Zico rasga elogios à diretoria do Flamengo: “Trabalho está perfeito”

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Zico não poupou elogios a diretoria do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

UOL: Arthur
Antunes Coimbra é muitas coisas. Maior artilheiro e principal jogador da
história do Flamengo. Estrela da seleção brasileira em Copas do Mundo. Técnico
na Ásia e na Europa (mas nunca no Brasil). Mas, bonzinho? Isso ele não é. Pelo
menos não o tempo todo.

Zico é
um cara legal, bom de papo, mas já entrou em brigas quando era jogador, nunca
vai perdoar Márcio Nunes, o jogador que quase acabou com sua carreira em uma
noite no Maracanã, e se acha injustiçado pela fama de nunca ter vencido com a
seleção brasileira.
Quem
fala com o Galinho hoje, aos 64 anos, conhece o Zico 3.0: um avô orgulhoso de
seis netos que deu um tempo na carreira de treinador e agora aventura-se como
youtuber – com o seu recém-lançado Canal Zico 10. É, também, comentarista do
Esporte Interativo, mas só durante os dias de semana, como ele exige.
Ele
recebeu a reportagem do UOL no CFZ, seu clube de futebol no Recreio dos
Bandeirantes, no Rio de Janeiro. Falou sobre sua geração, a Copa de 1982 e por
que poderia ter sido o melhor do mundo, sobre a ida para a Udinese, suas
decepções por lá e a frustração por não ter jogado com Maradona no Napoli.
Divirta-se:
Sobre onde o próprio Zico se enxerga no
cenário do futebol mundial
Ninguém
chega onde eu cheguei à toa, por amizade, por carinho ou benevolência de
alguém. Foi por conquistas e por números. E os meus números estão aí para
comprovar isso. Eu me considero, e fui considerado pela crítica esportiva
mundial, um dos expoentes do futebol brasileiro
Já briguei muito no vestiário. Vocês nem
imaginam…
A cara
de bom menino acompanha Zico desde o começo de carreira. Quando chegou ao
Flamengo, franzino, era difícil olhar para ele e imaginar alguém capaz de
iniciar uma briga. Mas ele garante: arrumou muita confusão.
“Já
discuti muito em vestiário, você nem imagina. Uma vez, por exemplo, nós
estávamos jogando lá no Maranhão. Estava uma moleza, cinco ou seis gols. E os
caras querendo dar balãozinho para o goleiro, meter gol de letra, de
calcanhar… Eu ficava sozinho e ninguém me dava a bola. E eu não tinha feito
gol e estava puto da cara”, lembra.
Quando
eu cheguei no vestiário, disse que domingo tinha Fla-Flu e que eles iriam se
arrepender de não dar a bola para mim. Gritei: ‘Façam essa palhaçada que estão
fazendo. Vão à merda todos, esqueçam de mim no domingo’.

