quem é o melhor, que mudam a cada semana.
Esses provocantes questionamentos servem de reflexão aos treinadores e a todos
nós, que escrevemos e falamos sobre futebol.
Até
anos atrás, quase todos os grandes times europeus, quando perdiam a bola,
marcavam com duas linhas de quatro. Isso começou em 1966, com a seleção
inglesa. Já no Brasil, fazer o mesmo era chamado de retranca, uma afronta à
nossa essência e ao futebol arte. Hoje, a maioria das equipes brasileiras, com
qualquer sistema tático, defende dessa forma. Isso começou com Mano Menezes e
Tite, ambos no Corinthians.
Carile
repetiu as ideias de Tite, mas, nos últimos jogos, mudou, ao escalar dois
volantes (Gabriel e Maycon) e adiantar Rodriguinho, para jogar mais próximo a
Jô. O ataque melhorou. Há várias maneiras de jogar bem e de ganhar.
No
Brasil, há uma tradição e uma admiração pelos clássicos meias de ligação que
jogam entre os volantes e o centroavante, mas exageram nos elogios a esses
habilidosos jogadores. Foi o que eu disse sobre Diego, do Flamengo. Muitos
estranharam e não entenderam. É óbvio que Diego é muito bom para o nível de
futebol que se joga no país. Se fosse um craque, teria sido, pelo menos,
destaque de uma grande equipe na Europa.
É
necessário também diferenciar o clássico meia de ligação do ponta de lança,
segundo atacante, que faz dupla com o centroavante. Essas duplas continuam
frequentes, em todo o mundo, como De Arrascaeta e Sóbis, Robinho e Fred, Agüero
e Gabriel Jesus, Benzema e Cristiano Ronaldo e outras.
Nas
equipes que não têm um clássico meia de ligação, a armação das jogadas pelo
centro é feita pelo meio-campista, que joga de uma área à outra, por um dos
dois atacantes, que recua, ou pelo meia que atua pelo lado, que se desloca para
o centro, como Jadson, no Corinthians. O que geralmente não funciona bem é ter
dois volantes, dois pontas pelos lados, que atuam muito abertos, um
centroavante fixo e um meia pelo centro, como único responsável pela armação
das jogadas, como acontece em várias equipes brasileiras.
Os
treinadores precisam definir a maneira de jogar, ter uns sete reservas para
entrar com frequência e uma ou duas opções táticas para usar no momento certo.
O Palmeiras ainda muda muito. O espalhafatoso e agressivo Felipe Melo incitou a
violência com suas provocações, foi suspenso e deve prejudicar a equipe. Falta
a Borja jogadas mais rápidas e passes mais aprofundados para aproveitar a
velocidade. Ele gosta da bola na frente, e não no pé. Borja é um ótimo atacante,
que ainda não se adaptou ao time, e Willian é um atacante comum, que vive ótimo
momento.
Nas
decisões dos técnicos, há muitas coisas certas e erradas, que se misturam e
que, com frequência, não dá para saber o que é uma coisa ou outra. Daí, ser
mais fácil achar uma única explicação e repetir os chavões e lugares comuns que
satisfazem nossa ignorância. Somente agora, após uns 60 anos, entendi bem o que
o comentarista Kafunga, ex-goleiro do Atlético-MG, dizia: “No futebol, o
errado é que é o certo”.

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