Uma aula de Flamengo no Maracanã

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Rodinei comemorando gol com reservas do Flamengo – Foto: Buda Mendes/Getty Images

ESPN
FC
: Por João Luis Jr.

Nada é
pequeno quando se trata de Flamengo. Qualquer vitória mais confortável pelo
Carioca é uma passagem pro Mundial Interclubes, qualquer empate dentro de casa
é uma crise na Gávea, qualquer moleque franzino que acerta um gol de falta num
campeonato sub-13 é o novo Zico. O Flamengo nasceu para o épico, foi criado
para as grandes jornadas, existe para as grandes narrativas, como um ator que
não aceita atuar em nenhum filme que não tenha ao menos duas invasões
alienígenas, seis fugas de dinossauro, dez gorilas gigantes ameaçando toda
cidade e colocando cada cidadão nas mãos daquele herói predestinado que, num
misto de coragem e loucura, não apenas ri do perigo, como anseia por ele. Em
suma, com o Flamengo vai ser sempre uma tremenda doideira do caral*, e nós
todos sabemos bem.
E isso
ficou claro ontem. Se você pegar a manchete do jornal e ler que “em noite de
público recorde, Flamengo domina partida e vence por 3×1”, você vai pensar
talvez que foi fácil, que foi tranquilo, que foi uma partida confortável onde o
time da casa garantiu sem esforço mais 3 pontos e a torcida teve tempo de tirar
selfies, gravar snapchats, procurar onde estava a câmera de TV e tentar mandar
um sorriso pra família que estava em casa.
Mas,
claro, não foi assim. A vitória do Flamengo teve tensão, teve loucura, teve o
imprevisível, teve uma aula, diante de um Maracanã que recebeu a maior torcida
de qualquer jogo brasileiro esse ano, do que compõe a mitologia rubro-negra, da
jornada do herói em vermelho e preto que precisa ser todo grande triunfo da
equipe da Gávea.
Começou
com um primeiro tempo de tensão. O Flamengo dominava a partida, mas não
aproveitava as oportunidades. Apenas Guerrero parecia ter autorização judicial
para chutar a gol, Gabriel corria pelo campo confuso como uma criança que se
perdeu da mãe no supermercado e Mancuello claramente teve sua alma cedida para
o Internacional junto com Marcelo Cirino, sobrando apenas uma casca vazia que
caminha solitária pelos campos. A torcida estava tensa, a vitória era
essencial, metade da partida terminava num clima de tensão, apreensão,
indagações sobre “como assim de novo o Rafael Vaz em campo, achei que isso
já tinha acabado”.
Então
veio aquele que talvez tenha sido um dos segundos tempos mais “flamengos” da
história do Flamengo. Sim, porque tivemos o lateral reserva entrando pra
decidir, tivemos o empate bobo sofrido em vacilo da defesa, tivemos o golaço
merecido do craque da equipe e um terceiro gol de pura raça, esse sim para
definir a partida, coroando uma noite que terminou com quatro laterais em
campo, a liderança do nosso grupo na Libertadores e Márcio Araújo sendo
ovacionado por 60 mil pessoas em pleno Maracanã.
Uma
noite de tensão, de surpresas, de loucura planejada e de planejamento louco, da
torcida empurrando o time e do time agradecendo a torcida, uma noite que, se
você tiver gravado, pode exibir em qualquer faculdade como “Flamengo 101 –
Introdução ao rubronegrismo para amadores já com um certo preparo emocional
porque fácil não é, meu amigo”.
E
depois dessa noite de suspense e loucura, de heróis improváveis, em que
passamos de “meu deus, como é cabeça dura o Zé Ricardo” pra “meu deus, como ele
vai conciliar a seleção e o Flamengo quando substituir o Tite?”, nós temos, é
claro, um clássico. E não apenas um clássico, um clássico numa final. Uma final
no Maracanã. Porque, quando você é Flamengo, não tem tempo pra sofrer, você mal
tem tempo pra comemorar. Você só tem tempo pra respirar fundo, dar uma
desamassada na camisa e se preparar, porque o Flamengo já vai começar tudo de
novo. E nada pode ser maior ou melhor do que isso.

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