“Tinha
essas coisas de futebol, eu explodia mesmo. Mas explodia ali, no meio do
vestiário. Era coisa que, quando a veia subia, o cara já sabia: ‘Aí vem m*”.
Eu não queria ser jogador. Só queria jogar
bola
Essa
paixão pelo jogo, que o fazia perder a calma nos vestiários, mas correr mais do
que todo mundo dentro de campo, é fruto de como Zico vê o futebol: muito mais
como paixão do que como negócio.
“Quando
entrei no futebol, entrei porque estava no sangue do povo brasileiro. Eu nunca
imaginei que ia fazer disso o meu emprego. Era a minha alegria, um sonho de
criança. Jogar no Flamengo, aquela coisa do Dida, da camisa 10, de torcedor”.
Foi
por isso que Zico, ao contrário de muitos jogadores hoje, seguiu estudando.
“O meu
pai não deixava ninguém jogar bola se não estudasse. Todo mundo foi para a
faculdade. E eu tive que, com todas as dificuldades, fazer também esse mesmo
caminho”. Zico fez cinco períodos de educação física. Só parou quando foi jogar
na Itália.
Sobre as diferenças do futebol atual e de
quando começou
É
diferente de hoje. Agora, há uma preocupação do garoto ser profissional e já
começar a receber para ajudar a família. Às vezes, até aquela cesta básica que
deveria ser do garoto é para a família inteira. Os valores mudaram, né?
A entrada que quase custou uma carreira
Na
noite de 29 de agosto de 1985, Flamengo e Bangu jogaram no Maracanã. Pouca
gente lembraria daquele jogo não fosse por um lance com Márcio Nunes. O lateral
pulou com os dois pés na direção do joelho direito de Zico.
O
lance é quase criminoso. Zico sai de campo na maca e precisa ser operado. Foi a
primeira das contusões que custaram caro ao Galinho: ele ficou quase um ano sem
voltar a jogar normalmente, passou por três cirurgias e até hoje sente dores no
local. Foi essa entrada que o fez jogar a Copa do Mundo de 1986 sem plenas
condições físicas.
“Quem
perdoa é Deus. Mas eu nunca vou aceitar como ele entrou naquele lance”
Poderia ter jogado com o Maradona
Quem
Zico também não perdoa é o presidente da Udinese na época em jogou na Itália.
Contratado aos 30 anos, ele quase foi campeão italiano, quase foi artilheiro e
quase jogou no Milan, na Inter e ao lado de Maradona. Mas as mentiras de
Lamberto Mazza o fizeram voltar para o Brasil.
Sobre o potencial da Udinese
Quando
eu fui para a Itália, a Udinese vinha crescendo, montou um time bom, mas era
uma equipe jovem. Fez um grande campeonato no primeiro ano, mas se desfez no
segundo. Os jogadores foram ter sucesso depois, no Milan, no Napoli, na
Juventus, na Roma…
Sobre as promessas da diretoria
O
presidente disse que iria fortalecer o time, mas teve uma briga no meio da
temporada. A gente estava em 3º lugar, brigando até o final, mas acabou não
conseguindo a vaga na Copa da Uefa, que era o objetivo. No 2º ano, o cara se
desfez de mais da metade do time
Sobre os problemas com a diretoria
Ainda
teve outro problema, da questão fiscal. Esse presidente me enganou no contrato
de imagem. Eu tinha assinado em 10 de junho, mas ele alterou para 3 de agosto.
Com essa nova data, para vender a minha imagem, teria que pedir autorização ao
Ministério de Finanças da Itália. E ele não deixou mostrar o contrato com a
data de 10 de junho, que era sujeito ao pagamento de imposto no Brasil
Sobre as propostas que recebeu
Esse
presidente ainda me enganou porque não me deixou ir para Napoli, Inter de Milão
e Roma, que eram times que me queriam. Mais ainda o Napoli e a Inter, que
tinham muitos estrangeiros. Mas ele avisou: “Fica que eu vou fazer um bom
time”
E a dupla que nunca aconteceu
A
ideia do Napoli era de me colocar para jogar ao lado do Maradona, mas ele não
permitiu isso. Eu fiquei sozinho na Udinese com o Edinho. A gente teve um
segundo ano difícil. Eu até teria ficado se não tivesse todos esses problemas
com o presidente
A influência no tetra
Zico
pode não ter ganhado uma Copa do Mundo. Mas olha para a conquista do
tetracampeonato de 1994 com orgulho: para ele, a conquista de Romário e
Parreira teve um dedo do Galinho.
“A
seleção de 1994 tem alguns caras que começaram comigo. Só contando os que eu
ajudei diretamente tem cinco: Jorginho, Aldair, Bebeto, Zinho e Leonardo. Essas
caras eu vi crescer, ajudei a carreira deles”.
“O
Leonardo, por exemplo, entrou no time depois de uma conversa que eu tive com o
Carlinhos. Ele treinava com a gente e eu falei: Pode botar de lateral. Ele
entrou contra o Vasco e jogou. Com Zinho e Bebeto eu dava toques sobre o que
eles precisavam fazer”.
Prova
de que os tetracampeões sentiram o apoio foi dada por Bebeto:
“A
primeira coisa ele fez quando chegou no Brasil foi pegar uma camisa e me
entregar. Eu tenho ela lá comigo guardada com os meus troféus. Isso é
maravilhoso, esse reconhecimento”.
E a derrota em 1982?
Nós
fizemos de tudo para ganhar a Copa, mas acho que a nossa derrota beneficiou
muitos para a frente. Eu só não aceito dizer que não ganhou porque não jogou de
forma diferente. Isso não! Só faz aquele futebol quem sabe. Quem não sabe tem
que fazer diferente
Elogiando os campeões italianos
Em
qualquer lugar o pessoal é apaixonado pela seleção. Será que está todo mundo
errado? Futebol é assim, ganha e perde. A Itália ganhou porque já sabia jogar
daquela forma. Não o contrário. A gente sabia jogar de outra e perdeu.
Paciência
Sobre a Copa de 2014
Felipão
é culpado? Lógico! É o comandante. Mas ele também é o responsável pela vitória
de 2002. Ser comandante tem disso. E eu acho que a ligação Parreira e Felipão
não combina. São dois polos que, a meu ver, não se atraem. Mas o cara lá de
cima fez o quê? Quem ganhou as últimas Copas? Parreira e Felipão. Vou botar os
dois, livro a minha pele e ninguém pode dizer nada
A SELEÇÃO HOJE, SEGUNDO ZICO
Perdemos tempo com Dunga?
O
Dunga teve oportunidade e depois só trabalhou no Internacional. Não venceu nada
de especial e, de repente, volta à seleção? Vale para o Felipão, também. O
Palmeiras estava caindo e ele foi para a seleção? Passado é passado. Se jogador
não é convocado quando joga mal porque técnico é contratado pelo passado? Nós
perdemos dois anos pela não colocação do Tite naquela hora.
A seleção de Tite já é favorita em 2018?
Claro
que é cedo. Mas ele arrumou a filosofia. Aconteceu uma mudança de espírito e de
treinamento. Eu acho que está no caminho certo. Está colocando em prática tudo
o que aprendeu nesses anos todos, tudo o que o transformou em um vencedor. E a
gente tem que aplaudir e dar força. Dar força para um cara vencedor é
obrigação.
Neymar pode ser o nome da Copa?
Tomara
que seja. E que seja importante para a seleção brasileira. O Brasil tem que
conquistar uma Copa do Mundo urgentemente para acabar com essa coisa da geração
de 2014. Neymar já podia ter ganho uma Bola de Ouro. É um jogador fantástico.
Sou fã. Eu não vejo ele atrás de ninguém, não. Os números estão provando o que
ele tem feito.
FLAMENGO
Comparando a situação atual com o passado

O
Flamengo está se reerguendo. Quem chegar agora vai pegar um clube estabilizado.
O clube começou agora a fazer investimentos em jogadores, montou uma estrutura
fantástica para os profissionais. No passado, jogador mudava de roupa debaixo
da caixa da água, dentro de container…
Elogiando a gestão atual

Hoje,
o Flamengo tem um CT que não fica devendo a nenhum do mundo. O trabalho está perfeito.
Eu fico feliz de poder ter mudado, a partir de 2012, essa mentalidade. O
saneamento das finanças é positivo. O Flamengo não vai mais aceitar aquela
mentalidade ultrapassada que corroía o clube
Como foi ser diretor do fla durante o caso
bruno
Zico é
ídolo do Flamengo, mas não pretende voltar a trabalhar no clube. Ele já se
aventurou uma vez: em 2010, foi diretor-executivo. Durou apenas quatro meses.
Saiu falando de pressões internas. Diz que nunca mais vai voltar:
“Chance
zero, nenhuma. Talvez algum cargo em termos de base, sem ser cargo de
resultado”. Ele gostaria de orientar garotos, falar sobre a história do clube,
contar um pouco como é ser ídolo. O impacto de trabalhar na linha de frente foi
grande.
Um dos
motivos foi o caso mais polêmico da história recente do Flamengo: a prisão do
goleiro Bruno por assassinato de Elisa Samúdio. 

“Eu vivenciei isso. Foi um
momento muito ruim da minha volta. Eu não tive a oportunidade de conversar com
ele antes de estourar aquela coisa toda. Cheguei até a dizer para ele que
deveria ser o goleiro da Copa de 2014. Ele estava no caminho para isso”.

“Mal
sabia eu o que estava acontecendo…”
Bruno
foi preso em 2010, condenado a 22 anos de prisão. Foi solto temporariamente em
fevereiro, mas já voltou ao cárcere. Enquanto esteve livre, assinou contrato
com o Boa Esporte Clube, de Varginha, em Minas.
“Todos
temos que pagar pelos nossos atos. Se ele tivesse pago por tudo dentro da lei,
não veria problema em ter outra oportunidade. Agora, o problema é que não foi
paga toda essa pena. A soltura veio em uma brecha. Acho que foi uma forma de
aproveitar, em termos de mídia. Mas deu errado. Estava na cara que isso ia dar
errado. Então, eu não acho que foi correta a atitude do Boa Esporte”, opina.
CANDIDATURA À FIFA FOI COISA DE MOMENTO
Em
2015, Zico foi um dos nomes que tentou concorrer à presidência da Fifa. Com
Joseph Blatter afastado e inúmeros escândalos que seguiram ao Mundial de 2014,
a entidade vivia uma situação complicada. O Galinho chegou a trabalhar pela
candidatura, mas não obteve os apoios necessários.
“Aquilo
foi um momento. A vida é feita de momentos. Eu não pensava nisso, mas apareceu
uma chance por causa de um apoio possível ao Figo (que também lançou a
candidatura). Ele virou candidato e não tinha ninguém da América do Sul. Eu
disse ‘vamos ver como é que é’. Uma coisa é você estar de fora. Outra é você ir
ali ver como a força funciona. Foi bom para ver como tudo gira”.
Preparado
eu estou para qualquer cargo no futebol. Eu te garanto”.
ZICO CONTRA O POLITICAMENTE CORRETO
Zico é
autêntico. E, por isso mesmo, tem opiniões fortes sobre alguns temas. Lembra
dele falando das brigas nos vestiários? Se o que fica no vestiário fica no
vestiário, ele também é contra a patrulha do politcamente correto.
Principalmente no futebol.
“Futebol
é torcida, é brincadeira, internet e memes, é gozação, é sadio. Eu não gosto é
daquele politicamente correto, que está muito chato. Em tudo na vida. Não
podemos falar nada, temos que nos policiar. É duro estar no campo e não poder
falar nada, não poder xingar porque tem leitura labial”, reclama.
Isso é
um nojo. É horrível, entendeu? Parece que não pode andar, parece que está
vivendo dentro de um big brother. No meio da rua não pode falar que o cara te
filma, te pega, te manda… “
Sobre o estresse do mundo moderno
Nós
somos seres humanos sujeitos a ações certas e erradas. Ninguém é perfeito.
Agora você tem que andar se policiando, isso gera um estresse muito grande. É
por isso que hoje tem gente morrendo de infarto com 20 anos. Há uma tensão
muito grande em tudo que você faz
Comentando sobre como se policia
Os
humoristas de outra época iam sofrer. Não poderiam falar de uma série de
assuntos. Música de carnaval virou um debate… As pessoas estão vivendo em um
mundo muito tenso e isso te leva a doenças. A gente tem que se preocupar porque
botou algo aqui, amanhã está na internet
VOCÊ GOSTA DE SER FAMOSO?
Maior
ídolo do Flamengo, um dos maiores artilheiros da seleção brasileira. Zico não
consegue andar pelas ruas do Rio de Janeiro, a cidade que adora, sem ser
reconhecido. E, como seu protesto contra o politicamente correto mostra, sabe
que está sempre sendo observado.
“Eu
nunca quis ser famoso, mas me tornaram famoso. É questão de atender a todo
mundo como se fossemos íntimos. Isso é difícil. Aparece alguém que eu nunca vi
na vida e diz: ‘Ô, Galo, beleza? Como é que está?’ Eu digo que estou bem que
está tudo legal. As pessoas gostam de saírem felizes. Receberam um sorriso, um
abraço, um autógrafo, uma selfie ou um videozinho”, diz.
Segundo
ele, é o mínimo que pode fazer por quem o recebe em casa, pela televisão.
“Quando
eu entro na casa das pessoas para comparecer a um jogo beneficente ou faço
propaganda de um produto meu, estou invadindo a vida da pessoa que está em casa
através do vídeo. O cara sente que está conversando contigo. Então, quando ele
estiver na rua, por causa dessa ligação, ele vai falar contigo”.
EXIGÊNCIA PARA TV: NÃO TRABALHAR NO FIM DE
SEMANA
A nova
aventura de Zico é no vídeo. Ele é comentarista do Esporte Interativo. Tem
trabalhado nas principais partidas da Liga dos Campeões. “São quase cinco
anos. É uma casa aberta. Ninguém diz o que tenho que dizer ou fazer. Vou lá,
falo o que vejo. Não trabalho nos finais de semana, exceto na final da
Champions”, diz. “Meu compromisso é um programa na semana e os jogos
da Champions. E acabou. Não queria voltar para aquela vida de jogador. Outras
TVs tentaram, mas tem que trabalhar sábado e domingo. Não quero mais
isso”.
QUEM TEM QUE TER BOA IMAGEM É TELEVISÃO,
NÃO EU
Outra
aposta é no YouTube, com o canal Zico 10. São entrevistas e desafios feitos
pelo próprio Galinho.
“O
trabalho no YouTube me fascina. O conteúdo é inspirado no que está acontecendo
no mundo, mas não faço personagem. Não adianta dizer para cuidar do cabelinho,
para fazer a barba… Quem tem que ter boa imagem é a televisão”, fala.
“Eu
sou uma pessoa normal. Falo o que quero. Brinco da maneira que eu brinco. Fico
pau da vida na hora que fico pau. Não quero que tentem me mudar. Fazer alguma
coisa para melhorar a imagem. Isso não é comigo”.
Mas isso significa que você não volta ao
futebol?
Eu
gostaria de voltar a treinar um time. Ou então ficar aqui no Rio, perto dos
netos, fazendo algo que me dê satisfação.

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